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Lutando para existir: Madge Syers e a patinação artística

Wagner Xavier de Camargo

O esporte moderno em sua origem, definitivamente, não foi um “assunto para mulheres”. Criado pelo Barão de Coubertin e sua trupe em 1896, além de ser aristocrático, o esporte era um espaço de existência e hegemonia masculina. Não apenas o mundo masculino do esporte foi reeditado a partir dos valores da Antiguidade Clássica, como o lugar da mulher permanecia o mesmo: a elas eram relegadas as arquibancadas e, no máximo, práticas físicas que fossem “adequadas” ao seu sexo; porém, bem distantes das arenas esportivas competitivas. Na perspectiva de gênero, em que pese o mundo ter sido mexido pela primeira onda feminista ainda em fins do século XIX a favor do voto feminino, no recém-criado esporte tudo permanecia “mais do mesmo” para as mulheres.

Contudo, já é consenso entre pesquisas mais recentes que a posição das mulheres era negociada e mesmo algumas destemidas atletas conseguiram vencer situações que eram dadas como consolidadas e fechadas ao reduto de homens esportistas. Este ponto de vista é interessante para a história das problemáticas de gênero no esporte contemporâneo. Em setembro último fez 101 anos da morte de Florence Madeline Cave, carinhosamente chamada de “Madge”, uma aguerrida patinadora inglesa, que ousou competir numa modalidade marcada pela presença masculina.

Ela foi a primeira mulher atleta a ganhar uma medalha de ouro numa competição Olímpica. Curiosamente, essa competição foram os Jogos Olímpicos de Londres, de 1908, que mesmo tendo ocorrido no calendário das “olimpíadas de verão”, incluíram a prova de figure skating, ou patinação artística. Madge ganhou ouro no individual feminino e bronze nas duplas, com o então marido Edgar Syers.

Mas a história não foi tão simples assim. Em que pese possuísse uma habilidade relacionada ao equilíbrio e ao patinar no gelo, Madeline teve que lutar muito para ter um lugar de reconhecimento – e de reconhecimento de outras mulheres, que como ela apenas queriam praticar esportivamente o que amavam fazer. A patinação era uma velha conhecida dos europeus desde a Idade Média, porém começou a ser desenvolvida sistematicamente na Inglaterra a partir do reinado de Carlos II, que reivindicou o trono inglês depois da execução de seu pai, Carlos I. Foram os ingleses que desenvolveram a lâmina mais curta, o que tornou possível a prática da patinação, semelhante ao que conhecemos hoje.

Madeline teve desde o cedo como treinador Edgar Syers. Foi ele quem apresentou a ela um estilo mais livre de patinação, de inspiração austríaca, e que a fez vencer a competição de duplas, no campeonato nacional da Inglaterra em 1899. Depois de casados, passaram a competir juntos em eventos esportivos de menor importância na Europa, conquistando bons resultados.

Mas foi a impetuosidade e assertividade de Madge que a levou até o Campeonato Mundial de Patinação Artística (World Figure Skating Championships), em Londres, em 1902. Restrito à categoria masculina e sem possibilidades de que mulheres fossem algo além de espectadoras, Madge pediu para ler o regulamento da competição e, após um exame criterioso, constatou que não havia cláusulas que impedissem mulheres de participar no evento. Ao expor seu raciocínio de que “se não estava escrito então era permitido”, ela foi autorizada a patinar. Sua performance no gelo foi excepcional e seu resultado ainda mais: terminou a competição de singles em segundo lugar, atrás apenas de Ulrich Salchow, o patinador sueco que inventou um salto ousado, anos mais tarde batizado com seu nome.

Madge e Edgar Syers nos Jogos Olímpicos de 1908.

Como retaliação à referida impetuosidade, no ano seguinte a International Skating Union – ISU (espécie de órgão federativo internacional de patinação no gelo) resolveu discutir como pauta central no congresso anual o assunto “mulheres versus homens” na patinação artística. Da reunião saiu estabelecido a proibição à prática da patinação por mulheres atletas, uma vez que não eram permitidas suas participações porque: 1) suas saias eram muito longas para que os árbitros avaliassem o trabalho de pés exigido no esporte; 2) seria muito complicado comparar capacidades técnicas de uma mulher com as de um homem; 3) uma dada atleta poderia estar envolvida emocionalmente com um árbitro homem, o que o faria marcar mais pontos para ela.

Mais uma vez Madge não se abateu e, na primeira oportunidade que teve, colocou suas saias na altura dos joelhos e continuou patinando. Não desistiu da batalha pela presença de mulheres em eventos esportivos de patinação. Seu legado de lutas, portanto, foi difícil de ser negligenciado e, praticamente, foi impossível conter a emergência de uma competição de patinação artística somente para mulheres, organizada e executada no ano de 1906. Importante mencionar que tal evento foi concebido de modo apartado do Campeonato Mundial masculino, inclusive em local distinto. Isso foi produto de um forte lobby de membros homens, integrantes da ISU. Madge Syers venceu os mundiais femininos de patinação em 1906 e 1907.

O resto da história, todos sabemos. Madge teve uma trajetória brilhante coroada com as medalhas olímpicas em 1908 e foi peça fundamental pelo direito das mulheres patinadoras europeias e de todo o mundo. Aos 35 anos, em setembro de 1917, Madge faleceu de endocardite aguda, uma séria inflamação da parte interna do miocárdio, o músculo cardíaco, encerrando uma carreira brilhante no gelo. Anos depois, foi indicada ao hall da fama da patinação artística.

O exemplo de Madge Syers de persistência e resiliência no contexto da prática da patinação artística para mulheres nos mostra o quão importante são nossas posturas políticas contra regimes rígidos e hegemônicos, particularmente dominados por homens brancos, conservadores e hetero(sexistas). Sua luta não foi apenas pessoal, mas coletiva. Não foi somente uma briga pelo desejo de patinar e sim foi uma exigência pela existência, de outros sujeitos, nos ringues de patinação, nos espaços esportivos e na vida!


Para quem quer saber mais:

ADAMS, Mary Louise. Artistic Impressions: figure skating, masculinity, and the limits of sports. Toronto/Buffalo/London: University of Toronto Press, 2011. 294 p.

BEHRINGER, Wolfgang. Kulturgeschichte des Sports. Vom Antiken Olympia bis ins 21. Jahrhundert. München: C.K.Beck, 2012. 494 p.