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Mais um rei pendura suas chuteiras

A Copa do Mundo de Futsal de 2012, disputada na Tailândia, seria a última do maior astro do futsal brasileiro. Atual campeão do torneio, o Brasil chegava favorito e Falcão como a grande estrela do mundial. Mas logo na estreia, diante do Japão, um susto! Aos 3 minutos de jogo o camisa 12 sentiu uma lesão na panturrilha, fato que mudaria de vez o seu destino e da Seleção Brasileira naquela Copa do Mundo. Sem poder entrar em quadra, praticamente cortado da competição, o ala iniciou um trabalho intensivo de recuperação física. Mas com poucas distrações no exótico país asiático, Falcão sentiu um alto grau de estresse e pressão, lhe causando uma paralisia facial.

De fora do restante da primeira fase do mundial, o jogador só voltou à quadra na fase de mata-mata, mas figurando no banco de reservas e atuando poucos minutos em cada jogo. Mas mesmo com a paralisia facial e a visão de um de seus olhos comprometida, o ala foi fundamental na caminhada brasileira. Já nas oitavas, diante do Panamá, Falcão marcou o seu primeiro gol no torneio e atingiu a marca histórica de 337 tentos com a camisa do Brasil, tonando-se o maior artilheiro por seleções em esportes ligados ao futebol no mundo.

Falcão e seu camisa 12. Foto: Luiz Filipe Carneiro Machado.

Mas sua grande atuação estava reservada para a fase seguinte, nas quartas de final contra o grande rival sul-americano, a Argentina. Em um duro jogo, os Hermanos abriram 2 x 0 no placar e começaram a colocar uma pedra sobre o sonho do bicampeonato mundial do Brasil. Porém, Falcão mostrou por que é o “Rei” do futsal! Entrou em quadra no segundo tempo e como um maestro regeu a orquestra brasileira.

Com gols de Neto e do próprio Falcão, o empate brasileiro levou a decisão da vaga na semifinal para a prorrogação. No tempo extra, após cobrança de escanteio, o camisa 12 pegou um forte chute de perna esquerda para vencer o goleiro argentino, decretando a vitória e a classificação brasileira. A imagem é emblemática, após a bola bater na rede, Falcão desaba de joelhos na quadra e cai no choro, o camisa 12 sabia que tinha feito o impossível. Naquele momento, ele já era o maior jogador da história do Futsal, mas o lance configurou o ápice de sua carreira, o instante em que transcendeu, se superou e contou um dos capítulos mais improváveis de sua vitoriosa caminhada.

Alessandro Rosa Vieira nasceu no dia 8 de junho de 1977 na zona norte de São Paulo. Seu pai, João Eli Vieira era açougueiro, mas também ganhou fama como atleta de várzea na capital paulista. Como era parecido fisicamente com o ex-volante do Internacional, ganhou o apelido de Falcão. Alessandro, que acompanhava o pai em todas as pelejas, logo se transformou em Falcãozinho.

Falcão no Atlético-MG no inicio de carreira ao lado do já consagrado Manoel Tobias.

Aos 12 anos, já era superior aos garotos de sua idade e recebeu um convite para atuar no Futsal do AACC Guapira, clube da zona norte de São Paulo. Dois anos depois já integrava a equipe profissional do Corinthians e aí sua carreira deslanchou. Rodou o Brasil com passagens por Atlético-MG, Jaraguá, Banespa, G.M./Chevrolet, Rio de Janeiro/Miécimo, São Paulo F.C./Osasco, ADC Intelli/Orlândia, Santos, Futsal Brasil Kirin/Sorocaba e Magnus Futsal, equipe onde ocorreu sua última partida como profissional, em dezembro de 2018. Foram 25 anos como profissional e marcas assombrosas. De acordo com o próprio Falcão, são mais de 3000 gols marcados, 401 com a camisa da seleção brasileira, o que o coloca como o maior artilheiro do Brasil em todas as modalidades que jogam com a bola nos pés (futsal, futebol, futebol de areia e showbol). Além disso, são mais de 100 títulos, com a seleção os mais importantes foram duas Copas do Mundo (2008 e 2012), três Copas América (1998, 1999 e 2008) e a medalha de ouro no Pan-Americano de 2007.

A história de Falcão com a camisa verde e amarela começou em 1998, quando recebeu sua primeira convocação. Dois anos depois disputou o seu primeiro mundial e foi vice-campeão, derrotado na decisão para a Espanha. Em 2004, o Brasil voltou a amargar um revés, ao ficar em 3° no mundial da China. Somente em 2008 é que Falcão e companhia levantaram a taça, quebrando o jejum brasileiro, que não vencia o mundial desde 1996. A seleção ainda repetiu a dose em 2012, ao bater a Espanha mais uma vez na final e com gol do camisa 12 na decisão. A última Copa do Mundo de Falcão foi em 2016, torneio em que o Brasil foi eliminado pelo Irã, ainda nas oitavas de final, sendo a pior campanha brasileira na história do Mundial de Futsal da FIFA.

Já por clubes, Falcão conquistou dois mundiais, sete Libertadores, nove Ligas Futsal (sendo 5 de forma consecutiva) além de várias outras taças estaduais, nacionais e sul-americanas. Prêmios individuais o jogador também tem aos montes, 4 vezes foi eleito pela FIFA como o melhor jogador de Futsal do mundo (ninguém venceu mais vezes) e em 2017 foi homenageado pela entidade e recebeu o prêmio “The Best”, ou seja, a FIFA reconheceu Falcão como o maior jogador da história na modalidade.

Falcão também chegou a se arriscar no futebol de campo. No começo do século, teve passagens rápidas por Palmeiras e Portuguesa, mas não chegou a entrar em campo de forma oficial. Já em 2005, ocorreu sua grande oportunidade nos gramados. O camisa 12 havia acabado de ser eleito o melhor do mundo no futsal e foi contratado pelo São Paulo, que na época estava recheado de craques que logo seriam campeões da Libertadores e do Mundial de Clubes. Falcão vestiu a camisa tricolor por cerca de 6 meses, mas mesmo com boas atuações, respaldo do elenco e da torcida, os atritos com o técnico Emerson Leão reduziram o tempo do jogador em campo, que resolveu voltar para as quadras.

Como todo gênio, Falcão também teve seus momentos de baixa e polêmicas ao longo da carreira. Em 2011, quando atuava pelo Santos, o craque se envolveu em uma confusão com jogadores do Cascavel e o ala acabou dando um soco no queijo de um atleta adversário. Já em 2013, Falcão foi acusado de agressão por um árbitro, o que causou a expulsão do jogador, fato que foi negado pelo camisa 12. Mas sua grande marca negativa ocorreu na temporada 2015, na semifinal da Liga Nacional daquele ano. Sorocaba e Carlos Barbosa disputavam uma vaga para a decisão do torneio no ginásio da equipe gaúcha e após ser provocado por torcedores adversários, o camisa 12 cuspiu em direção à torcida que estava atrás do gol de sua equipe. A atitude do jogador causou a ira dos gaúchos que atiraram objetos na quadra e a partida chegou a ser paralisada. Para completar, o Sorocaba acabou eliminado e Falcão ficou de fora de uma final de LNF após 10 anos.

O astro Falcão no Grand Prix de Futsal de 2014. Foto: Gaspar Nobrega/Inovafoto.

Poucos esportes possuem um atleta que é disparado o melhor da modalidade. No futebol, Pelé é inatingível para alguns, mas há quem o compare com Maradona, Cruyf ou até Messi. No Basquete, há Michael Jordan, mas que hoje tem LeBron James em seu encalço; nem mesmo a imbatível Serena Willians ultrapassou o recorde de Margaret Court como a maior vencedora de Grand Slams… e, no futsal, alguém pode ser comparado à Falcão? Ninguém se aproxima de seus números de gols, títulos e premiações individuais, ninguém fez o que Falcão fez em quadra e dificilmente haverá outra atleta tão grande como o camisa 12 no esporte da bola pesada.

Agora Falcão se aposenta como alguém que moldou o futsal brasileiro, que elevou o esporte a outro patamar. Além de tudo o que fez dentro de quadra, o camisa 12 também ajudou o futsal fora das quatro linhas. Se hoje existe uma Liga Nacional que é transmitida na televisão e lota ginásios pelo Brasil, muito se deve à popularidade que Falcão trouxe para o futsal nos últimos 20 anos. Em 2014, liderou um movimente de boicote contra a então atual gestão da CBFS (Confederação Brasileira de Futsal), que levou a entidade a uma grave crise financeira, além de sempre brigar por melhores condições para os atletas da modalidade.

Agora o futsal fica órfão de um “Rei” e irá precisar se reinventar para seguir sem o seu maior astro. Para Falcão não vão faltar convites, o agora ex-jogador irá se dedicar a sua marca, seu canal no YouTube e aos jogos festivos por todo o mundo, onde ainda poderemos ver um pouco da mágica do camisa 12. Para quem pôde apreciar sua arte em quadra, agora é o momento em que podemos agradecer e bater palmas a quem fez tanto pelo esporte e nos proporcionou momentos fantásticos nas últimas duas décadas. Por isso, só temos a dizer: obrigado, Falcão!