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Lembranças corporais de carnaval

Gabriela Seta Alvarenga

A ideia de adquirir uma vitrola surgiu de uma conversa com um amigo que é DJ e, por sua influência, comprei-a. Até então a vontade era de conhecer música, de tatear o LP. No ano em que eu nasci, o CD-ROM estava super na moda. Em dez anos, ele atingia o ápice e tudo que vinha em CD era bom, ou pelo menos a gente achava que era. Lembro que ganhei alguns deles, de Charlie Brown Jr. à Falamansa, depois GreenDay e a diversão era a briga com os fãs de Simple Plan.

Na minha casa crescemos rodeados por música e festa. Se tinha gente em casa, então tinha festa, e se tinha festa, havia música, gargalhada, gente de pé, e sentada, jogando conversa fora e dando risada. Situações comuns de ocasiões festivas em casa. E por muito tempo foi assim, às vezes com mais gente, às vezes com menos, mas sempre tinha música e pessoas em movimento. E se iam embora, a música era a última que ficava.

Nos tempos de carnavais, e isso quando eu era mais nova, há uns quinze anos (ou até mais), passávamos o feriado inteiro numa chácara. Todo dia a gente jogava bola até escurecer, ou até alguém se machucar e a gente acabar dentro da piscina. E a gente se divertia muito. Fazíamos competição de fantasias e de score no karaokê e era engraçado porque ninguém sabia cantar, mas uma das graças era fazer a performance e acabar ganhando mais pontos que a pessoa mais afinada. E foi sendo assim por bons longos anos, até que a gente cresceu e tudo mudou.

Crescer não significa necessariamente deixar para trás sensações, pessoas ou momentos. Significa conhecer o novo e isso a gente faz a toda hora. Numa perspectiva da Antropologia da criança, o que define ou não esse fim da infância é compreendido de diversas maneiras socioculturais. Portanto, há uma produção contínua e reiterativa de conhecimento e de experiências de sociabilidade.

De qualquer forma, este tempo específico e nostálgico dos carnavais tomou outras proporções. Dos distanciamentos normais da adolescência e juventude, comecei a ocupar as ruas durante o carnaval com alguns outros amigos, ambientes que, de uma primeira vez, não se conhecia quase nada. Os blocos sempre saiam de Barão Geraldo, um distrito de Campinas (cidade de São Paulo de onde venho) e só no outro dia, percebíamos que já tínhamos percorrido o centro da cidade, a festa da roseira, as praças de Sousas (outro bairro), e por fim o after nas casas. E sempre tinha música, sempre tem na verdade.

Carta Campinas

Foto: Divulgação/Carta Campinas

Adolescentes, demoramos um pouco a dançar, porque parecia que, para fazer isso, precisava estar alcoolizado. E quando junta medo, insegurança, primeiras vontades com festa, é difícil iniciar algum movimento sozinha. Então, o carnaval era bom nesse sentido, dava um motivo sem que a gente precisasse justificar o porquê estávamos dançando loucamente no meio da avenida mais movimentada da cidade.

E esse sentimento de explosão somática abria caminhos. Num dia, era o carnaval; noutro, era na torcida, vibrando pela Ponte Preta; ou até mesmo era nossa presença nas ruas reivindicando algo ou questionando o prefeito, o governo, a passagem de ônibus e tudo aquilo que atravessava a espontaneidade. Algo muito intenso, com intimidade. Sempre foi um sentimento bom, mesmo quando era perigoso estar ali. E podia ser em uma micareta porque estava muito lotada, ou na linha de frente das manifestações, imaginando que podia ser o seu corpo ali levando a borrachada, enquanto tentava afastar a fumaça.

Gabriela Seta Alvarenga

Foto: Acervo Pessoal – Gabriela Seta Alvarenga

E novamente essa sensação de passagem, como se não bastasse todo esse sentimento, essa vontade e esse desejo por carnaval, muvuca, shows, folia, o que quer que seja, foi diminuindo. E isso não determinou uma tristeza, uma angústia, apenas mais uma mudança. E das competições de karaokê, das aglomerações dos feriados carnavalescos e das manifestações políticas, se passaram mais de dez anos, e chegou o carnaval do corona vírus.

As festas foram reduzidas para em casa, as aulas para em casa, os bares para em casa, o futebol para em casa, tudo era e ainda é, em casa. A diferença é que não tem mais o toque do ambulante esbarrando em você, o encontrar com aquela pessoa que você não via há tempos, o berro no ouvido disparado por um torcedor ao seu lado, ou aquele seu conhecido penetra, aparecendo na festa de sua casa sem ser chamado. Um sentimento de introspecção pairou e, por uns meses, deu para perceber como o tempo pode ser devagar e rápido ao mesmo tempo.

E nos seis primeiros meses, foi entediante e apavorante e espantoso estar sempre em casa, mesmo que a gente fosse trabalhar. Faltava ânimo, e músicas causavam nostalgia, exaustão, e nem tínhamos bebido ou dançado. Parecia que o corpo respondia a esse som da espera interminável.

Quanto à vitrolinha, ela chegou três dias depois do meu aniversário deste ano. Ela é moderna, toca USB e Bluetooth. Os discos tocam super bem, até a rotação 78 pega. Fiquei muito empolgada com ela aqui, mesmo que não faça parte da minha memória visual, quando minha mãe colocou um LP infantil pra gente ouvir, lembrei na hora que escutava muito essa canção quando criança; assim, talvez, a vitrola sempre fez parte da minha vida, eu só que não lembrava.

Hoje, dez de fevereiro, é aniversário de 83 anos da minha avó materna. Com cuidados, fomos comemorar na casa dela. Essa vitrola é uma maletinha, e quando pus os pés para fora de casa com ela, meu pai disse: “Vai ter música hoje?”, e foi gostoso ouvir isso porque na minha experiência de festas em casa, a música já é quase onipresente. Não precisa que alguém leve o toca disco, é só, no mínimo, logar o celular no YouTube, e aí está. Chegando lá, peguei alguns LPs da minha avó, e levei para a sala. No momento em que ela, meus pais e minha tia perceberam o movimento da vitrola e dos LPs que continham dedicatórias, capas bonitas, encarte raros, tudo virou uma festa. Minha avó imediatamente lembrou de um álbum que meu avô fez para ela de presente, com músicas mais velhas, de bolero.

E enquanto tocava Got my mind set on you, minha tia se levantou da cadeira e começou a dançar no tapete da sala, chamou a minha avó e ela também foi. E passamos a maior parte do aniversário curtindo os discos de poucas músicas, rindo, e nos divertindo. Olhando aquela cena de fora, senti uma nostalgia que naquele momento tive certeza que nunca vivenciei. Havia rituais ali que aprendi na hora. Como funciona um disco, algumas curiosidades sobre o tempo, as gravações em conchas acústicas, e que uma vitrola é um evento.

E o corpo continua sendo esse templo que permite que as histórias fiquem, seja por um crivo musical, um gol num dia de derby (Ponte Preta versus Guarani), em um bloco de rua ou em uma manifestação. A partir dele, se constroem alegorias que arrepiam a pele, nos fazendo sentir o que não lembrávamos até então, recriando experiências sociais a cada novo pulso.

Que saudades do carnaval…

Vinil

Foto: acervo pessoal – Gabriela Seta Alvarenga


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.

 

 


Como citar

ALVARENGA, Gabriela Seta. Lembranças corporais de carnaval. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 55, 2021.