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Lembranças de uma derrota

Sérgio Settani Giglio

No primeiro episódio do Ludopédio em Casa, a conversa com o ludopédico Marco Lourenço, com Raul Andreucci (Dolores Editora) e Bruno Rodrigues (Futebol Café) entramos no papo sobre o que vínhamos fazendo durante a quarentena. O Raul indicou que o jornalista Leonardo Bertozzi havia feito uma lista de jogos para ver novamente. Disse a eles que eu gostaria de rever um jogo que nunca havia revisto na íntegra. A partida era entre Brasil e Argentina pela Copa de 1990. Alguns dias depois desta conversa, essa partida foi a mais votada para a FIFA passar em seu canal no Youtube. Não tinha mais jeito, teria que reviver minhas memórias daquela partida e é sobre isto que escrevi neste texto! Boa leitura.

Naquela sexta-feira pedi para a minha mãe para não ir à escola. Eu estava na então 5ª série e o futebol já havia tomado conta da minha vida. Embora as minhas primeiras lembranças de uma Copa do Mundo sejam da edição de 1986, especialmente, da partida em que o Brasil perdeu nos pênaltis para a França, a Copa de 1990 representa a primeira edição que eu tenho uma memória mais efetiva.

Eu estudava no período da tarde e a abertura a Copa da Itália de 1990 coincidiria com a minha aula. Não teria como conciliar ambas as coisas. Conversei com a minha mãe e não menti. Não inventaria uma indisposição para ficar em casa. Disse a ela que gostaria de ver a abertura da Copa do Mundo. O meu pedido havia sido feito alguns dias antes da cerimônia de abertura que se realizou em uma sexta-feira, 8 de junho de 1990. Certamente por ter sido sincero ela me deixo faltar naquele dia.

Mesmo não tendo ido à escola naquela tarde e de ter sido a primeira Copa que acompanhei mais de perto não vi boa parte das partidas da primeira fase porque boa parte das partidas começavam no horário que eu ia para a escola. Mas aos finais de semana eu não saia da frente da televisão.

Um fato que ajuda a entender a construção desta memória foi colecionar pela primeira vez um álbum de figurinhas de Copa do Mundo. Todos os meus amigos da escola colecionavam. Aqui falo dos meninos e não das meninas, afinal, naquele início dos anos 1990 o futebol era uma dimensão masculina. Tudo era muito dividido. Até nas aulas de Educação Física havia a separação entre meninos e meninas e quando era futsal para os meninos (na clássica divisão das modalidades esportivas coletivas por bimestre) as meninas faziam qualquer outra coisa que não jogar futsal.

O fato é que o álbum da Copa criava um universo à parte para se pensar o futebol, permeado ora pelas trocas ora por bater figurinhas. Aliás, esta última era uma das coisas mais gostosas de se fazer.

Eu realmente faltei na escola naquela data de abertura, mas lembro com certa frustração da abertura da Copa. Diferentemente da abertura dos Jogos Olímpicos, a abertura da Copa é mais curta já que antecede a primeira partida da competição. Enfim, lembro de não ter gostado. Mas temos que considerar que eu tinha 11 anos naquela ocasião.

Gostei mesmo da primeira partida. A Argentina abria a Copa por ser a campeã de 1986 e a partida era contra Camarões. Para mim, não havia dúvidas de que a Argentina de Maradona ganharia e fácil dos camaroneses. Porém, a história foi outra. Camarões superou o favoritismo argentino e venceu a partida por 1 a 0. A seleção africana ainda teve dois jogadores expulsos. Como aquela seleção de Camarões poderia vencer a favorita Argentina? Como uma seleção que tinha um menor prestígio dentro do álbum – as figurinhas duplas indicavam que não era uma seleção forte e por isso tinha direito a apenas uma página – não havia se intimidado frente a campeã do mundo?

Veja o álbum abaixo:

Apesar de não esperar a derrota da Argentina não achei ruim o resultado. Para mim indicava que boas notícias começariam a chegar pelo lado brasileiro. Acompanhei as três partidas do Brasil pela primeira fase e as vitórias sem apresentar um bom futebol colocavam a seleção de Lazaroni sob questionamento. Apesar de não jogar bem, o Brasil venceu as três primeiras partidas – Suécia (2 a 1), Costa Rica (1 a 0) e Escócia (1 a 0).

No chaveamento da segunda-fase o Brasil cruzou com a Argentina. A Argentina que havia estreado com derrota ficou em terceiro lugar do seu grupo. Naquela época as quatro melhores seleções que ficavam em terceiro lugar passavam de fase. A Argentina foi uma delas, após vencer a União Soviética (2 a 0) e empatar com a Romênia (1 a 1).

Mesmo sem jogar um bom futebol até então, fato que vale para as duas seleções sul-americanas, o Brasil possuía uma campanha melhor e estava mais confiante. Em minhas lembranças da partida o Brasil havia dominado a Argentina e chutado algumas bolas na trave. O lance isolado e que revelava a genialidade de Maradona era uma das coisas que o futebol faz ser algo fascinante.

Ao rever a partida posso dizer que não fui traído pela minha memória. O Brasil realmente jogou muito melhor do que a Argentina. Logo a um minuto de jogo, o atacante Careca teve a chance do jogo: recebeu a bola em profundidade, nas costas do zagueiro e após driblar um deles chutou fraco na saída do goleiro Goycochea. Os minutos seguintes o Brasil chutou, mas sem pontaria.

O segundo lance de grande perigo do Brasil aconteceu após uma cabeçada de Dunga bater na trave. Parecia que o gol brasileiro seria uma questão de tempo. A Argentina mais se defendia e em poucos lances durante toda a partida ameaçou o gol de Taffarel.

A volta para o segundo tempo parecia comprovar que o gol era mesmo uma questão de tempo. Uma bola cruzada para a área, por Careca, obriga o goleiro argentino a dar alguns passos para trás e após tocar na bola ela se choca na trave. Na sequência do lance a zaga argentina tira a bola para a entrada da área e o jogador brasileiro Alemão acerta um belo chute que tem um pequeno toque de Goycochea para depois bater na trave.

O jogo no segundo tempo foi em ritmo mais lento do que o primeiro. Careca ainda teria uma outra chance de fazer o gol, agora de cabeça. Mas o ditado futebolístico mais preciso que existe é: “quem não faz, toma”. Em um lance que somente Maradona poderia fazer e ele já havia tentado ao menos duas vezes um lance deste tipo na partida. O lance era conduzir a bola em velocidade, driblar se fosse preciso e sempre buscar Cannigia na diagonal. E foi assim que ele recebeu a bola ainda em seu campo de defesa. Com um simples movimento se livrou de Alemão, escapou do carrinho de Dunga e atraiu os três jogadores da defesa do Brasil para si. O passe milimetricamente calculado para passar entre as pernas de Mauro Galvão encontrou Cannigia livre na entrada da grande área. O atacante argentino teve o trabalho de colocar a bola para o lado e impedir a recuperação de Taffarel. E com o gol livre colocou a Argentina na frente.

O gol da Argentina faltando 10 minutos para o final da partida, sem dúvida que provocou um desânimo na seleção brasileira. Tanto é que logo na sequência o zagueiro Ricardo Gomes foi expulso após impedir o jogador Basualdo de entrar livre na área brasileira. Mesmo assim, o Brasil ainda teve uma chance de empatar. Müller, livre e muito perto da pequena área errou o chute que daria uma sobrevida ao Brasil na partida.

Um jogador do Brasil me chamou muito a atenção durante toda esta partida: o Valdo. Ele foi um jogador fundamental na armação das jogadas do meio-campo do Brasil e se os atacantes Careca e Muller, ambos de muita qualidade, estivessem em um dia melhor talvez o Brasil teria tido melhor sorte. Não me lembro da atuação de Valdo nas partidas anteriores – em todas ele foi titular – mas, para mim, ele foi um jogador importante no modo como Brasil jogou. Porém, no modo como Lazaroni armava a equipe cabia, especialmente, ao Valdo esta função de armação. Os outros dois que compunham o meio-campo dentro do esquema tático do treinador eram os volantes Alemão e Dunga, sendo apoiados pelos laterais Jorginho e Branco.

Maradona deixa Dunga para trás. Foto: Youtube/Reprodução.

A derrota e desclassificação precoce colocaram em xeque a proposta do treinador Lazaroni. Em entrevista recente que fizemos com o ex-treinador da seleção brasileira ele relatou alguns bastidores sobre esta partida.

Lazaroni relatou com Branco tomou água batizada. Aos 40 minutos há uma falta no jogador argentino Troglio. Pela imagem da televisão não é possível ver quem é, mas um jogador brasileiro se aproxima dos membros da comissão técnica argentina e pede uma água.

Além disso, Lazaroni relatou que Maradona era muito próximo de Careca e Alemão. E quando chegou no vestiário, antes da partida, encontrou com Maradona lá dentro. Depois da derrota Maradona estava novamente no ônibus do Brasil. Vale a pena conferir a entrevista com Lazaroni.

Se os fatos contados por ele são verdade ou não pouco importa. O fato é que 30 anos depois desta derrota eu tive a oportunidade de assistir a primeira partida que me fez chorar. Aquela desclassificação não foi facilmente assimilada por mim. Entre os meus sonhos, ser jogador de futebol era uma condição que justificaria a minha existência. O que eu aprendi naquela tarde de domingo de junho de 1990 é que o futebol enquanto drama é capaz de contar a nossa história. Azar de quem não gosta de futebol.

Como citar

GIGLIO, Sérgio Settani. Lembranças de uma derrota.