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Libertadores com final única: o que muda no futebol sul-americano?

Marco Lourenço

A última grande notícia que tomou conta dos principais veículos de imprensa e dos canais digitais é o anúncio da Conmebol sobre uma importante mudança no regulamento da Copa Libertadores da América. Inspirada no modelo da UEFA Champions League, a entidade sul-americana confirmou a realização das finais da Libertadores de 2019 e 2020 em jogo único.

A decisão embora não seja surpreendente – o assunto é discutido concretamente ao menos desde 2016 -, gerou uma série de questionamentos e críticas severas à medida. Mas afinal de contas, o que significa essa mudança na prática? Quais as consequências que este novo formato produz? Existe motivo plausível para tanta preocupação?

O que muda com a “Liberta´s League”

Em nota, a entidade afirma “La CONMEBOL Libertadores se definirá en final única a partir de 2019 con mayores beneficios a los clubes y la competencia”. Aprovada por unanimidade pelo Conselho da Conmebol, a final com jogo único terá uma sede previamente selecionada com critérios ainda desconhecidos. Sabe-se, contudo, que as próximas finais serão realizadas aos sábados. Curioso é que a entidade afirma que a partida será realizada em “horario estelar”, o famoso prime time, justamente no dia da semana em que a audiência televisiva é menor.

Especula-se, também, que Lima (Peru) seja a cidade favorita para sediar a nova final da Libertadores. Localização, infra-estrutura turística e uma pretensa neutralidade do campo seriam os argumentos elencados para a escolha do local.

Por fim, o outro ponto importante desta mudança são as responsabilidades e faturamentos em torno da final. Toda a organização, encargos e logística será de responsabilidade da entidade. No entanto, apenas 25% da renda da partida será repassada aos clubes. Em contrapartida, o prêmio aos finalistas terá um aumento de 2 milhões de dólares, passando de US$ 6 a US$ 8 milhões para o campeão, e de US$ 3 a US$5 milhões para o vice.

Para o presidente da entidade, Alejandro Domínguez, com a nova final, “será oferecido um espetáculo de classe mundial e uma melhor experiência em casa e no estádio”. Segundo o cartola a mudança obedece “um objetivo estratégico de potencializar o desenvolvimento esportivo do futebol sul-americano com maiores recursos, mais investimentos e padrões de alto nível”. Para o presidente, trata-se de uma “grande oportunidade para um salto de estrutura”, oferecendo mais segurança e comodidade nos estádios, e de quebra, ampliando a visibilidade do torneio em escala regional e mundial.

Final única

Quais as consequências esperadas com essa mudança?

O primeiro ponto questionado, como esperado, é a divisão dos lucros. Até o momento da redação deste texto nenhum clube ainda se manifestou oficialmente a respeito da divisão. Mas já circulam informações de que alguns clubes brasileiros pretendem negociar a porcentagem da receita da final.

Como um dos argumentos defendidos pela Conmebol em torno da mudança seria o aumento significativo da renda da bilheteria, todos permanecem atentos diante dessa perspectiva de faturar mais. A primeira partida da edição 2017, disputada entre Grêmio e Lanús, rendeu cerca de R$ 6 milhões de reais aos cofres tricolores. Se o número chama atenção, imagine o que passa na cabeça dos cartolas da entidade e dos clubes quando lembrados da receita da segunda partida da final de 2013 em Belo Horizonte, vencida pelo Atlético-MG: mais de R$ 14 milhões nos cofres do Galo.

Entretanto, a questão mais debatida até o momento é a inviabilidade deste modelo para a realidade sul-americana. Para boa parte da imprensa esportiva, tentar aplicar o modelo europeu no subcontinente americano é um grande equívoco. Consensualmente, os comentaristas dos canais ESPN, em especial Leonardo Bertozzi e Celso Unzelte, apontam a falta de estrutura de transporte na América do Sul, abissalmente distinta da densa variedade de meios de transporte que costuram toda a Europa.

Na mesma direção, o jornalista Juca Kfouri, já entrevistado pelo Ludopédio, alerta para o iminente fracasso de público diante de uma hipotética final entre “Olimpia (Paraguai) e São Caetano, como em 2002, no Estádio Nacional de Santiago do Chile”. Nesse sentido, além da ausência de uma rede ferroviária continental que viabilizaria o deslocamento dos hinchas, uma final entre equipes que possuem expressão, exposição e torcida predominantemente nacionais – e em alguns casos, somente regionais – dificilmente trariam o quórum esperado para um evento deste porte.

Outro aspecto relevante é abordado pelo jornalista Rodrigo Mattos. Dentro deste contexto de aumento do controle da entidade sobre a competição, a Conmebol anuncia um novo modelo de licitação dos direitos de transmissão da Libertadores a partir de 2019 que limitará sensivelmente o poder decisão das emissoras na escolha dos horários e das próprias partidas. Segundo colunista da Uol, “a Conmebol dividiu em quatro pacotes diferentes os direitos da Libertadores para o Brasil, principal mercado. Um será o de TV Aberta com direito a um jogo por rodada. Haverá dois pacotes de TV Fechada, um com direito a jogos melhores, e outro a segunda escolha de partidas”.

O impacto mais perceptível certamente será a impossibilidade da Rede Globo, por exemplo, não poder transmitir todos os jogos do Flamengo ou Corinthians na TV aberta, como ocorre de costume.

Por fim, mas não menos importante, há uma preocupante direção que a competição continental poderá tomar. Chamada de “arenização” do futebol sul-americano pelos parceiros da Trivela, a criação da final com partida única é mais um pretexto/justificativa das entidades gestoras do futebol para mobilizar a problemática “modernização” dos estádios. Esta prerrogativa praticada de maneira recorrente nas quatro últimas Copa do Mundo condicionou o surgimento de dezenas de onerosas Arenas multiuso.

Um golpe de mestre, diria. Por um lado, as antigas críticas à qualidade, segurança, e em menor medida, o conforto dos estádios sul-americanos seriam ouvidas. A imagem deste futebol permeado por hostilidades, sujeira e brigas seria higienizado com um espaço renovado – e, por consequência, um público renovado. Não se trata de um exercício de futurologia leviano, este raciocínio é sustentado pela dramática desigualdade econômica da região e a alta demanda financeira para construir e manter os novos palcos do futebol. Ingressos mais caros para bancar os custos da Arena que afastarão torcedores de baixa renda, geralmente a parcela mais presente nos estádios sul-americanos – exceção feita ao futebol brasileiro de primeira divisão.

O lance se torna “perfeito” levando em conta todo um mercado que se beneficia da “arenização”. Mais espaços e visibilidade para anunciantes, estimular o comportamento consumidor do frequentador das Arenas, e, claro, uma grande sacodida no mercado imobiliário e uma generosa oportunidade para as empreiteiras.

Como bem salientou o pesquisador Irlan Simões no mesmo artigo supracitado, agora resta saber quem e quando os beneficiados com estas mudanças serão revelados. Afinal, os prejudicados, como de costume, são aqueles que tem “os fundilhos das calças puídas pelas arquibancadas”.