125.7

Macrismo nunca mais

Fabio Perina

Neste texto, busco uma breve retrospectiva das principais conseqüências para a organização do futebol argentino durante o mandato de Mauricio Macri como presidente da república vizinha entre 2016 e 2019.

A apresentação da carreira política e futebolística desse milionário ‘puro sangue’ com freqüência é citada pela passagem vitoriosa como presidente do Boca Juniors entre 1995 e 2007. O que permitiu através do futebol entrar na política apresentando as credenciais de eficiência junto da popularidade para uma ascensão desde prefeito de Buenos Aires, governador da província e finalmente presidente da república.

Na eleição presidencial de 2015, seu partido, com o nome muito sugestivo de “Cambiemos”, venceu com a promessa de uma cartilha neoliberal oposto ao Kirchnerismo (2003-2015). Após um mandato de Nestor Kirchner, nos dois mandatos seguintes de sua esposa Cristina a estabilidade econômica permitiu experimentar invenções criativas e controversas no futebol para fortalecer a popularidade. Surgiram medidas com um nítido caráter estatista como o programa “Fútbol para Todos” quanto aos direitos de transmissão, o financiamento às barras da seleção nas Copas do Mundo de 2010 e 2014 através do programa “Hinchadas Unidas Argentinas” e, por fim, como principal legado institucional e estrutural, uma federalização do futebol nacional através da reforma de estádios por diversas províncias para uso na Copa América de 2011 e posterior uso na recém-criada Copa Argentina.

Mauricio Macri como presidente argentino em 2016. Foto: Wikipedia.

Macri foi eleito em um contexto próximo da morte de ‘don’ Julio Grondona após décadas no comando da AFA e a ascensão de novas celebridades querendo se apropriar da popularidade do futebol para uso político: como o apresentador de televisão Marcelo Tinelli (San Lorenzo) e o líder sindicalista ‘don’ Hugo Moyano (Independente). A principal mudança na organização da primeira divisão foi a troca de um modelo semestral em Apertura e Clausura [1] para outro bem menos criativo de uma Superliga anual, gerida como empresa autônoma em relação à AFA, com o sempre infame argumento de equiparar ao calendário europeu. Sobre o tema vale uma pequena nota descritiva de como o imaginário neoliberal macrista penetrou em tantos detalhes que ajudam a reconstituir o cenário de uma época, mais como sugestão de afinidade do que conspiração ou manipulação. Na virada da década de 2000 a 2010, por coincidência ou não o auge do Kirschnerismo, foi quando os títulos dos clubes médios e pequenos (como Estudiantes, Velez, Newell’s, Lanús, Banfield, Arsenal e Argentinos Jrs) mais foram frequentes ao desafiar clubes grandes. Bem como a publicidade da competição costumava se centrar na paixão incondicional do torcedor. Vide um emblemático programa de televisão somente sobre torcedores chamado “El Aguante”. Porém, a mudança de modelo de disputa, somada à conjuntura econômica recessiva, voltou a colocar grandes obstáculos esportivos e financeiros aos clubes pequenos. E a nova publicidade tende a se centrar em “a liga onde nascem as estrelas” (que brilharão no futebol europeu…).

Diante da comparação entre política e futebol, o fato do macrismo terminar com o programa “Fútbol para Todos” foi o correspondente de terminar com subsídios sociais (o que abandonou os mais pobres à miséria e à fome). Assim como incentivar a competitividade no futebol pela tentativa de mercantilização dos clubes em empresas de capital aberto. É a tentativa de reabilitar uma empreitada dos anos 90 que o próprio Macri admite foi seu maior fracasso político: exercendo um duplo papel de presidente do Boca e investidor, pretendia aprovar o modelo de clube empresa na AFA e forçar a quebra do Deportivo Español e sua mudança de Buenos Aires para Mar del Plata [2]. O tempo passou, o modelo empresarial nem na América do Sul nem sequer na Europa conseguiu provar sua transparência e viabilidade financeira que tanto prometia [3], mas Macri seguia pregando num deserto com sua obsessão.

Projeto que fracassou novamente tanto nas instâncias deliberativas parlamentares quanto clubísticas e federativas, pois não contava a grande participação de sócios nos mais diversos clubes profissionais e amadores para barrá-lo. Ao longo do mandato se tentou vários ‘pulos do gato’ para estrangular financeiramente os clubes e forçarem a aderir a sociedades anônimas, como medidas legislativas para o aumento de impostos e obrigação de reformas nos estádios instalando cadeiras. A crítica a esse tipo de intervenção empresarial à lógica esportiva é pertinente não só para quem se importa com o futebol, mas até mesmo com outros esportes amadores, pois correm sério risco de fecharem por simplesmente não gerarem lucro mesmo se desprezando toda sua importância no lazer em comunidades de bairros.

Mauricio Macri jogando futebol de praia com a camisa do Boca Juniors, clube onde foi presidente. Foto: Wikipedia.

Ao mencionar as tentativas de mudanças do macrismo para influenciar no futebol, não poderia deixar passar aquelas que afetam mais diretamente os torcedores na arquibancada. Se a proibição dos visitantes já tem sido hegemônica na segunda divisão desde 2007 e na primeira divisão desde 2013, o que evidentemente não gerou uma redução considerável nos conflitos, durante o macrismo não houve qualquer tentativa significativa nem dos organizadores do futebol nem das autoridades de revisá-la que não passasse de discursos. O que continua sugerindo que os vínculos entre política e futebol, a “guerra à criminalidade” se assemelha muito à “guerra aos barrasbravas” como os grandes fantoches para disfarçar a “guerra aos pobres” de sempre do neoliberalismo [4]. Pelo contrário, seguiu empoderando a entidade burocrática do Ministério do Interior conhecida como Aprevide (Agencia de Prevención de Violencia en Espectáculos Deportivos) através de seu chefe Juan Manuel Lugones. Figura personalista de que também foi buscando visibilidade para sua carreira política, como se fosse um xerife ao se autoproclamar em redes sociais um “rebelde contra a injustiça”, inclusive ao escrever um livro irônico ao governo anterior chamado “barras bravas para todos[5].

Desde 2016, fica a cargo de tal órgão na Grande Buenos Aires a medida administrativa de segurança conhecida por programa “Tribuna Segura”. Desde então emerge ao lado do xerife técnico Lugones, a xerife política Patricia Bullrich, ministra de Seguridade, diante das aspirações de expandir a medida para todo o país e até futuramente para o continente. O site oficial do governo apresenta como pretensão de orgulho as cifras atualizadas até maio: 1344 partidos cobertos, 2509 expulsões e 658 capturas. Através da leitura virtual de cédula de identidade no entorno dos estádios é possível rastrear torcedores com antecedentes criminais (inclusive atraso de pensão alimentícia) e proibidos de entrar nos estádios por uma norma conhecida como ‘derecho de admisión’.

Em 2016, o presidente argentino foi apelidado de “Macri Gato” em referência ao prisioneiro que recebe dinheiro do carcereiro em troca de informações. Foto: Wikipedia.

Outra grande medida de impacto direto nos torcedores pelo macrismo foi ao longo de 2018 o projeto de “Ley anti-barras”, cuja tramitação parlamentar foi acelerada nos últimos dias do ano passado diante do desespero para tentar dar uma resposta rápida para a sociedade diante do incidente no Superclásico da final da Libertadores que desmoralizou o governo [6] e cuja partida final foi transferida para Madri junto dos funcionários e dos equipamentos eletrônicos do “Tribuna Segura”. Assim, o governo entrou nos últimos 12 meses de mandato tentando centralizar a campanha por reeleição ainda mais na segurança enquanto endurecimento punitivo ao divulgar como promessas a aprovação da “Ley anti-barras” assim como a redução da maioridade penal e um novo código penal. O conteúdo do projeto de lei contou com altas penas não somente para delitos agressivos, mas também para aqueles que prejudiquem a comercialização do espetáculo através venda ilegal de entradas ou interromper a partida. Fica claro como todo o “empreendedorismo” punitivo confere tanto ou mais valor legal para a reprodução econômica quanto à integridade física das pessoas [7]. E, inclusive, ter a pretensão de poder individualizar a pena a quem inicie uma avalanche nos estádios!

Em termos de conclusão, vale mencionar que, mesmo diante da época de grande politização, a tese da manipulação do futebol nem sempre prevalece. Na semana final de outubro, no dia 22 o River Plate segurou a pressão na Bombonera e provocou mais uma eliminação ao rival no período rumo a mais um título de Libertadores. Enquanto no dia 27 Macri perdeu a eleição em primeiro turno para Alberto Fernandéz (torcedor do Argentinos Jrs.), que tem como vice Cristina Kirchner. Macrismo nunca mais!


 

Notas

[1] Vale uma pequena nota para recordar esse modelo de disputa tão peculiar que durou cerca de 25 anos na Argentina e inspirou diversos países do continente. Diante de tantas discussões sobre modelos de calendários, é pouco recordado no Brasil esse caso de pontos corridos como ‘torneo corto’ em cerca de 19 rodadas apenas (o que dificultava que algum clube disparasse logo e perdesse a graça) parecia também equilibrar com o estilo de mata-mata. Uma vez que em 2006 o titulo foi decidido em um jogo desempate e em 2008 em um triangular final por não se admitir igualdade de pontuação para a liderança. Enquanto desde então nos últimos anos havia 2 vagas de descenso direto e outras 2 numa agônica Promoción entre o 3º e 4º piores da Primera contra o 3º e 4º melhores do Ascenso

[2] http://revistauncanio.com.ar/noalassa/que-quiere-hacer-en-el-futbol/

[3] http://revistauncanio.com.ar/picado/el-fracaso-del-futbol-sa/

[4] Outro exemplo insólito foi tentar proibir os ‘choripans’ não regularizados no entorno dos estádios sob argumento de estrangular o financiamento das barras que controlam o negócio.

[5] https://infocielo.com/nota/90194/juan_manuel_lugones_iquest_rebelde_contra_la_injusticia_o_vendehumo_del_poder/

[6] Inclusive, pela grande ironia de ter alterado a data das partidas finais para adequar com uma segurança militarizada da capital federal durante a cúpula econômica do G20 que ocorreria naqueles dias finais de novembro.

[7] Para saber mais: https://www.telam.com.ar/notas/201812/315579-los-detalles-de-la-ley-anti-barras-que-tratara-diputados.html