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Os livros sobre a Chapecoense lançados após a tragédia

Giulia Piazzi

Terça-feira, 29 de novembro de 2016. Para adoradores ou não do futebol, essa é uma data inesquecível – e muito desoladora. O avião que levava a delegação da Chapecoense e profissionais de imprensa, de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, para Medellín, na Colômbia, onde seria disputado o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana 2016, caiu na madrugada. 71 mortos e 6 sobreviventes. Difícil falar sobre esse trágico acontecimento sem se comover.

Esse triste episódio não foi o primeiro a envolver times de futebol e atletas no mundo, mas pela primeira vez o Brasil sofreu por um clube que, aos poucos, ganhava fãs e admiradores pelo país, tanto pela campanha que vinha fazendo, de ascendência plena, quanto pela simpatia de sua torcida e da cidade de Chapecó, em Santa Catarina.

A tragédia da Chapecoense movimentou e mobilizou o mundo todo. O Atlético Nacional, equipe com a qual a Chape brigaria pelo título, deu um grande exemplo de solidariedade e empatia, e, além das emocionantes homenagens prestadas, recomendou à Conmebol que desse o título da Copa Sul-Americana 2016 à equipe brasileira. Por essas atitudes, a FIFA concedeu aos colombianos o prêmio de Fair Play, entregue por Carles Puyol a Juan Carlos de la Cuesta, presidente do clube, na cerimônia do Prêmio Melhor do Mundo, em janeiro de 2017, na Suíça.

A história, é claro, deu espaço a novidades no mercado editorial e no nicho dos livros de futebol. Entre os sobreviventes, logo se imagina que tal “milagre” pode ser contado nas páginas de um livro. E assim foi feito, por exemplo, por Rafael Henzel, jornalista, e por Neto, zagueiro da Chape. Além disso, houve uma publicação produzida pela esposa de um jornalista vítima da tragédia e a adição de um capítulo em outro livro que só esperava o término da Sul-Americana para ficar pronto – mas teve um final infeliz.

Veja, então, os livros sobre a Chapecoense lançados até agora e confira tudo o que a união Brasil-Colômbia construiu!

Os 4 livros sobre a Chapecoense lançados após o acidente aéreo

1. Viva como se estivesse de partida, de Rafael Henzel

Capa do livro "Viva como se estivesse de partida", de Rafael Henzel, publicado pelo selo Principium, da Globo Livros

Capa do livro “Viva como se estivesse de partida”, de Rafael Henzel, publicado pelo selo Principium.

O livro Viva como se estivesse de partida – Um relato otimista e emocionante do jornalista que sobreviveu à tragédia da Chapecoense, lançado em junho de 2017, foi escrito por Rafael Henzel e publicado pelo selo Principium, da Globo Livros. Henzel o dedicou às vítimas do voo 2933 da LaMia, aos amigos, às pessoas que prestaram solidariedade e aos demais sobreviventes: os membros da tripulação Erwin Tumiri e Ximena Suárez e os jogadores Neto, Follmann e Alan Ruschel.

O locutor esportivo fala sobre os momentos vividos antes e após o resgate. Ele conta de maneira muito emocionada, sem entrar em detalhes sobre o ocorrido. O foco do jornalista é a superação, a lição de vida, a emoção, a motivação para seguir em frente após o desastre aéreo.

Em um dos capítulos (intitulado “A solidariedade deixa marcas”), Rafael cita que a chefe do corpo clínico que cuidou dele no hospital em Medellín, em meio ao choro, o aconselhou, com um ditado comum na Colômbia e que ficou marcado para sempre em sua vida:

“Para trás, nem para tomar impulso.Olhe para a frente.”

A palavra-chave da obra é gratidão. Os amigos e os familiares são o bem maior que faz com que Rafael Henzel supere todas as objeções e siga com alegria a sua “segunda vida”. Por opção, o jornalista não havia visto algumas imagens do acidente, até conceder entrevista a Ana Maria Braga, no programa Mais Você, da Rede Globo.

O livro já foi lançado em várias cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e, claro, Chapecó. É uma ótima leitura e um grande desafio para controlar o choro.

2. Cartas de Isabella, de Isabella Fernandez Ibargoyen

Capa do livro "Cartas de Isabella", de Isabella Fernandez Ibargoyen – esposa de Giovane Klein, jornalista vítima da tragédia. Fonte da imagem: Livraria Cultura.

Capa do livro “Cartas de Isabella”, de Isabella Fernandez Ibargoyen – esposa de Giovane Klein, jornalista vítima da tragédia.

O livro Cartas de Isabella, também publicado em junho deste ano, foi escrito pela repórter Isabella Fernandez Ibargoyen. Ela é viúva de Geovane Klein, um dos jornalistas que morreram no acidente aéreo. Os gaúchos trabalhavam juntos na mesma redação da RBS TV, em Chapecó.

Essa obra tem um lado interessante de mercado editorial moderno: a jornalista escrevia em seu Facebook algumas crônicas para o namorado, sobre coisas e acontecimentos que gostaria de compartilhar com ele caso estivesse aqui, assim como fazia antes da tragédia. Isso chamou a atenção da escritora Eliziane Nicolao, que acabou fazendo a intermediação entre os textos e a Editora InVerso, de Curitiba.

No total, são 22 crônicas, das quais oito já haviam sido divulgadas no perfil da rede social. Além disso, também como estratégia, o livro foi lançado próximo ao Dia dos Namorados.

Leia um trecho de um dos textos publicados por Isabella no Facebook, em dezembro de 2016:

“Te conto que os jogadores e toda equipe da chape seguem sendo tratados como heróis! Aliás, nesse mundo que tanto amaste, o da bola, grandes nomes estão por aqui rezando por vocês! Equipes pelo mundo enviaram energias positivas, o futebol inglês que tu tanto gostava de acompanhar ‘deu show’ mais uma vez na copa da liga inglesa! A torcida do Liverpool cantou, e por um minuto o estádio inteiro se calou! Confesso que me arrepiei como tu cada vez que parava pra assistir a um jogo europeu e ficava admirado com o respeito deles ao minuto de silêncio… eles fizeram exatamente isso pra ti!”

Com a história de amor, Isabella ajudou muitas pessoas e aproximou-se delas, especialmente as mulheres que ficaram viúvas após o acidente. A editora já promoveu lançamentos em Pelotas, Sant’Ana do Livramento, Porto Alegre, Chapecó e Concórdia.

3. Posso crer no amanhã, de Helio Zampier Neto

Livros sobre a Chapecoense - Capa da obra "Posso crer no amanhã", do zagueiro Neto, publicada pela Editora Vida. Fonte da imagem: Gospel Goods.

Capa do livro “Posso crer no amanhã”, escrito pelo zagueiro Neto e publicado pela Editora Vida.

É com a seguinte citação de Albert Einstein que Helio Zampier Neto inicia seu livro, antes do texto de apresentação:

“Só existem duas maneiras de viver a vida. A primeira é vivê-la como se milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.”

Ele é um dos jogadores que sobreviveram ao acidente, junto com Alan Ruschel e Jakson Follmann. O livro Posso crer no amanhã – Relato de superação e esperança de Neto, sobrevivente da Chapecoense, foi lançado oficialmente em setembro de 2017, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, pela Editora Vida. E antes do lançamento oficial já contabilizava mais de 5 mil exemplares vendidos.

Não se trata de uma obra que foca apenas na tragédia. Como Rafael Henzel, o zagueiro Neto fala sobre resiliência e superação. Seu livro se enquadra na categoria Biografia, na medida em que o testemunho do jogador retorna ao início da sua história de vida desde a saída de casa, no Rio de Janeiro, para tentar a vida no futebol, enfatizando a sua força de vontade e relatando as renúncias que se fizeram necessárias para chegar aonde está.

Outras pessoas, como a esposa de Neto e seu irmão mais velho, também participam do livro e o ajudam a contar sua bonita história. O leitor pode esperar do livro muitas coisas inéditas, pois as lembranças vieram com o passar do tempo, e o que ficou por dizer nas entrevistas ele conseguiu transcrever e revelar na autobiografia.

Neto, que ainda luta para voltar aos gramados, realiza várias palestras (testemunhos de vida) em igrejas. Evangélico, estava com sua Bíblia na viagem. E ela foi encontrada no meio dos destroços do avião da LaMia, pelo repórter Cabrini, aberta no Salmo 63:1-8, transcrito a seguir, como relatado no começo do capítulo 1, “A vida em retrospectiva”.

“Ó Deus, tu és o meu Deus,
eu te busco intensamente;
a minha alma tem sede de ti!
Todo o meu ser anseia por ti,
numa terra seca, exausta e sem água

Quero contemplar-te no santuário
e avistar o teu poder e a tua glória.
O teu amor é melhor do que a vida!
Por isso os meus lábios te exaltarão.
Enquanto eu viver te bendirei, e em teu nome levantarei as minhas mãos.
A minha alma ficará satisfeita como quando tem rico banquete;
com lábios jubilosos a minha boca te louvará.

Quando me deito lembro-me de ti; penso em ti durante as vigílias da noite.
Porque és a minha ajuda, canto de alegria à sombra das tuas asas.
A minha alma apega-se a ti; a tua mão direita me sustém.
Aqueles, porém, que querem matar-me serão destruídos; descerão às profundezas da terra.
Serão entregues à espada e devorados por chacais.
Mas o rei se alegrará em Deus; todos os que juram pelo nome de Deus o louvarão, mas as bocas dos mentirosos serão tapadas.”

As histórias de superação de Neto e suas lindas palavras hipnotizaram os jogadores da seleção brasileira no vestiário após o jogo contra o Equador, em que venceram por 2 a 0, em Porto Alegre, no dia 31 de agosto. Abraçado por Neymar, de quem é amigo desde a época de Santos, foi convidado a entrar no vestiário da Arena do Grêmio e tomou conta do ambiente junto ao seu filho.

Para voltar aos gramados, o zagueiro ainda precisa passar por uma cirurgia no joelho, pois rompeu o ligamento cruzado e sente muitas dores em treinos. Ele segue fazendo fisioterapia e trabalhos de fortalecimento muscular.

Além do Rio de Janeiro, na Bienal, a cidade de São José dos Campos, no interior de São Paulo, e de Salvador também receberam Neto para o lançamento do livro.

4. Chapecoense 2006-2016 – O triunfo da ética, de Marco Aurélio Nedel

Livros sobre a Chapecoense - Capa do livro "Chapecoense 2006-2016 - O triunfo da ética", escrito por Marco Aurélio Nedel e publicado em edição independente pelo escritor

Capa do livro “Chapecoense 2006-2016 – O triunfo da ética”, escrito por Marco Aurélio Nedel e publicado em edição independente pelo escritor.

A obra Chapecoense 2006-2016 – O triunfo da ética ressalta em especial os anos de ascendência da Associação Chapecoense de Futebol. Ela foi publicada antes dos demais livros da lista aqui apresentada, em abril de 2017, em edição independente do escritor Marco Aurélio Nedel, e já vinha sendo produzida anteriormente ao desastre aéreo.

O autor estava esperando a final da Copa Sul-Americana 2016 para terminar o livro e publicá-lo em seguida, mas infelizmente precisou escrever um capítulo extra e nada animador.

A intenção de Nedel sempre foi mostrar os bastidores do clube, a história do time, a alegria nos vestiários depois das vitórias. Entrou na rotina da instituição para apresentar a todos a força que fez com que a Chape se recuperasse de grave crise financeira, nos 2000, e, em cinco anos, saísse da quarta divisão nacional, em 2009, para cativar a todos na Série A do Brasileirão, em 2014, e lá permanecer desde então. Além disso, o clube disputou consecutivamente a Copa Sul-Americana em 2015 e 2016, mais um momento histórico que Nedel pôde destacar dentro do contexto de apresentação da história da Chape: uma trajetória baseada na ética, no planejamento e na administração exemplar.

Para a produção do livro, foram feitas, desde 2015, mais de 30 entrevistas com atletas, colaboradores do clube, membros da diretoria e da equipe técnica. A última pessoa a ser entrevistada, no dia 18 de novembro de 2016, foi o técnico Caio Júnior, uma das 71 vítimas do acidente.

O livro é oficialmente distribuído pela Leitura Dinâmica, de São Paulo. Uma das cidades pelas quais Marco Aurélio Nedel passou com o livro foi Maravilha, em Santa Catarina. Em entrevista, ele relatou, muito emocionado, que gostaria de ter escrito que “a Chapecoense permanece em 9ª posição no Brasileiro e é campeã Sul-Americana”, e destacou que “a Chape mostrou para o Brasil que é possível. Que com ética podemos conseguir resultados inimagináveis”.

O autor é natural de Crissiumal, Rio Grande do Sul. É escritor premiado – conquistou o Prêmio Talentos Literários com o livro Condá: O Imperador do Oeste, lançado em 2015.

Um dado interessante é que Marco Aurélio Nedel doou 250 exemplares para a família de Anderson Paixão, preparador físico do clube morto no acidente. A viúva de Anderson, Ulrike Ohlweiler, que passa dificuldades desde a tragédia para pagar os estudos dos filhos, tem tentado vender os livros para garantir o pagamento da escola das crianças.

Até o final do mês de setembro, foram vendidos cerca de 70 exemplares. É possível entrar em contato diretamente com Ulrike – ou apenas “Uli” – para adquirir um exemplar, via Facebook, e ajudar a família. Em julho, ela anunciou os livros em sua página, relembrando o momento em que o preparador físico concedeu entrevista a Marco Aurélio Nedel:

“Lembro do Anderson saindo de casa para dar a entrevista para o autor deste livro. Mais uma vez ele estava feliz.
Dessa vez, por fazer parte de um livro que contava a história recente da Chape, este time que ele tanto prezava.
Ele tinha muito orgulho de fazer parte da evolução do clube e de sua história.
Num gesto muito bonito, recebi de presente 250 exemplares do MARCO AURÉLIO NEDEL, autor deste lindo livro que conta a história da Chape e nele estão as entrevistas de alguns jogadores, equipe técnica, direção… foi escrito antes do acidente e seu último capítulo seria escrito depois da final da sul-americana.”

De acordo com Uli, o escritor afirmou que não fará outra tiragem da obra por não querer ganhar dinheiro em cima da tragédia dos outros. Nedel considera a edição como uma “edição doméstica”. No total, foram impressos 5 mil exemplares, que, a princípio, ficaram restritos à venda física apenas na cidade de Chapecó – em sites como Amazon e Saraiva, a obra é facilmente encontrada, também em formato digital.

Bônus: Yo también sobreviví – Yaneth Molina, la controladora del Chapecoense, de Carlos Acosta García

Capa do livro "Yo también sobreviví", de Yaneth Molina e Carlos Acosta García

Capa do livro “Yo también sobreviví – Yaneth Molina, la controladora del Chapecoense”, de Carlos Acosta García.

Yo también sobreviví é um bônus desta lista. Trata-se de um livro internacional, escrito por Yaneth Molina e Carlos Acosta García, ambos controladores de voo.

Yaneth resolveu quebrar o silêncio e, em uma parceria com o marido Carlos, escreveu sua experiência e seu sentimento após a tragédia. Ela era a controladora do voo da Chape e foi julgada por muitas pessoas por sua atuação no acidente. Chegou a sofrer ameaças e não queria sair de casa, chorava muito, e foi com o livro que conseguiu enfrentar a situação. Nele, abriu o jogo e resolveu tratar o que a imprensa não divulgou.

Em carta publicada dias depois do ocorrido, Molina já destacava que havia feito o que era “humanamente possível e tecnicamente obrigatório”, o que ressalta novamente na obra. Leia um trecho:

“Compañeros por mi familia y por este trabajo que valoro y respeto puedo afirmar con absoluta certeza que de mi parte hice lo humanamente posible y lo técnicamente obligatorio para conservarles la vida a esos usuarios del transporte aéreo, lamentablemente mis esfuerzos resultaron infructuosos por las razones que son por todos ustedes conocidas.”

O lançamento foi feito há poucos dias, em 17 de novembro de 2017, na Academia Antioqueña de Aviación, em Medellín. O livro ainda não tem previsão de possível tradução para o português ou distribuição em outros países. Yaneth afirma que, no Brasil, isso está sendo tratado com o consulado. É uma publicação independente, com recursos próprios. Foram impressos 500 exemplares, e o testemunho também será disponibilizado em e-book.

Em produção: a biografia da Chapecoense está por vir

Chapecoense: uma história de sacrifício, uma paixão. Este será o título da biografia da Chapecoense, livro que já vem sendo escrito há pelo menos 6 anos por Ivan Carlos Agnoletto, mas que teve sua conclusão adiada após o fatídico episódio.

O radialista da Super Condá AM era o último nome da lista de passageiros que foi divulgada após o acidente aéreo. Porém, ele havia cedido o lugar no voo para Gelson Galiotto, seu colega de trabalho há mais de 15 anos. Apesar do intenso apoio da família para que cobrisse a final internacional, já que faz a narração dos jogos da Chapecoense há mais de 36 anos, ele decidiu dar espaço ao amigo. Ainda que tenha escapado do desastre, viveu um grande pesadelo.

Escrever um livro sobre a Chapecoense foi uma ideia que surgiu quando Ivan Carlos começou a escutar informações erradas sobre a história do clube catarinense. E ele, que começou a trabalhar na Associação Chapecoense de Futebol em 1973, ano de sua fundação, como puxador de fios, conhece detalhadamente todo o histórico da instituição. Da fundação até o momento em que for fechar o livro, sabe tudo verdadeiramente.

Agora, ele quer esperar a reascensão da Chape para finalizar a obra, pois há um capítulo muito triste a ser redigido, mas que ele não quer que marque o fim do livro. Mesmo que o clube tenha uma história de sacrifício, encerrar sua biografia dessa forma não demonstraria toda a alegria contagiante da equipe antes da tragédia. Logo, aguardamos notícias sobre o lançamento de uma bela produção editorial.

#NãoÉSóFutebol: união Brasil-Colômbia até na literatura!

Uma grande característica do futebol é unir todas as paixões, cores, raças, classes sociais e culturas. Embora ainda tenhamos muito o que evoluir no que concerne, por exemplo, ao racismo e à homofobia no esporte, não há como negarmos seu caráter sociológico, histórico, cultural e até mesmo político desde a sua chegada “oficial” ao Brasil, no final do século XIX.

Em meio a esse trágico acidente, o mundo todo presenciou a união do Brasil com a Colômbia, especialmente das cidades de Chapecó e Medellín. Lindas homenagens foram feitas pelos colombianos. O futebol novamente esteve como pano de fundo em um cenário de amizade, solidariedade e gratidão.

A sensação de acolhimento é relatada nos livros de Neto e Henzel com muita emoção. Na apresentação, o zagueiro comenta:

“Agora a Chapecoense também era deles. Nesse instante, Brasil e Colômbia se tornaram um único coração, um único desejo, uma única busca.”

Rafael Henzel inicia o segundo capítulo do livro, “A solidariedade deixa marcas”, ressaltando essa bonita ligação entre as pessoas, as cidades, os países:

“É inexplicável o quanto a tragédia uniu as pessoas. Não tínhamos nenhuma ligação cultural, esportiva ou étnica com a Colômbia. Nada. De repente, conseguiram reunir, em menos de dois dias após o acidente, 90 mil colombianos dentro e ao redor do estádio Anatasio Girardot, em Medellín.”

De fato essa união marcou de forma bem positiva a relação Brasil-Colômbia, que ainda persiste e tem tudo para ser eterna. E uma coisa interessantíssima é que a aliança expandiu-se inclusive na literatura! Pela primeira vez, a Fiesta del Libro y Cultura de Medellín, em sua 11ª edição, resolveu homenagear um país. Escolheu o Brasil, representado por Chapecó, como convidado de honra do evento, que ocorreu entre os dias 10 e 17 de setembro de 2017, com o tema Identidades.

Banner da 11ª Fiesta del Libro y la Cultura de Medellín.

Divulgação da 11ª Fiesta del Libro y la Cultura – Identidades. Fonte da imagem: Ministério da Cultura.

A feira é um dos principais eventos culturais da Colômbia, com um público superior a 500 mil pessoas. O evento aconteceu no Jardim Botânico – Parque Explora – Parque de los Deseos, um dos principais pontos turísticos da cidade de Medellín, e foi articulado pelo Ministério da Cultura (MinC), em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE).

No pavilhão brasileiro, foram colocados depoimentos e mensagens audiovisuais dos sobreviventes do acidente aéreo. Houve também área reservada para a venda e a exposição de livros – inclusive sobre a história da cidade de Chapecó –, culinária, fotografias e artes plásticas.

Medellín & Chapecó: duas cidades, um só coração

Além da literatura, a arte também terá sua vez. No lançamento do Parque Medellín, cujo projeto foi lançado em abril de 2017 e tem previsão de término para o final deste ano, haverá espaço para esculturas de artistas de Chapecó e de Medellín. O parque terá uma área de 109 mil metros quadrados e terá mirante, espelho d’água, brinquedos para crianças e um hexágono que se assemelha ao orquidário do Jardim Botânico de Medellín.

O lançamento contou com a presença do prefeito da cidade de Medellín, Federico Gutiérrez Zuluaga, e do prefeito de Chapecó, Luciano Buligon. A parceria entre as duas prefeituras, intitulada “Dos ciudades, un solo corazón”, tem um banner representativo:

Banner da campanha “Medellín & Chapecó – Dos ciudades, un solo corazón”. Fonte da imagem: Prefeitura de Chapecó.

Onde você estava no dia do acidente?

Você acorda, e logo cedo se depara com uma péssima notícia, na qual se recusa a acreditar. Vai para o trabalho e acompanha, a cada minuto, as atualizações sobre a tragédia. Não consegue trabalhar direito. Assiste ao noticiário no horário de almoço com olhos marejados e vários nós na garganta – a comida mal desce.

Naquele 29 de novembro, eu havia preparado uma apresentação sobre minha pesquisa para os meus colegas de mestrado, a ser realizada no Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), aqui em Belo Horizonte. Tinha que ser aquele dia. Última aula do semestre. E eu falei sobre os livros de futebol com a tristeza de quem havia perdido um ente querido. Mas a apresentação saiu, sem lágrimas, e muito boa, por sinal. Ufa!

Um ano depois, cá estou escrevendo a respeito de lindas obras sobre a Chape Terror, nossa querida Chapecoense. Dessa vez, na leitura, consegui prender o choro? Não. Fica, então, a dica: junto com um desses livros, tenha um lenço em mãos.