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Lionel Messi: a complexidade da criação de um gênio

Gabriel Sulino Martins

Lionel Messi nasceu na cidade de Rosário em 1987. Ao longo de sua vida, veio demostrando sua genialidade com as bolas nos pés, através de seu talento, aceleração e transgressão praticando esse desporto. Para explicar um pouco sua genialidade, pode-se fazer uma comparação com o caso de Wolfgang Amadeus Mozart, um compositor de música clássica, que marcou a transição para uma nova forma de fazer música sem depender de vínculos empregatícios. Para Elias (1995), um indivíduo pode ser considerado gênio quando marca um período de transição. Como Pelé, que no auge de sua carreira, foi a principal figura da seleção brasileira entre 1958 e 1970, elevando o Brasil a um outro patamar e curando feridas deixadas do Maracanaço em 1950. Assim como Maradona que foi jogar na Europa com 22 anos de idade no Barcelona. Por uma cláusula da Asociación del Fútbol Argentino (AFA), em um contexto da ditadura militar, jogadores que atuassem no futebol exterior não podiam defender a seleção. Somente voltou a jogar pela seleção na Copa do Mundo de 1982 na Espanha. Elevando e rompendo com uma conquista no contexto ditatorial onde não havia certa “legitimidade” na conquista do título, por motivos que vou deixar subentendidos, conquistou mais tarde o título mais importante para a seleção em 1986.

Diferente desses gênios, Lionel Messi saiu da Argentina muito cedo, por circunstâncias peculiares. Pensemos no fato de que Messi começou a jogar bola aos seis anos de idade, em um clube de seu bairro, Grandoli. Uma participação casual, porque se faltava um jogador em uma das equipes, e o treinador Salvador Aparicio buscou um menino para suprir a ausência de jogadores. Messi teve sua primeira oportunidade e, a partir desse ponto, sua capacidade o fez ingressar em um centro de formação de um dos grandes clubes de sua cidade, o Newell´s Old Boys. Quando fez doze anos de idade teve a oportunidade de ir viajar para Barcelona, na Espanha. O clube catalão demorou seis meses para pensar em uma forma para o jovem argentino ficar, dando também condições a continuidade de seu tratamento hormonal. Porque Messi, apesar de seu imenso talento, teve problemas de crescimento e precisava de vacinas para poder crescer. Diante desse fato, o Barcelona ofereceu um trabalho a seu pai, Jorge Messi, e permitiu que treinasse equipes juvenis do Barça. Consequentemente, o clube arcou com os remédios para seu tratamento hormonal.

Messi a partir desse momento fez parte de la Masia, que atualmente é um dos maiores centros de formação do mundo. Dos 12 até os 16 anos de idade, participou da categoria de base do Barcelona. A garra de Messi impulsionou o jogador a realizar seu sonho de jogar na equipe principal do Barcelona, jogando uma partida amistosa em Portugal em 2003, mas em 2004 foi quando se integrou à equipe principal, que contava com Ronaldinho, Samuel Eto´o, Deco etc. Em 2005, marcou seu primeiro gol pela principal liga da Espanha, e no mesmo ano também foi campeão sub-20 com a seleção Argentina no Mundial da Holanda, tendo um papel fundamental na conquista do título.

Messi, em uma partida do Barcelona contra o Málaga, em 2005. Foto: Wikipedia.

A partir desse ponto, muitos começaram a comparar algumas características de Messi com Maradona. Contudo, Messi não é Maradona, ele não é um rebelde que bate de frente com as instituições de futebol, como foi Maradona. Messi é um rebelde no campo de futebol. Mostrando a faceta de sua participação nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, podemos observar bem isto.

Nas vésperas dos Jogos Olímpicos de 2008, com a chegada de um novo treinador ao Barcelona, nada menos que Pep Guardiola que estava promovendo profundas mudanças na equipe, Messi estava se convertendo em uma das principais estrelas do clube. Messi queria acompanhar sua seleção nos Jogos Olímpicos, no entanto o Barcelona precisava partir para uma pré-temporada nos Estados Unidos e logo após as preliminares eliminatórias do principal torneio de clubes do mundo: a Champions League. Como o projeto de renovação estava sendo colocado em prática, o interesse do jogador se tornou um conflito entre o jogador e o presidente do clube, Joan Laporta. Mas Messi não retrocedeu em seu desejo de participar da competição e representar sua nação. Guardiola, então, mostrou toda sua flexibilidade e pediu para que Laporta liberasse o jogador.

No plantel, tinha alguns jogadores que haviam sido campeões em 2005, como: Fernando Gago, el Kun Aguero, Ezequiel Garay, Oscar Ustari e Pablo Zabaleta. A eles, somaram-se outras jovens promessas, como: Ever Banega, Ezequiel Lavezzi, Ángel Di Maria e Lautaro Acosta. Além disso, havia a presença de jogadores como Javier Mascherano e Juan Román Riquelme. Derrotaram, na semifinal, o Brasil por 3 a 0, que tinha o principal jogador do Barcelona até o momento, Ronaldinho. Ganharam a final por 1 a 0 sobre a Nigéria. A conquista do ouro nos Jogos Olímpicos serviu como afirmação para Messi no meio do futebol.

Messi, em atuação nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, durante a semifinal em que a Argentina ganhou do Brasil por 3 a 0. Foto: Wikipedia.

Ao voltar para o Barcelona, tornou-se a principal estrela. No ano de 2009, ganhou todos os títulos que disputou, dentre eles a Champions League, com um gol na final, vencendo a equipe do Manchester United, além de conquistar o Ballon d´Or 2009, prêmio dado ao melhor jogador do mundo e entregado pela revista France Football em Paris. Apesar de todas essas conquistas, de acordo com Trejo e Levinsky (p. 8), “Los Juegos Olímpicos de 2008 marcaron parte de esta transición hacia la conquista del fútbol mundial de su época”.

Como falamos no começo do texto, jogadores gênios mudam o patamar de um clube ou seleção. A seleção Argentina ajudou Messi a dar um passo na sua carreira e se tornar um dos maiores futebolistas de todos os tempos. No Barcelona muitos jornalistas falam que Ronaldinho mudou o nível de grandeza do Barcelona, bem digamos que em uma pequena parte, conquistando uma Champions League. Contudo, se observarmos bem, o Barcelona atualmente se tornou um clube de muita expressão em grande parte por um jogador: Lionel Messi. Messi foi transformado pelo técnico Pep Guadiola, em um período de transição do clube, na maior estrela do elenco. Inserindo um estilo de jogo que revolucionou o modo do time jogar, criou uma identidade. Muitos passaram a estudar esse estilo de jogar, mas se olharmos bem o segredo de funcionar tão bem é o Messi.

Lionel Messi atualmente é considerado um dos maiores futebolistas da história. Messi e Lewis Hamilton dividiram o prêmio Laureus, honra que consagra os melhores esportista de cada ano. Messi é o primeiro futebolista a receber essa honra, e isso só demostra a grandeza desse atleta para o planeta. Conquistou ao longo de sua carreira inúmeros títulos pelo Barcelona e pela seleção Argentina. Pelo Barcelona ganhou três Copas do Mundo de Clubes da FIFA: 2009, 2011 e 2015; quatro Ligas dos Campeões da UEFA: 2005-2006, 2008-2009, 2010-2011 e 2014-2015; três Supercopas da UEFA: 2009, 2011 e 2015; dez La Ligas: 2004-2005, 2005-2006, 2008-2009, 2009-2010, 2010-2011, 2012-2013, 2014-2015, 2015-2016, 2017-2018 e 2018-2019; cinco Copas del Rey: 2008-2009, 2011-2012, 2014-2015, 2015-2016 e 2017-2018; oito Supercopas da Espanha: 2005, 2006, 2009, 2010, 2011, 2013, 2016 e 2018; cinco Copas Catalunã: 2003-2004, 2004-2005, 2006-2007, 2012-2013 e 2013-2014; onze Troféus Joan Gamper: 2006, 2007, 2008, 2010, 2011, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018; um Franz Beckenbauer Cup: 2007; uma Copa Audi: 2011; um Torneio de Paris: 2012; um Summer of Champions Club: 2012; um Chang Champions Cup: 2013; um CIMB Challenge Cup: 2013; um Internacional Champions Cup: 2017; e um Mandela Centenary Cup: 2018. Pela seleção Argentina, conquistou o Superclássico Das Américas: 2017 e 2019; Copa do Mundo FIFA Sub-20: 2005; Medalha de ouro nos Jogos Olímpicos: 2008; Copa Bolivia: 2007 e 2015; Copa Times of India: 2011; Copa San Juan: 2019. Além disso, foi eleito ao longo desses anos seis vezes o melhor jogador do mundo.


Referências

ELIAS, Nobert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro, Zahar Editora, 1995.

TREJO, Fernando Segura M; LEVINSKY, Sergio. Lionel Messi y la Medalla de Oro en los Juegos Olímpicos de Pekín 2008. Istor: Revista de Historia Internacional, v. 65, p. 153-160, 2016.