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Libertadores – Não aceitamos a extrema-unção

Luciane de Castro

Tem uns meses que venho dizendo que não lembro de ter feito uso de alguma substância alucinógena que tivesse me jogado nesta bad trip sem precedentes. O aumento da violência, a subtração de direitos, o esforço para nos jogar em posição de subserviência e a aceitação dos mais variados absurdos como num surto psicótico coletivo têm nos provado – aos atentos e preocupados com a manutenção de liberdades, inclusive – a todo instante.

Imagino que esta sensação seja partilhada por parcela significativa daqueles que carregam em si apreço pelo aperfeiçoamento de nossas qualidades e supressão das disformidades como seres humanos.

Não bastasse todo o cenário caótico, o futebol, como representação do mundo, tem acompanhado esta tendência perversa. E é aí que chegamos num dos últimos redutos de futebol com sangue sul-americano que ainda nos fazia urrar contra toda a deturpação do ludopédio. Crescente e escancarado arrocho, valorização do menos importante, as palmas vazias na cadeirinha confortável da arena tomada por flashs de celulares caros.

Sim, caros, vamos falar da Libertadores da América. A competição, “organizada” pela Conmebol, foi cruelmente assassinada esta semana. Refletindo o aspecto puramente mercantil no qual estamos chafurdando há séculos e, diante de fatos dignos de uma novela fuleira, temos que a finalíssima da Libertadores não aconteceu e tem grandes chances de não acontecer.

Parece que está tudo dentro de um plano muito bem elaborado para nos fazer acreditar e aceitar que o modelo europeu é sucesso absoluto e, portanto, digno de ser replicado. A ideia, inclusive, já rondava as “prodigiosas” mentes dos membros da Conmebol e já estava assim definida: final de Libertadores e Sul-Americana terá jogo único em cidade distinta da dos clubes que estejam na final. “JÊNIOS”!

O complexo de vira-latas é algo tão embutido nessa gente, que tenho pra mim que em nenhum momento se cogitou a valorização das nossas características e a manutenção de uma competição que existe há 58 anos.

A final da Libertadores segue indefinida. Foto: Divulgação.

Mas quem disse que quem manda no futebol gosta de futebol?

Quem gosta de futebol somos nós aqui. Os que estudam, os que jogam, os que torcem, os que trabalham com o esporte, os que compreendem a essência do jogo e, especialmente, a essência da Libertadores da América.

Os que não gostam de futebol – e cabe salientar que estes apenas gostam de dinheiro e poder – não sabem o que é uma arquibancada lotada, fazendo festa, vibrando com o time em campo, a ansiedade às vésperas do início da competição e o sofrimento a cada jogo em que se vislumbra o caminhar para a final.

Essa gente, reproduzindo tudo o que detestamos, dão as coordenadas e determinou o extermínio de décadas de uma tradição futebolística que encanta o mundo, ainda que seguíamos indignados com os escudos policiais para a proteção de um jogador na cobrança de um escanteio.

É LIBERTADORES! Meio gol é vitória! 1 a 0 são três pontos!

Essa gente, reproduzindo fielmente o momento cabuloso que vivemos, não tem apreço pela história. Nunca valorizou cada detalhe de cada jogo das últimas 57 edições. Despreza profundamente cada sujeito que fez da Libertadores a competição que é hoje.

A despeito de todo o novelesco enredo do que seria o maior Super Clássico de todos os tempos, não cabia à entidade agir de modo leviano e tentar levar a final para a Europa.

Nós sabemos das intenções, “senhores”! Nós compreendemos a quem vocês servem, e não é ao futebol. O futebol é só uma desculpa pra que vocês sigam enchendo vossas burras e as dos comparsas.

Se é de LIBERDADE que trata a competição mais amada do continente, é sobre LIBERDADE que falaremos. Fomos colonizados, mas não somos subservientes. Fomos colonizados, mas nos libertamos, ainda que sujeitos às vis práticas de um sistema fadado ao ocaso e no qual vocês serão os primeiros a serem engolidos. Oxalá permita!

Nós vivemos de paixão, não de luxo. Nós sobrevivemos às dificuldades, fomos forjados no ferro e no fogo, e não à base de acordos escusos.

Vocês deram o tiro covarde, mas nós não aceitamos a extrema-unção. Nos ergueremos deste caixão sinistro, mal confeccionado e de péssimo gosto, pra mostrar que o futebol da América do Sul tem alma e fará jus aos nomes homenageados na competição.