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Laura: a menina que joga no time dos meninos por mérito, mas é proibida pela norma

Osmar Moreira de Souza Júnior, Ana Cláudia Bianconi

Em artigo anterior do Arquibancada apresentamos a Laura e começamos a contar um pouco de sua história, chegou o momento de compreender a sina de Laura e seu pai em busca de seu direito de jogar futebol.

Em 2015, Laura Pigatin, então com 11 anos de idade, participava dos treinamentos no seu clube como qualquer outro atleta, com a única diferença de ser ela uma menina entre meninos; diferença esta muito mais acentuada nas discussões entre adultos que entre a garotada envolvida neste cenário.

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Laura “no início de carreira” com seu time de meninos.

Para participação do campeonato estadual organizado pela SELJ (Secretaria de Esportes Lazer e Juventude), as cidades interessadas devem inscrever uma única equipe em cada categoria. Por este motivo, muitos municípios – como é o caso de São Carlos – costumam realizar torneios municipais seletivos para definir o seu representante no estadual.

Dessa forma, naquele ano de 2015, a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de São Carlos organizou o campeonato sub-11 com todos os trâmites previstos. Abriu as inscrições, realizou o congresso técnico e realizou as partidas em todas as suas fases sem qualquer tipo de intercorrência. Até então, a presença de uma menina entre os meninos, causou um burburinho, mas foi facilmente aceita, Laura jogou e seu time foi campeão, conquistando, por direito, a oportunidade de representar sua cidade na fase estadual.

Vale ressaltar, que o campeonato estadual, acontece com uma primeira fase regionalizada, ou seja, num primeiro momento, os confrontos são regionalizados, então, uma cidade joga com outra em regiões próximas, buscando vencedores regionais, os quais num momento futuro se encontram na fase final estadual.

Partindo para fase regional do estadual, como de costume, novo congresso técnico é realizado, haja vista que a fase anterior, local, não é de responsabilidade da SELJ e sim das secretarias competentes de cada cidade. Neste momento, novamente – agora aos representantes de outras equipes, da esfera regional – a ADESM (Associação Desportiva, Educacional e Social dos Metalúrgicos) comunicou aos demais participantes sobre a presença de Laura como atleta da equipe, obtendo a concordância de todos os representantes das equipes, contudo, a delegada regional da SELJ, tomando conhecimento do fato, tomou decisão contrária, proibindo Laura de participar dessa fase da competição.

Em entrevista ao grupo ProFut, Lauro Pigatin, pai de Laura descreve o episódio e revela seu sentimento de revolta e impotência frente a essa decisão burocrata, autoritária e preconceituosa da delegada.

“No congresso técnico foi acordado, todo mundo concordou, os times, acho que eram três ou quatro times, todos haviam concordado, mas a mulher, que era a delegada responsável não, pois o campeonato é masculino e não vai poder jogar.”

Diante da contra argumentação do técnico da equipe ADESM, o qual insistiu que Laura já havia participado da fase local, e que as equipes adversárias estavam de acordo, Lauro lembra que a delegada foi intransigente e rebateu com a seguinte argumentação:

“Não, está errado o cara de lá deixar ela jogar; o campeonato é masculino e eu sigo o regulamento. Não pode!”

Lauro lembra como foi traumático ter que lidar com a proibição, pois já no primeiro jogo dessa fase regional, Laura não pode embarcar no ônibus da equipe que iria representar São Carlos no torneio regional. O pai a levou de carro até a cidade na qual a partida seria realizada, mas logo se deu conta de que havia todo um esquema preparado para não permitir que Laura entrasse em campo, conforme relata na passagem a seguir.

“Chegando lá, o mesário falou assim: ‘Não, eu tenho ordem pra não deixar ela jogar. Se ela jogar vocês perdem os pontos. Ela não vai poder jogar’. Aí desclassifica o time né? Aí eu peguei, conversei com a torcida do outro time. Todo mundo da torcida apoiava: ‘Não, deixa jogar’. Porque teoricamente ela era um prejuízo pro time, porque teoricamente a mulher era mais frágil. Eu não estava pedindo nenhum favor, ela estava na idade dos meninos…”.

Por fim, quando foi dito pelo técnico que a decisão da delegada era preconceituosa, segundo Lauro, a delegada chegou a falar que preconceito é da parte de vocês, querer que uma menina jogasse entre os meninos.

Laura, ficou muito chateada, pois, por ser menina, não poderia jogar com os meninos. Para muitos, isso pode ser visto como algo normal, pois meninos jogam com meninos, e meninas com meninas. Contudo, não há competições para meninas nesta idade. A própria SELJ apresenta em seu calendário competições para meninas apenas na categoria sub17. Além disso, Laura, participa da mesma rotina de treinamentos dos meninos, se dedica, não falta aos treinos e impedi-la de jogar pelo simples fato de ser uma menina acaba configurando-se em um ato discriminatório e excludente.

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Laura exibe troféu conquistado com o time de meninos.

Por fim, mesmo com todo esforço por parte do pai e dos representantes de sua equipe no sentido de sensibilizar as pessoas envolvidas e em especial a autoridade máxima daquela fase da competição, Laura não disputou o campeonato pelo simples fato de ser menina.

Em 2016, Laura estava com 12 anos, e só poderia participar da categoria sub13, mesmo abaixo da idade, foi selecionada por seu técnico para participar da fase local, em São Carlos, como no ano anterior e a história se repetiu. Sua equipe sagrou-se campeã, credenciando-se para representar a cidade na fase regional estadual e a mesma delegada do ano anterior, novamente proibiu Laura de participar da competição.

Diante da reincidente frustração Lauro, foi às redes sociais e desabafou, sem saber que alcançaria tais proporções, sua postagem no Facebook atingiu vários adeptos, muitos compartilhamentos, que culminou num abaixo assinado que defendia a participação da Laura no campeonato, obtendo 11469 apoiadores.

Paralelo a isso, a comunicação com a SELJ prosseguia por email; contudo foi após a repercussão do caso da proibição na mídia (televisão, rádio, internet) que a resposta veio. Após participar de uma série de programas televisivos e na véspera de participar de um programa de auditório de grande repercussão na Rede Globo, Lauro lembra que um representante da SELJ telefonou para sua casa informando que o problema estaria resolvido, assumindo a responsabilidade de retificar o regulamento para permitir a participação de Laura em 2016, bem como estudar a realização de um campeonato misto para 2017.

A possibilidade de mudanças veio como uma vitória, não da Laura, mas de todas as meninas que como ela são excluídas das competições por serem meninas e não haver competições femininas nas idades abaixo de 17 anos, conforme pode ser atestado pela fala de seu pai Lauro em resposta ao representante da SELJ, quando de seu contato para informar sobre as mudanças no regulamento que possibilitariam que Laura jogasse o campeonato de 2016.

“Eu não quero que a Laura jogue, minha briga não é por causa da Laura. Está acontecendo com ela, o que pode ter acontecido com as meninas lá atrás, ou que outras desistiram. Uma coisa que eu fiquei chateado um dia, que a gente foi em uma loja comprar chuteira pra Laura e a menina que estava atendendo a gente falou: ‘Ah, você joga bola?’, a Laura falou ‘Jogo’ e ela respondeu ‘Eu adorava jogar, mas quando eu era pequena eu jogava com os meninos, mas daí quando eu fui crescendo não dava mais pra jogar com os meninos e não tinha campeonato feminino, daí eu abandonei de jogar’. Aquilo, eu falei é a história que vai acontecer com a Laura, vai acontecer com outras meninas. Aí eu falei pra esse cara, não quero pela Laura, não é só pela Laura, não adianta você me liberar a Laura”.

Lauro e sua filha Laura, que participou com ele juntamente da entrevista, complementaram o raciocínio lembrando-se de algumas outras meninas mais novas que motivadas pela repercussão da história de Laura, haviam ingressado na equipe recentemente, mas em categorias mais novas e, portanto, não seriam contempladas pela mudança do regulamento caso a mesma fosse adotada apenas para a categoria sub13, para atender aos apelos do pai de Laura e a repercussão que o caso ganhou após seu desabafo nas redes sociais que ganhou a grande mídia nacional.  

Em 2017, a promessa não foi cumprida, a SELJ criou um campeonato sub15 feminino, com o argumento de que agora a Laura com 13 anos poderia participar do sub15; como se a briga fosse pela Laura, sem considerar as inúmeras meninas de 10 e 11 anos que se interessam pelo esporte e ficam às margens do esporte competitivo, sem competições para meninas da sua idade, e proibidas de participar entre os meninos, com a persistente resistência em promover competições mistas.

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Laura se preparando para o jogo.

Assim como Lauro, nós do ProFut também temos convicção de que sua luta não é apenas pela Laura. Sua luta é a nossa e de tantos outros que sabem como decisões tecnocratas desse tipo contribuem para conferir legitimidade a discursos misóginos e muitas vezes fascistas que buscam normatizar a performatividade das mulheres no espaço público e estabelecer as fronteiras daquilo que deve se tomado como “coisa de homem” e “coisa de mulher”. A luta é árdua, mas é importante pontuar que Lauro e Laura não estarão sozinhos.