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Lima: fujimorismo e futebol na periferia do sistema mundial

Gilmar Mascarenhas

Antes de mais, o termo “fujimorismo” é aqui empregado de forma simplificada, como um certo modo de pensar/governar que assume o primado da ordem e do crescimento econômico a qualquer custo. De traço marcadamente autoritário e neoliberal, a era Fujimori (1990-2000) sufocou a guerrilha e o terrorismo, mas também acentuou os níveis de desigualdade e segregação socioespacial em Lima, deixando marcas profundas e ainda muito vivas na cidade e em seu modo de funcionamento. O autoritarismo é uma prática reincidente na historia política peruana, mas os pesquisadores com os quais conversamos concordam que o fujimorismo consolidou esta tradição, especialmente nos mecanismos de manutenção da ordem pública em Lima.

A título de exemplificação, em 1994, um decreto definiu que uma parte expressiva do Centro Histórico de Lima, incluindo a Plaza de Armas (que concentra a Prefeitura Municipal, a Catedral e o Palácio de Governo – residência oficial do presidente da República), principal centro cívico nacional, seria “zona rígida”, ou seja, interditada a qualquer tipo de manifestação política por parte da sociedade civil. Este decreto, embora considerado inconstitucional, vigora até hoje como mais um legado do fujimorismo. Aglomerações toleradas são apenas as hordas de turistas que vem apreciar o conjunto arquitetônico e prestigiar o pomposo cerimonial de troca da guarda palaciana. O atual prefeito já declarou pretensão de solicitar a extensão desta “zona rígida” de forma a abarcar a Praça San Martin, que desde 1994 passou a acolher as manifestações populares. Mais negócio e menos democracia é o lema. Não à polis e sim à “profitópolis”.

Outro aspecto marcante desta cidade é um absurdo muro de dez quilômetros de extensão, com três metros de altura e cobertura de abundante arame farpado, a separar um bairro nobre (Casuarinas), dotado de parques verdes e numerosas piscinas, de uma zona miserável e totalmente desprovida de água encanada, que traduz bem o elevado índice de recuo da cidadania nesta cidade (nota: a maior cidade do mundo situada num deserto é o Cairo. A segunda é Lima. Mas enquanto a primeira é banhada pelo gigantesco Nilo, a capital peruana se contenta com o mísero Rímac; água potável é um grande problema para os limenhos). Gente pobre que trabalha a cem metros de sua residência precisa percorrer diariamente muitos quilômetros para contornar o muro. Tentaremos de alguma maneira estabelecer vínculos explicativos entre a agenda neoliberal do fujimorismo, bem como a condição periférica peruana no sistema mundial, e a situação atual de “crise” do futebol na capital peruana. Crise expressa nos estádios vazios.

Em Lima estive alguns dias atrás para participar do Congreso Internacional Comunicación, ciudad y espacio público, patrocinado pela UNESCO, realizado entre 8 e 10 de maio de 2018.Vim trazer ao debate algumas reflexões sobre estádios de futebol enquanto território em disputa semiótica e espaço de sociabilidades conflitantes.Desde que comecei a organizar a viagem projetei trazer para esta coluna um animado texto sobre o futebol e seus estádios em Lima. Todavia, a sorte não me ajudou. Tampouco a realidade local.

Aterrissei na capital peruana na manhã de domingo, 6 de maio. O Torneo de Verano (a primeira das três etapas do confuso campeonato nacional) agendara para esta data o primeiro duelo (o jogo de ida) da grande decisão que definiria uma das vagas na final do campeonato nacional e, por conseguinte, a possibilidade de uma vaga na Copa Libertadores 2019. Quando comprei a passagem aérea, três meses antes, imaginei, desinformado, vivenciar um acirrado confronto entre grandes clubes limenhos, com estádio lotado e toda aquela atmosfera sem igual. Para isso contava, obviamente, com a força metropolitana de Lima (1/3 da população do país se concentra aqui) para uma final do certame nacional disputada exclusivamente entre clubes da capital. Tamanha a supremacia de Lima, que a segunda cidade peruana em população, Arequipa, corresponde a menos de um décimo do porte demográfico da capital e sua região metropolitana. Concentração que, como em toda a parte, se traduz facilmente em domínio esportivo: até 2017, os clubes UniversitarioAlianza LimaSporting Cristal compartilhavam um total de 67 títulos nacionais dentre os102 disputados. Universitario e Alianza Lima detém metade deste montante, colocando nitidamente o Sporting Cristal como terceira força. Se considerarmos os clubes de Callao e da chamada Província (Departamento) de Lima, a concentração de títulos é tamanha que apenas dois clubes “interioranos” levantaram até hoje a taça no campeonato peruano: o Melgar (de Arequipa), em 1981 e 2015, e o Juan Aurich, o “gigante do Norte”, da cidade de Chiclayo, em 2011. Mesmo se considerarmos apenas as 51 edições (1966-2017) do certame em sua versão “campeonato descentrado” (a que passou a incorporar os clubes do interior), permanece a supremacia metropolitana, a conquistar praticamente 95% dos títulos disputados.

Não contava, pois, considerando todas as probabilidades estatísticas, com a presença de um clube do interior na final. Tampouco com o azar de ser justamente a primeira partida realizada fora da capital: o Sporting Cristal chegou à final do Torneio de Verão 2018 contra o Huancayo, porém com o primeiro duelo na casa deste, a 450 km de Lima, galgando em mil curvas a Cordilheira dos Andes.  Tive assim um imponderável “domingo sem futebol”. Caso já estivesse na cidade na véspera, poderia acompanhar um dos vários confrontos da série B nacional, o que muito agradaria a um pesquisador interessado muito mais na cultura popular e nas sociabilidades locais do que em performances técnicas esportivas. O destino não quis.

E quanto ao transcorrer da semana? Estando até sexta-feira na cidade algo poderia ocorrer, mas o azar me perseguia: pela Copa Libertadores, nenhum jogo previsto. Tampouco pela Sul-americana. Ao contrário, a cidade acabara de vivenciar, na semana anterior, um jogo interessante: a vitória inapelável do Palmeiras (do nosso competente editor do Ludopédio, Sergio Giglio) mesmo jogando com seu time reserva, sobre o Alianza, justamente no simpático estádio Alejandro Villanueva, situado no bairro popular Victória. Seria outra excelente oportunidade para vivenciar o futebol na cidade, sim? Nem tanto. O estádio estava vazio. O Alianza, em profunda crise, fora eliminado previamente. Ainda assim, nem torcedores a protestar ali estavam. Curiosamente, para compensar o desinteresse geral e romper o desconfortável silencio, autofalantes espalhados nas arquibancadas reproduziam cânticos de alento aos jogadores. Bizarro. Lamentável.  Buscando maior empatia com sua torcida, o clube local mandou seus jogadores entrar em campo descendo as arquibancadas do estádio, mas apenas as crianças presentes esboçaram algum entusiasmo.

Sem estádio, restou-me a televisão: imaginei poder acompanhar a “grande final” em um bar lotado de torcedores do Cristal. Poderia assim captar, numa atmosfera vibrante, algo da cultura torcedora local. Vesti azul (clube “albiceleste”) para melhor identificação com os hinchas locais, mas horas antes da partida já pressentia o fiasco: nas ruas, nenhum torcedor vestindo a camisa do Cristal (vi de vários outros clubes, europeus em maioria; do Brasil, apenas uma, do Galo mineiro, curiosamente vestida por um motorista de van, transporte informal). Nenhuma bandeira tremulando pela cidade. Ao menos naquela parte da cidade. Em contrapartida, muitas camisas da seleção peruana. A registrar que o malecón de Miraflores, por onde transitei algumas horas, é um vasto (e belíssimo) parque público com alto índice de frequentação aos domingos (mais até do que um Aterro do Flamengo ou um Parque do Ibirapuera), atraindo gente de diversas partes da cidade.

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Malecón de Miraflores (06 de maio de 2018). Foto: Gilmar Mascarenhas.

Também os jornais locais, surpreendentemente, pouco comentavam o duelo que definiria, em dois confrontos, o novo campeão. A grande notícia, a manchete de capa daquele domingo, era a reestreia de Paolo Guerrero, no Maracanã, pelo Flamengo contra o Internacional. Se Teófilo Cubillas é, segundo consta, o maior ídolo da história do futebol peruano, Guerrero não fica muito atrás. Principal responsável pela volta da seleção nacional à Copa do Mundo após longos 36 anos de espera, Guerrero realiza outro grande feito para os peruanos: destacar-se no (ainda) cultuado futebol brasileiro. Também no dia seguinte os jornais locais praticamente ignoraram a partida disputada em Huancayo (que terminou empatada, 1 a 1, perante um público de aproximadamente dez mil pessoas). Novamente o foco total em Paolo Guerrero (aqui chamado “El Depredador“), conforme registrei neste confuso aglomerado de capas de jornais numa das bancas da cidade:

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Banca de jornais em Lima (07 de maio de 2018; acervo pessoal do autor).

Até sexta-feira, 11 de maio, dia de minha despedida do país, diariamente Guerrero foi manchete em todos os jornais locais. Imensa a expectativa geral quanto à participação do atleta na Copa do Mundo. Poucos dias antes de finalizar este texto, a FIFA divulgou o resultado do julgamento sobre uso de doping, condenando o jogador e, por conseguinte, excluindo-o do mundial da Rússia até segunda ordem. Posso imaginar o estado geral de luto no país. Como disse o colega Julio Hevia, professor catedrático de Comunicação na Universidad de Lima, em seu país jogadores idolatrados são mais importantes que os clubes, assim como certos indivíduos tendem a ser mais importantes que instituições, expressão do caudilhismo ainda reinante.

Por fim, neste último domingo 20 de maio, quinze mil pessoas se aglomeraram no Campo de Marte com bandeiras, instrumentos musicais e faixas e seguiram em marcha barulhenta, quase carnavalesca, pela Avenida de La Peruanidad (sugestiva carga simbólica) até o Estádio Nacional (enfim, lotado), em apoio a Guerrero (veja o vídeo ao final deste parágrafo). Três meses antes, centenas de estudantes se reuniram na supracitada Praça San Martin para protestar pacificamente contra um projeto de lei de cunho neoliberal (que o movimento estudantil definiu como “ley del esclavo juvenil”, por obrigar egressos das escolas técnicas a cumprir extensa carga horária laboral inteiramente gratuita nas empresas, a titulo de complementação de sua formação), de autoria da congressista fujimorista (assim descreve a imprensa local) Rosa Bartra. Ao contrario dos manifestantes pró-Guerrero, os estudantes sofreram imediatamente violenta repressão policial. A praça foi totalmente cercada para impedir a chegada de novos manifestantes e que os estudantes promovessem uma passeata, conforme previsto. Esta forma seletiva de tratar a questão da “ordem pública” na cidade e de tomar o futebol como um tema de relevância (e integração) nacional já dariam um artigo à parte.

Voltando ao meu domingo “sem futebol”, após tentar em vão descobrir o grande “ponto de encontro” dos torcedores do Cristal (hinchas rivais, em evidente maioria na cidade, dizendo-me em tom de gozação para desistir pois o Cristal “não tem torcida”), entrei no primeiro bar do gênero e lá estava, de fato, a transmissão direta do jogo no Maracanã, com todas as atenções centradas no “craque” peruano. Em outro bar-restaurante, no animado Parque Kennedy, pude assistir à final local. Embora lotado, continha apenas dois outros “torcedores” do Cristal claramente identificáveis pela indumentária, mas nada empolgados. Segundo estatísticas recentes, este clube tem pouco mais de quatro milhões de torcedores no país, o que corresponde a quase um terço da torcida do Universitário, o “U” (cujo estádio pode abrigar 80 mil assistentes) e menos da metade de outro rival, o Alianza. É o terceiro clube da cidade em torcida, mas isto não é pouco. Estaria, no Brasil, em 11º lugar no ranking geral.

Considerando a estrutura espacial demográfica peruana e a habitual tendência à concentração de torcedores na cidade que sedia o clube, certamente deve haver mais de dois milhões de torcedores do Cristal em Lima. Não se justifica, por conseguinte, o nível de descaso geral para com a partida. Transpondo para a realidade brasileira, dentro é claro de todas as limitações de exercícios simuladores desta natureza, imaginemos uma final de uma espécie de primeiro turno nacional entre Fluminense ou Botafogo (cujas torcidas são um pouco menores que a do Cristal) e Goiás ou Chapecoense, para citar clubes “interioranos” que frequentam a série A sem jamais chegar a uma final, tal qual o Huancayo daqui. Jogo em Goiânia, num domingo: Goiás x Flu. Qual seria a audiência pela TV? Qual seria o nível de engajamento dos torcedores cariocas? Qual seria a incidência nos jornais? Certamente, muito maior do que percebi em Lima. Mesmo descontando o fato de estar parte do tempo circulando em Miraflores, distrito “elitista” da capital: no Leblon, na Barra da Tijuca, em Botafogo ou qualquer outro bairro nobre do Rio de Janeiro teríamos bandeiras tricolores nas janelas, gente uniformizada nas ruas e bares lotados de torcedores, incluindo os rivais para “secar” o Fluminense.  Portanto, em Lima não falta torcida (quantitativo de torcedores), mas sobra desinteresse pelo futebol local. E certa aversão (topofobia¿) aos seus estádios.

Creio estar diante, mais uma vez, das forças implacáveis da globalização, daí redirecionar este relato. Se no Brasil pesquisas recentes revelam a gradativa redução do interesse das pessoas pelo futebol, imaginem no Peru, país que costuma ocupar o posto 50 no ranking da FIFA. Para os brasileiros, estamos diante de apenas mais uma copa do mundo (participamos de todas), mas para os peruanos é uma copa muito especial. Toda a imensa fatia da população com menos de 40 anos de idade jamais viu seu país neste evento. Também por isso, no Parque Kennedy, uma centena de pessoas (pelo menos) se aglomerava em torno de quinze ou vinte “banquitas” para trocar figurinhas do álbum da Copa. O mundial 2018 está onipresente na cidade, nos outdoors e na TV. O foco geral está muito mais na Rússia do que no desfecho do campeonato peruano.

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Parque Kennedy. (07 de maio de 2018). Foto: Gilmar Mascarenhas.

Em Lima, a média recente de público dos “três grandes” varia de 5 a 8 mil por partida.  Comparando com o Brasileirão 2017, mesmo os dois clubes com mais baixo índice de público nos estádios (Sport Recife e Vitória) ficaram bem acima, com pouco mais de dez mil assistentes por jogo. Ingressos aqui apresentam valores mais baixos que no Brasil, sobretudo considerando o poder de compra: média de 3% a 4% do salário mínimo nacional para um bilhete médio nos grandes estádios da capital. Há que considerar que o país não sofreu o processo de arenização, tão vigoroso entre nós (apenas o Estádio Nacional adicionou, em 2011, camarotes em sua parte superior). Por tudo isso, e considerando o porte de Lima (seria no Brasil a terceira maior concentração urbana, com onze milhões de habitantes, muito próxima ao Rio de Janeiro e superando a soma de Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador), podemos afirmar que é muito baixa a afluência de público aos estádios por aqui.

O futebol, como qualquer atividade econômica globalizada, engendra sua própria divisão internacional do trabalho. Enquanto indústria do setor de entretenimento (assim é simplificadamente visto e gerenciado pelos grandes agentes envolvidos nesta lucrativa atividade), a Europa Ocidental constitui o poderoso centro produtor do espetáculo que será vendido e transmitido em escala mundial. Ao concentrar a renda aferida pelo espetáculo, um seleto grupo de países converte o resto do mundo em mera “bacia coletora” de talentos individuais, esvaziando o espetáculo local nos países periféricos. Ao mesmo tempo, converte populações inteiras em consumidores televisivos do grande espetáculo produzido no centro do sistema mundial, reduzindo na periferia o interesse pelos clubes locais, resultando em estádios esvaziados. Se no Brasil sofremos o crescimento do interesse de torcedores por clubes europeus, isso muito mais fortemente se nota no Peru, cujo futebol tem escassa capacidade para disputar atenção com os grandes centros mundiais. Somos uma semiperiferia do sistema-mundo. O Peru, por sua vez, é uma periferia inconteste.

Quando decidiu construir um grande estádio, no final dos anos 1980, o Universitário não previu o impacto indelével da onda globalizante. Naquela década, apenas o futebol italiano apresentava um (então inédito) processo de mercantilização e captação de patrocínios, de modo a atrair grandes nomes do futebol sul-americano, e com isso conquistar audiência televisa em diversos países. As décadas seguintes demonstraram semelhante reestruturação na Espanha, na Inglaterra, na Alemanha, na França, produzindo a fabulosa Champions League que hoje conhecemos. Neste sentido, podemos dizer que o Estádio Monumental de la “U”, o “Colosso do Ate”,considerado atualmente o maior da América do Sul (capacidade total para 80 mil espectadores) já nasceu (inaugurado em 2000, mas com início da construção em 1991) superdimensionado, “obsoleto” no contexto da nova economia do futebol global. Não por acaso, na década de 1980 o Brasil cessou sua onda de construção ou ampliação de estádios. A partir da década seguinte, a tendência dominante foi a redução de capacidade de nossos estádios, via “encadeiramento”.

Lima “explodiu” em crescimento demográfico nas décadas de 1960 a 1980, provavelmente motivando aspirações de se acolher multidões nos estádios. Mas veio a globalização. Veio também o fujimorismo, produzindo uma cidade com elevado índice de marginalidade. A onda neoliberal tornou multidões mais pobres e morando longe demais (transporte público precário) para ir com assiduidade aos estádios. E assim, os grandes públicos do Colosso do Ate nos últimos anos alcançam apenas metade da capacidade de público deste estádio.

Limenhos com os quais conversei (de taxistas a professores universitários) expressam claro desinteresse para como futebol local devido ao seu baixo nível técnico, agravado recentemente (últimas duas décadas) pela propalada “crise econômica” dos clubes (O “U” ainda endividado com a empresa construtora de seu estádio, e os demais sofrendo com o quadro geral de estádios vazios e preferência local pelo futebol europeu). Cumpre registrar que o país não está em crise, ao contrário, vive um “boom” econômico. Acrise está no futebol apenas?

Minha hipótese é que, para além da supracitada condição periférica peruana no cenário futebolístico mundial, o legado fujimorista na cidade tem seu papel no esvaziamento dos estádios limenhos. Especialistas locais e torcedores falam em aumento da violência urbana (um dos poucos táxis que tomei usava uma grade protetora em torno do chofer, que segundo o mesmo apenas não o protegia de armas de fogo),resultado direto dos mecanismos neoliberais de produção de marginalidade e exclusão social.  E neste contexto emergem as “barras bravas”, oriundas basicamente da periferia metropolitana. Diversos estudos, como o de Arboccó e O’Brien (“Barras Bravas y tiempos Bravos: violencia en el fútbol peruano”, 2013), tratam da proliferação de  gangues juvenis associadas a torcidas organizadas  em Lima. Jovens pobres, sem emprego e sem escola, cujas práticas agressivas (muitas vezes letais) desencorajam o uso de camisetas dos clubes locais e a afluência aos estádios.

Reclama-se também da acessibilidade aos estádios, o que reflete a precariedade do padrão de mobilidade urbana, entregue aos interesses de mercado, incluindo a inundação dasvias pelo automóvel, gerando tráfego paralisante. Estamos falando de uma cidade neoliberal. Considerar a específica problemática urbana limenha sejustifica inclusive pela notória maior presença relativa de público nos estádios em cidades do interior, com destaque para Cusco (o Cienciano planejando expandir seu estádio), Arequipa, Chiclayo e Trujillo. Em suma, a tal “crise” do futebol peruano é mais evidente na capital. Traz em si elementos de uma ”crise urbana”.

Minha única oportunidade de adentrar um estádio de Lima se deu por conta da visita guiada gratuita ao Estádio Nacional, organizada pelo Instituto Peruano de Deportes (IPD), administrador do equipamento. Talvez o único estádio limenho (além do Colosso do Ate) a ter sofrido algum esboço de “arenização”, com a instalação de camarotes (chamados “palcos”) na parte superior, em 2011. Estes são oferecidos para locação, mas a maioria está sem contrato. As elites limenhas seguem aguardando um estádio padrão FIFA ou, melhor dizendo, padrão “Miraflores”. Enquanto isso, os pobres frequentam pouco os estádios existentes: os que não tem emprego não têm condições de arcar com os custos (o antigo Setor Popular do Estádio Nacional, por exemplo, foi substituído por cadeiras durante o governo Fujimori); os que tem emprego não tem tempo (a reforma trabalhista fujimorista flexionou os contratos, de forma que quase todo o comercio está aberto aos finais de semana) ou são desencorajados pela acessibilidade sofrível. O resultado está exposto acima.

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Estádio Nacional. Cadeiras substituindo o setor popular. (10 de maio de 2018). Foto: Gilmar Mascarenhas.

Receosos com a experiência do Universitário, os demais clubes da capital mantém engavetados seus projetos de reforma ou “arenização” dos estádios. O país respira futebol de norte a sul. Eu diria que sobra paixão mas falta “cidade”. Direito à cidade: mobilidade urbana, segurança e políticas sociais que permitam ao trabalhador reservar uns “trocados” para prestigiar seu time no final de semana. Falando em direito à cidade, não poderia deixar de registrar que os moradores das “barriadas” (favelas), forma de moradia que corresponde a 40% da população limenha, em sua maioria não possui água encanada, recorrendo a caminhões pipa, pagando por isso até dez vezes mais pela água que os moradores dos bairros abastados. Como ir ao estádio, tendo o orçamento familiar comprometido pela escassa cidadania?

Em suma, o fujimorismo acentuou não a apenas as desigualdades sociais. Consolidou entre os limenhos todo um modo de ver e de praticar a cidade. Modo este fundado na autosegregação por parte dos mais aquinhoados, expresso na proliferação de shopping centers, condomínios, no uso massivo do automóvel particular e, mais do que tudo isso, no erguimento de um imenso muro, verdadeira aberração. Um bairro como Miraflores, bem equipado e policiado, se define como um oásis de paz e conforto na metrópole dos sofridos. Nossa hipótese é que este modus operandis urbano não combina com o parque de estádios existente, construído e concebido para outro projeto de cidade e de sociedade, menos excludente que o atual. Não combina com o luxo e segurança aos quais as classes média e média-alta se habituaram recentemente. Em suma: os que querem ir aos estádios não podem; os que podem, não querem. Daí o dilema colocado no debate em voga: ou os clubes “arenizam” seus estádios, captando assim público mais seleto e maior arrecadação, podendo com isso melhorar suas finanças e por conseguinte a performance técnica, ou permanecerão na difícil situação atual. Tenho dúvidas se a modernização dos estádios resolverá a situação financeira dos clubes da capital.

E se vier, a arenização será tão somente, do ponto de vista da cidade vivida, “another brick in the wall”.