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Ligação desconhecida

Leandro Marçal

Um número antigo iluminou a tela do celular. Quando atendi, reconheci na hora a voz do cronista anônimo. Anônimo e envergonhado. Não revelo seu nome por medo de represálias e respeito à nossa amizade.

Colega de textos sobre futebol em portais especializados, não se conformava por tantos erros nos seus tradicionais prognósticos e análises para o ano.

Embora não admita, é fanático pelo São Paulo. Diz que costuma deixar a TV ligada nos jogos do time, mas não presta muita atenção por ter sempre algo mais importante a fazer. Quer preservar a saúde e viver mais, não vale a pena se estressar por futebol. Eu finjo que acredito.

Durante uns bons meses, o cronista anônimo andava deprimido com a certeza da queda tricolor para a segunda divisão. Escreveu textos e mais textos sobre o sofrimento rodada após rodada com o maior ídolo de seu time à beira do gramado.

O ressentimento maior do escriba secreto era pelo fato de tanto ter errado no prognóstico sobre a queda quanto por ter cravado que o Corinthians não ganharia nada esse ano. E ele se recusa a falar em “hepta” brasileiro, pois sabe que bi, tri, tetra etc. só existem quando as conquistas são de forma consecutiva – chatices da língua portuguesa.

– Meu Deus, quem vai me ouvir agora quando eu falar sobre futebol? Eu repeti o clichê da quarta força e me dei mal. Depois, disse que dez anos separavam a vingança daquele time (ele se recusa a citar nominalmente o rival), ganhando um título com sobras e vendo seu rival cair, como em 2007. E agora, o que eu faço? Errei do começo ao fim…

Pedi calma ao cronista anônimo. Ele não me ouvia, ansioso que é. Sua pressa lhe fez cravar em todas as entrevistas, textos, conversas de bar e churrascos de família que não se iludia com as vitórias tricolores. E que o Corinthians já era o campeão antecipado com o estupendo primeiro turno, sempre cético com as aproximações dos pseudopostulantes ao título – o prefixo é por conta dele. Bom, pelo menos nessa última parte ele acertou, para seu desespero.

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O cronista anônimo e seu clube do coração. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

– Olha a que ponto chegamos, meu caro. Onde já se viu esses times largarem de mão o Campeonato Brasileiro? E agora o G-4 virou G-6, G-7, até G-9? Essas vagas valem mais que o título? O que é isso? Uma grávida de Taubaté futebolística? Ano que vem vai ser a mesma coisa, vão poupar jogadores pra isso, poupar pra aquilo. Só não poupam minha paciência nem meu dinheiro com essa mediocridade! E técnicos demitidos mesmo no G-qualquer coisa…

Ingenuamente, rebati em tom de brincadeira que conseguia enxergar o cronista anônimo gesticulando tal qual um bom italiano, para desespero de quem vê um pecado mortal do destino não termos a Azzurra na Rússia.

– Eu escrevi que não existe Copa sem os campeões mundiais e depois chorei com o Buffon! Cravei o Chile chegando forte em 2018, acredita? Disse que o Renato Portaluppi devia estudar mais e ele chega à final da Libertadores, ri do Carille e ele já foi campeão, falei que Palmeiras e Flamengo iriam ganhar tudo com tanto dinheiro e olha só. Eu parei no tempo, meu jovem. Ou o mundo está invertido como naquela série?

O cronista anônimo não se contentava com minha psicologia de boteco e achei por bem amenizar sua angústia com assuntos mais suaves. Mas, isso é um pouco difícil quando começamos a conversa pelo assunto bola. Comentei que a vida e o futebol são assim mesmo, cheios de fases e erros até de quem sabe muito. Ele soltou um sorriso falso de quem odeia puxa-sacos.

Depois de perguntar sobre a família, ainda me pediu dinheiro emprestado e que não expusesse sua situação vexatória. Jurei guardar segredo e sequer utilizar siglas para identificá-lo num hipotético texto, tanto era o medo de eventuais cobranças dos leitores e amigos. Sugeri que não fizesse previsões do futuro e tentasse comentar com um pouco mais de parcimônia, livre de clichês.

Duvido muito que ele aceite minhas ideias, ouvi falar que ele já está preparando um bolão para a Copa. Já apostou valores altos na consagração mundial de Tite, com Neymar e Gabriel Jesus indo às redes na final. Também comprou ingressos para as últimas rodadas do Brasileirão. Deu até seus pitacos sobre o recente título alvinegro em algum debate esportivo por aí. Esse cronista anônimo não me engana.

Como citar

MARçAL, Leandro. Ligação desconhecida. Ludopédio, São Paulo, v. 101, n. 21, 2017.