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Machismos futebolísticos

Wagner Xavier de Camargo

Escrevo este texto ainda impactado pela notícia da morte de Érica Fernandes Ceschini, no último domingo de janeiro, em virtude de uma discussão com o marido sobre o resultado do jogo final da Libertadores da América, na qual o Palmeiras sagrou-se campeão frente ao Santos. Segundo confissão do marido, em matéria no UOL, Érica teria sido assassinada por ele no apartamento do casal, em virtude de uma discussão acerca do jogo. Há várias versões sendo levadas em conta pela investigação e é provável que nunca saberemos, ao certo, os motivos deste crime.

Não é novidade que há violência de gênero contra mulheres no Brasil e que a maioria dos violentadores (abusadores, estupradores, homicidas) são homens. Em geral, é o homem branco, heterossexual, cristão, membro familiar próximo, que é colocado no pedestal de privilégios instituídos pelo patriarcalismo e legitimado pelas instituições sociais, governo, igreja, forças armadas e afins.

Vale dizer que a violência de gênero tem lugar de estudos nas Ciências Humanas e Médicas há anos, sob múltiplos pontos de vista teóricos, e que já identificou vários algozes, incluindo homens negros e mesmo mulheres. Mas, o que me interessa provocar leitores e leitoras de minha coluna é pensar como a violência de gênero é um dos ingredientes que movem o futebol. Sim, porque o esporte, como uma instituição social, recoloca em outro cenário aquilo que atinge as pessoas em sociedade.

E aqui, em que pese eu ter iniciado minha reflexão sobre o caso da mulher torcedora assassinada pelo marido, proponho ampliar o conceito de violência de gênero para pensar que jogadores menores de idade abusados por técnicos, talentosos garotos adolescentes obrigados a fazer sexo com homens adultos para jogarem no exterior, estupros coletivos perpetrados por jogadores famosos contra mulheres torcedoras ou tietes (lembremo-nos do recente caso Robinho) são parte de um mesmo esquema, instaurado, fomentado e patrocinado pelos machismos cotidianos no futebol.

São, portanto, machismos futebolísticos, que maltratam, abusam e matam. São eles que habitam o futebol e o legitimam como uma instituição de valores androcêntricos e arcaicos. Difícil se livrar deles, mesmo porque são oriundos da cultura, das práticas de gênero correntes entre as pessoas, da desigualdades entre homens e mulheres, ou no limite, da dominação sobre quem não é homem. São mecanismos que atestam tal futebol como prática hegemônica.

Tais machismos vão educando (em amplo sentido) o menino desde tenra infância – e, por exclusão, “educam” meninas e outros. Frases comuns, ditas em momentos de ensinamento futebolístico (ou de doutrinação), marcam a subjetividade e mostram o caminho que o “futuro homem” deve seguir: “não seja uma mulherzinha, chuta forte!”, “jogue como homem”, “presta atenção naquele juiz filho da puta”, “não vai arregar e escorregar no quiabo na hora da peneira”, “não seja um frangote”, “nada de ser goleiro, pois são tudo viado” e muitas outras mais. Estou seguro de que, tanto eu quanto você (homem) já ouvimos isso na vida, e ainda continuamos ouvindo isso em muitos momentos de nosso dia-a-dia.

“Jogue como homem” é uma das tantas frases ouvidas pelas mulheres quando o assunto é futebol. Foto de RF._.studio no Pexels.

Esses ditos machistas, que não são exclusivos do futebol, mas o habitam, trazem nas entrelinhas: a mulher como formato vergonhoso de ser humano; a inferioridade na performance de uma outra masculinidade que não aquela bruta, agressiva e viril; a prostituta associada a figura da mãe, como xingamento degradante; as práticas de sexo anal sendo ridicularizadas, como se apenas o sexo vaginal fosse o modelo a ser seguido; a fraqueza atrelada ao homem que tem por orientação a homossexualidade.

Por mais que se queira, o futebol enquanto “escola de vida” não mudou tanto assim de quando eu era criança, lá nos anos 1970, para hoje, no início da terceira década do século XXI. Na verdade, retroagindo no tempo até o mito de origem e de seu “pai fundador”, o inglês Charles Miller – para quem acredita nessa versão fabulosa –, as prerrogativas de uma atividade criada para homens se socializarem já estavam postas. De fins do século XIX, momento crucial de criação do esporte moderno como conhecemos, até os dias de hoje, o lugar reservado aos homens só sofreu ameaças e, por isso, se recrudesceu.

Todos esses são o que chamei de ingredientes que produzem a “mistura mágica” do futebol – de homens, obviamente. Qualquer outra expressão futebolística, merece ser desconsiderada ou conduzida às sombras. Por isso, ainda ouvimos que o futebol feminino (de mulheres) está na casa da imitação e é ruim, o futebol de pessoas com deficiência é uma benevolência (afinal, “coitados”, deixem que se distraiam) e as expressões dos múltiplos futebóis de homens gays, mulheres lésbicas, homens ou mulheres trans(gênero) e mesmo os futebóis indígenas, inexistem! O não reconhecimento da existência do outro não é apenas um ato de ignorância (de desconhecimento), mas uma estratégia de desqualificação, de esvaziamento, de extinção. Aquilo que não existe, não ameaça.

Para o mundo machista futebolístico, esses múltiplos futebóis inexistem na exata medida que suas existências se configurariam como uma afronta ao futebol hegemônico de homens, que é, então, considerado “perfeito, emocionante, digno, inebriante, enlouquecedor, incomparável” – todas adjetivações carregadas de um juízo moral absolutamente parcial.

Mas, eis uma péssima notícia para tal universo futebolístico machista: as variantes destes futebóis fragmentários, imperfeitos, desgenerificados, existem, e estão aí batendo suas bolinhas e, entre erros e acertos, tentando obstruir os velhos valores masculinistas introjetados.

Sempre pensei nas funções educativas do espetáculo esportivo, como em um jogo de futebol, nas torcidas, nas atitudes entre atletas e mesmo nos patrocinadores ou empresas que bancam competições de esporte. Não me refiro a funções educativas caretas, como as que já ganharam as mentes do domínio comum, como: “o esporte ensina”, “esporte sim, drogas não”, “não ao racismo” e outras tantas ações que são mais um verniz de fachada do que uma transformação de fato.

Proponho como meta educativa algo mais radical: emascular o futebol mainstream, tanto o que se vende como produto na mídia, quanto o que se pratica na rua, do lado de casa. As mudanças estão na base de ações e comportamentos. Que mais mulheres e outros corpos sexuados joguem futebol, seus futebóis ou qualquer futebol; que sejam estimuladas/os a aparecer em arquibancadas ou nos campinhos; que muitas mulheres sejam formadas para cargos de treinadoras, assistentes, árbitras ou juízas (e que não estejam alinhadas, de preferência, à heterossexualidade); que futebolistas homens trans sejam contratados em equipes masculinas e joguem no selecionado; que massagistas homens ou mulheres trans participem da equipe de apoio de um clube ou de uma seleção nacional; que torcedores e torcedoras homoafetivos/as possam demonstrar afeto em meio às torcidas organizadas.

Assim como no futebol, a composição técnica de um time muda o jogo. Novas táticas são possibilitadas a partir de outras configurações de futebolistas em suas funções. Não me preocupo em transformar o futebol oficial, porque mudanças já estão em curso dentro dele. O que me estimula é viabilizar sua corrosão, o mais rápido que isso possa ocorrer.

Está aberta a temporada de radicalidades contra os machismos futebolísticos. Quem se habilita?


Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Machismos futebolísticos. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 16, 2021.