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Liverpool FC socialista? Um discurso para o campeão europeu

Marco Antunes de Lima

Em entrevista dada no World Football Summit de Madri e publicada no jornal El Pais, entre outros veículos da imprensa, o inglês Peter Moore, atual CEO do Liverpool Football Club, disse que “o sucesso do Liverpool se baseia no socialismo”. A frase soou estranho vindo do empresário responsável por gerenciar um dos clubes mais ricos e importantes do mundo do futebol atual, mundo este onde o futebol é além de um jogo, um grande negócio que envolve cifras milionárias em direitos de televisão, merchandising entre outras coisas e está totalmente inserido no mundo do capitalismo global do século XXI. É claro que a fala de Peter Moore não foi de graça e fazer uma ponte entre o time inglês da terra dos Beatles e o socialismo tem uma clara intenção. É o que pretendemos esclarecer nesse texto.

Mas quem é Peter Moore? Moore é um executivo nascido na própria cidade de Liverpool em 1955 que fez toda a sua carreira nos Estados Unidos e que trabalhou em altos cargos de grandes empresas como Reebok, Sega, Microsoft e Eletronic Arts, principalmente na área de marketing e gerenciamento. Desde 2017, Peter trabalha como CEO do Liverpool Football Club, contratado pelo fundo que controla o clube, o Fenway Sports Group (norte-americano) para transformar os Reds em um dos maiores e mais vencedores clubes da Europa e do mundo. A fala que faz uma conexão do Liverpool com o socialismo vem daí.

Peter Moore. Foto: Gamerscore Blog.

Para começar a entender essa fala é preciso voltar no tempo da história dos Reds até o final da década de 1950, mais precisamente em 1959 (quando Moore tinha poucos anos de vida na operária Liverpool), quando da chegada ao clube do mítico treinador escocês Bill Shankly. Quando Shankly chegou ao Liverpool, os Reds encontravam-se na segunda divisão do futebol inglês havia 5 anos e o treinador mudou a história do clube. Venceu a segunda divisão em 1962 e por três vezes sagrou-se campeão da primeira divisão, ganhou por duas vezes a Copa da Inglaterra e por uma vez a Copa da UEFA, em seus 15 anos como treinador dos Reds. Mas o seu legado foi muito além dos títulos diretamente conquistados: Shankly é responsável por criar uma cultura e um modelo de futebol que transformou o Liverpool no maior campeão inglês das décadas de 70 e 80, chegando até a conquistar a Copa dos Campeões da Europa  por cinco vezes. Assim como Johan Cruyff criou uma cultura (estilo) própria de jogo no Barcelona FC, Shankly fez o mesmo, e até antes no Liverpool. E o estilo de jogo adotado por Shankly nos Reds, que, de alguma forma persiste até hoje é o do jogo coletivo, com rápidas trocas de passes e ataques velozes. Para entender de onde veio esse estilo criado por Shankly é preciso entender de onde veio e como pensava este homem:

Willian Shankly nasceu em uma pequena vila escocesa rodeada por minas de carvão. De família extensa e pobre, Shankly conviveu quando criança com a fome e já muito jovem trabalhava nas minas de carvão. Com cerca de 19 anos Shankly passou a jogar futebol profissional defendendo o Carlisle United, da Escócia, e posteriormente o Preston North End, da Inglaterra. Jogou até 1949. Foi um jogador mediano. Logo após se aposentar como jogador virou treinador do Carlisle e após passagens por clubes pequenos e médios chegou à operária e portuária cidade de Liverpool em 1959.

Shankly era um homem que amava o futebol sobre todas as coisas e além de fazer crescer o desempenho do time do Liverpool também entendeu a necessidade de se conectar com os torcedores do clube. É dele a famosa fraseAlgumas pessoas acreditam que o futebol é uma questão de vida ou morte, estou muito decepcionado com essa atitude. Posso garantir que é muito, muito mais importante que isso”.

Shankly entendia que o clube era uma grande comunidade entre os jogadores, os dirigentes e os seus torcedores. Logo ganhou a simpatia dos torcedores pois acreditava que os torcedores eram como ele: gente da grande classe operária.

Nos anos 1950, a cidade de Liverpool era o maior porto da Inglaterra, logo era uma cidade com uma grande quantidade de membros da classe operária inglesa, tanto como trabalhadores das indústrias, como do porto. Uma grande virada na política da cidade ocorreu em meados dos anos 50 que permanece até hoje como uma das características de Liverpool: o partido Trabalhista inglês passou a ter a maioria política do Conselho de Liverpool, ou seja, junto com outros grupos de esquerda e centro esquerda (como os Liberais-Democratas) os trabalhistas têm tido maior sucesso na política da cidade do que os conservadores, que reinavam absolutos até 1955. E além de amar o futebol e o Liverpool FC Bill Shankly tinha algo mais em comum com os torcedores do clube advindos, em sua maioria, da classe operária liverpudiana: a ideia do socialismo. Lembremos que estamos na década de 1960 do século XX, no auge do Estado de Bem Estar Social Europeu, da Guerra Fria e dos movimentos jovens da contra-cultura.

O próprio Bill Shankly dizia sobre a sua ideia de socialismo. “Acredito que a única maneira de viver e ser verdadeiramente bem-sucedido é pelo esforço coletivo, com todos trabalhando um para o outro, todos ajudando um ao outro e todos tendo uma parte das recompensas no final do dia. Isso pode parecer muito, mas é a maneira como vejo o futebol e a vida”(tradução do autor). Isso era o socialismo para Shankly, em todas as esferas da vida, incluindo o não menos importante futebol.

Estátua de Bill Shankly que foi um lendário treinador do Liverpool. Foto: Isriya Paireepairit.

Peter Moore, CEO atual do Liverpool, na entrevista já citada diz que essa era a definição de socialismo de Shankly no sentido de solidariedade mas não político, mas assim diz pois soaria contraditório um liberal moderno capitalista do século XXI dizer que concorda politicamente com Shankly, mas o maior treinador de todos os tempos do Liverpool tinha uma visão de socialismo tanto em um sentido político, como social.

Retornando ao século XXI, o Liverpool FC encontra-se em grande fase no momento: atual campeão da Liga dos Campeões da Europa e do Mundial de Clubes da FIFA o clube de Merseyside está prestes a garantir o título da Premier League inglesa com uma campanha simplesmente fantástica e exibe vantagem técnica absurda sobre seus adversários. E quem comanda atualmente essa equipe é o alemão Jürgen Klopp, homem de origem das classes baixas alemãs declaradamente com visão política de esquerda e progressista que imprime um estilo de jogo muito parecido (com as devidas diferenças de eras) com o de Shankly: um jogo de troca de passes, coletivo e veloz. Klopp também tem uma relação direta com os torcedores dos Reds, de forma muito emotiva, e é considerado a continuação do legado de Shankly no Liverpool. E é exatamente essa imagem que Peter Moore veio explorar quando foi contratado pelo fundo de investimento que controla o clube para ser CEO.

Peter Moore, em sua entrevista citada, fala sobre como é importante trazer a imagem e o espírito de Shankly para o clube, de explorar a imagem de futebol coletivo e de legado das tradições do Liverpool com Klopp, de como se interagir com a juventude do século XXI torcedora do Liverpool. Moore tenta, como bom gerente de marketing que sempre foi, construir uma imagem do Liverpool como um time popular, jovem e com ideias progressistas e tudo isso intencionalmente para resolver problemas construídos desde o final dos anos 1990 mas principalmente no século XXI.

O AFC Liverpool é um clube semi-amador criado em 2008 que disputa uma liga no que seria a nona divisão da pirâmide do futebol inglês. O clube, independente, sem fins lucrativos foi criado por torcedores do Liverpool FC que se sentiam excluídos dos jogos de seu time de coração devido ao aumento do custo dos ingressos dos jogos. O clube informa que é gerido pelos torcedores e qualquer um pode se tornar membro e tem direito a voto nas decisões do clube. Eles não são contra o Liverpool FC, continuam torcedores que quando podem vão aos jogos em Anfield mas tem uma política de relação com os torcedores diferentes da do Liverpool FC e criticam a impossibilidade de boa parte dos torcedores não terem acesso aos campos de futebol tanto do Liverpool FC como das outras equipes da Premier League. O AFC Liverpool é sim um clube com gerenciamento socialista.

E aí está o problema que Peter Moore veio para resolver como novo CEO do Liverpool FC em 2017. Desde a criação da Premier League no início dos anos 1990, e mais intensamente nos últimos 15 anos o preço dos ingressos para os jogos do Liverpool vem subindo em um grande ritmo ficando cada vez mais difícil para que a grande massa de torcedores dos Reds, principalmente os das classes mais baixas e também dos mais jovens, possam acompanhar os jogos da equipe. E as críticas a esse sistema do “futebol moderno”, ou “futebol-negócio” vem aumentando substancialmente entre, principalmente, a nova geração de torcedores dos Reds.

Outra crítica que os torcedores vem fazendo aos Reds é ao fato do clube ser de posse do Fenway Sports Group, uma Companhia Privada Limitada de investimentos na área de esportes sediada na região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. Grande parte dos torcedores não aceitam a ideia de que seu clube de coração possam ter um dono que explora o time, recolhendo apenas os lucros da atividade.

Peter Moore vem para criar imagens que amenizem essas críticas sofridas pelo grupo que comanda o Liverpool. Primeiramente criando uma ideia de que o legado das ideias de Bill Shankly ainda estão no clube. Ideias de conjunto, coletividade e até socialismo. Lembremos que Liverpool é, politicamente, uma cidade progressista, de centro-esquerda e que grande parte dos seus fãs são jovens da classe proletária. Nada melhor para a imagem do clube reafirmar as ideias “socialistas” e coletivistas da maior figura da história do clube: Shankly. E Klopp, com suas ideias, tanto de futebol como sobre a vida, caem como uma luva no discurso de Moore. Quando Moore diz que o sucesso do Liverpool se baseia no socialismo ele assim fala para trazer os seus torcedores mais próximos do clube, para suavizar as relações desgastadas entre torcedores, principalmente os mais jovens, e o clube.

Moore também informa que a intenção dos donos do clube é de retirar os dividendos a longo prazo, que o que importa é valorizar o clube, não é retirar o dinheiro imediatamente do clube. Assim tentando suavizar as críticas da torcida. Mas o torcedor do Liverpool da grande massa proletária do Liverpool continua com dificuldades para acompanhar o clube in loco, somente assistindo pela televisão, e os preços dos ingressos não parecem que irão diminuir. Fenômeno que não é exclusividade de Liverpool, mas em todo o mundo dos grandes clubes de futebol.

Como citar

LIMA, Marco Antunes de. Liverpool FC socialista? Um discurso para o campeão europeu. Ludopédio, São Paulo, v. 128, n. 11, 2020.