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Mais uma chance para El Loco Bielsa

Roberto Jardim

Marcelo Bielsa é um daqueles profissionais que dignificam o jogo de bola. Por isso é admirado pelo Democracia Fútbol Club. Com frequência diz a seus comandados para jogarem pelos torcedores, principalmente por aqueles que têm nos seus times um dos únicos fatores de alegria e orgulho. Adepto do futebol bem jogado e defensor do hábito de levar o esporte além das quatro linhas, El Loco, como é conhecido, teve uma forte derrota ontem.

Contratado para tirar o Leeds United da segunda divisão inglesa, viu sua última chance de disputar uma vaga na Premier League na primeira temporada no comando dos Whites ir embora após a derrota por 4 a 2 para o Derby Country, há duas semanas. Agora, só no ano que vem. Apesar de afirmar que o resultado não significa necessariamente um divórcio, o jornal Telegraph apontava, logo após a partida, que a permanência do Leeds na segunda divisão poderia ser o fim da ideia de que os postulados desafiadores do técnico funcionariam.

Poderia ser o fim do experimento Bielsa nas terras da Rainha, mas não foi. Por sorte, os dirigentes dos Whites ativaram a cláusula de extensão do contrato para uma segunda temporada. Assim, El Loco ganha uma nova chance para conseguir a classificação para a Premier League.

Aos admiradores do técnico, que por ser meio louco tem muitos que o amam e outros tantos que antipatizam com sua figura e suas ideias, resta torcer para que a oportunidade seja vitoriosa. Todos sabem, porém, que uma nova queda seria apenas mais um capítulo do Manual do Perdedor Perfeito.

Bielsa durante coletiva. Foto: AlejandroVN.

Na verdade, um livro que não existe. Mas bem que poderia. Tal título surgiu numa conversa sobre El Loco que tiveram os jornalistas argentinos Hugo Asch e Eduardo Feinman. Asch conta que seu colega lembrava de frases extraídas de uma palestra de Bielsa a alunos do Colégio Sagrado Coração, de Rosario, sua cidade natal.

El Loco disse mais ou menos assim:

Os momentos da minha vida em que cresci têm a ver com fracassos. Os momentos da minha vida em que tenho piorado têm a ver com o sucesso. O sucesso deforma. Ele relaxa, engana, nos torna piores, nos ajuda a nos apaixonar demais por nós mesmos. O fracasso é o oposto: é formativo, nos torna mais sólidos, nos aproxima das convicções, nos torna coerentes. Enquanto competir para ganhar, e eu sempre trabalho para vencer, se eu não distinguir o que é realmente formativo e o que é secundário, eu estaria muito errado.

A fala de Bielsa lembra um trecho de Worstward Ho, de Samuel Beckett:

Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.

Dá para trazer a lição para a luta pela liberdade e pela democracia: se falharmos, tentemos outra vez. Se voltarmos a falhar, que seja de uma forma melhor.