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A lista de Tite

José Carlos Marques

No último dia 14 de maio, o técnico Adenor Bachi – o popular Tite – anunciou a lista de 23 jogadores que compõem o “escrete” para disputar a Copa do Mundo de 2018. Por anos, ouviu-se a máxima de que o Brasil teria tantos técnicos da Seleção Brasileira quanto teria de habitantes, o que nos deixaria atualmente com cerca de 210 milhões de técnicos para escalar a equipe canarinha. Compreende-se o exagero da hipérbole, mas sabemos bem que o futebol não consegue ser tão unanimemente mobilizador no país, mesmo em épocas de Copas do Mundo.

Mesmo assim, milhares de jornalistas também proferiram suas listas no último dia 14 de maio e outros milhões de brasileiros igualmente já o fizeram ou ainda o hão de fazer nas próximas semanas. Sendo assim, não acho muito original repetir o mesmo gesto. Mais interessante, talvez, seja refletir sobre a avassaladora aceitabilidade que o treinador começa a conquistar perante a imprensa brasileira, antes mesmo de conquistar essa mesma aceitabilidade perante a opinião pública; e, ao mesmo tempo, julgo ser importante apontar alguns equívocos na sua conduta.

Antes de qualquer coisa, cabe-me dizer que minha seleção não seria nem de perto a de Tite. De todo modo, trocar um jogador por outro, certamente, seria simplesmente alterar as subjetividades dele pelas minhas. E por mais que o técnico tenha buscado explicações táticas, técnicas e de esquemas de jogo para justificar suas escolhas, outras tantas explicações táticas, técnicas e de esquemas de jogo poderiam servir para justificar algumas de suas inadequações.

O técnico da seleção brasileira Tite anuncia os jogadores convocados para disputar a Copa do Mundo da Rússia 2018.Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

O técnico da seleção brasileira Tite anuncia os jogadores convocados para disputar a Copa do Mundo da Rússia 2018. Foto Fernando Frazão/Agência Brasil.

Vejamos alguns pontos positivos e outros negativos na conduta de Tite. Primeiro ponto a seu favor: o técnico gaúcho assumiu a Seleção Brasileira num momento difícil e conquistou a vaga para a Copa com o pé nas costas. Mostrou um futebol seguro e que deu para o gasto ao enfrentar parte do combalido futebol sul-americano de seleções.

Segundo ponto a seu favor: percebeu que não seria estabelecendo uma guerra com a imprensa que as coisas melhorariam para seu lado – e os exemplos anteriores de Dunga e de Luiz Felipe Scolari (também gaúchos) devem ter martelado sua cabeça insistentemente. Durante o anúncio da lista dos 23 atletas que irão à Copa, ouviu pacientemente por mais de uma hora perguntas desnecessárias e por vezes estapafúrdias de alguns jornalistas. Certo é que a imprensa não agiu com Tite com a mesma beligerância com que agiu com os dois anteriores; mesmo assim, o Sr. Adenor exagerou na cortesia e na paciência.

Terceiro ponto a favor de Tite: sabendo que fora chamado nas Eliminatórias Sul-americanas da Copa para ser uma espécie de “Salvador da Pátria” (onde já se viu um Mundial sem a Seleção Brasileira?), o técnico fez o básico. Recorreu a seus “homens de confiança” (jogadores que atuaram com ele anteriormente e que não faziam parte do selecionado), apostou em Gabriel Jesus mais do que em Neymar e apaziguou o ambiente interno. Trouxe equilíbrio emocional a uma equipe que se notabilizou pelo desequilíbrio desde a Copa de 2014 com Felipão.

A questão central é: isso basta para se ganhar uma Copa? Parece haver um consenso que a “lista de Tite” não é maravilhosa, mas que é boa – talvez acima da média. Alguns justificaram certas opções discutíveis do treinador alegando que a lista era coerente com o trabalho e o pensamento dele. Oras bolas, não é isso o que seria desejável em qualquer atividade humana, ou seja, que as pessoas tomassem decisões com um mínimo de coerência?

O problema é que as poucas reclamações advindas diante das escolhas do Sr. Adenor é a pura demonstração de que não havia grandes alternativas ou opções, dentro daquilo que chamaram de coerência do treinador. A safra de jogadores brasileiros está longe de ser estupenda, como as que tivemos em 1982, 1986, 1998 e 2002, só para citar alguns casos recentes. Temos jogadores muito bons, acima da média, mas nada que assombre adversários de forma acachapante. Fora de série há apenas um – Neymar – e nunca se sabe o que poderá sair de sua cabeça e de seus pés.

O que pode pesar contra Tite? O primeiro ponto negativo tem a ver com a mudança de postura do gaúcho diante da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Quando ainda treinava o Corinthians, reiterou algumas vezes que não se envolveria com a sujeira da CBF, fazendo eco assim às veleidades de Andrés Sanches, atual presidente do clube e desejoso à época de assumir a própria entidade. É lógico que qualquer treinador sonha em treinar a Seleção Brasileira, mas o volte-face mostrou-se incoerente diante do discurso oposicionista de Andrés.

Segundo ponto negativo: Tite deveria pensar que disputar eliminatórias sulamericanas diante de Venezuela, Equador, Bolívia e Paraguai não é o mesmo que disputar uma Copa contra Alemanha, Espanha, França e Bélgica, por exemplo. Insistir em alguns “homens de confiança” das eliminatórias e formar uma “Família Tite” parece repetir o erro de Felipão ao fechar o grupo para a Copa de 2014 com tanta antecedência naquela que foi a nova “Família Scolari”. Deu no que deu.

Terceiro ponto negativo, e talvez o mais grave: é indecoroso ver o treinador brasileiro realizando a publicidade incessante de um banco privado brasileiro e de um fabricante eletrônico sul-coreano às vésperas do Mundial. E, nos dois casos, permitindo aos publicitários algo nada original: o uso de sua retórica por vezes vazia e de seu discurso de convencimento religioso prosélito que nos acostumamos a ver em infindáveis entrevistas e coletivas de imprensa.

Por último, a cereja do bolo: Tite foi convidado – e aceitou – aparecer ao vivo na transmissão do Jornal Nacional da TV Globo no mesmo dia em que divulgou sua lista. A emissora deu a Tite o mesmo status concedido a Presidentes da República eleitos. E a subserviência com que o treinador foi recebido no estúdio – e a amabilidade com que respondeu às perguntas – dão mostras de um novo casamento pronto para dar certo na alegria e na tristeza – só que não!

Pessoalmente, penso que temos um goleiro titular pouco confiável e duas laterais vulneráveis (Marcelo é excelente no apoio, mas deficiente na marcação). O miolo de zaga pode ser o ponto forte ao lado do ataque, em que pese não termos um centroavante de ofício. O meio-de-campo pode ficar muito envelhecido segundo as escolhas do treinador. E é com essa seleção que o Brasil buscará o hexa.

Tite não tem muita culpa da possível leitura inadequada que fez da Copa e do material que tinha às mãos para escalar o elenco. Após o 7 x 1 perante a Alemanha em 2014, nada foi feito para modernizar ou oxigenar o futebol brasileiro. Não houve nenhum planejamento no sentido de se criar as bases para a renovação da Seleção ou para se pensar em médio prazo, no sentido de se criar uma geração forte. Dos 23 jogadores que Tite chamou, apenas seis têm experiências em Copas do Mundo. Os outros 17 são estreantes, não porque sejam todos novatos (muitos estão na casa dos 30 anos), mas porque não tiveram oportunidades antes ou não despontaram com força antes.

Pessoalmente, adoraria ver a aposta em jovens valores que têm surgido recentemente no futebol brasileiro, casos de Rodrygo (Santos), Vinicius Jr. (Flamengo) e Pedrinho (Corinthians). Pelé e Ronaldo Fenômeno tinham 17 anos quando foram convocados pela primeira vez para uma Copa. Em ambas as vezes o Brasil sagrou-se campeão (1958 e 1994, ainda que Ronaldo não tenha disputado nenhuma partida). A coerência da lista de Tite beira mais a falta de ousadia e de originalidade – semelhante às campanhas publicitárias que ele tem estrelado às vésperas do Mundial da Rússia.

P.S.: eu disse que não apresentaria a minha lista, mas acabei por apresentá-la… queria ser original e acabei ficando igual ao Tite naquele comercial de anúncio de televisor.