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Lesões

Leandro Marçal

Faz pouco mais de um mês que Vitor sentiu uma dor estranha no joelho direito, durante nosso tradicional jogo de sexta-feira. Foi levado para o hospital, rompeu um ou uns ligamentos – não sou um grande especialista em medicina, peço perdão a quem me lê. Vai ficar alguns meses afastado do serviço. Ele trabalha numa loja de roupas, precisa andar para lá e para cá, é impossível não ficar de molho.

Quando o visitei, na última semana, Vitor estava com cara de cansado, de resignado. Não se sentia bem pela falta do que fazer todos os dias. Logo ele, que mal consegue ficar parado na loja, arruma caixas, reorganiza roupas. Perdeu as contas de quantas vezes ganhou o prêmio de funcionário do mês, com o retrato estampado para os compradores que pagavam suas contas no caixa.

– Acredita que me chamaram de louco, perguntaram como eu poderia achar ruim ficar ganhando dinheiro sem fazer nada, encostado? Como essa gente dorme?

No grupo dos amigos do futebol de sexta-feira, todos perguntam a Vitor se faz frio ou calor no DM, o Departamento Médico. Ninguém quer ficar por lá e perder a partida depois do fim do expediente, antes da bebedeira do fim de semana.

Lesão no futebol. Foto: Chris Turner (CC BY-NC-ND 2.0).

Vitor vive me perguntando como deve ser a vida dos jogadores impedidos de exercer a atividade profissional que lhes paga as contas.

– Cara, será que eles ficam agoniados como eu? Porque jogar, para eles, é só um trabalho, né? Eles ficam impedidos de ir atrás do ganha pão. Ficam irritados ou pensam que é uma molezinha cair a grana na conta e ficar ali pela fisioterapia? Será que tem algum ídolo nosso que pensa igual à galera da pelada de sexta?

Não soube responder à dúvida de Vitor, mesmo com um pouquinho de inveja por ele não precisar acordar cedo e bater cartão por alguns meses – não tenho inveja nenhuma da dificuldade para andar nesse tempo, das dores, da cirurgia.

Quando vi uma notícia sobre a recuperação de um grande jogador, pensei em Vitor, preocupado em voltar logo para fazer jus ao salário. Claro, o rendimento do craque é incomparável ao nosso – em campo e na conta. Também deve haver um e outro que se acomodam, se acostumam, não ligam. Descansam, aproveitam, vivem de um jeito mais leve que Vitor, devem chegar atrasados aos compromissos, não são de ter ansiedades e muito compromisso.

Lesionados ou não, eles não sabem o que é jogar com a mesma galera, todas as sextas-feiras. Fosse possível, Vitor entraria em quadra de muleta e tudo mais, ainda que atrapalhasse nosso time. Melhor ele ficar em casa para se recuperar do machucado na perna, no joelho, no ligamento, sei lá. Pelo menos sua lesão é visível aos olhos da medicina.