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Mais uma partida de futebol: o que aconteceu na final do Mineiro?

Vanessa Coutinho

O Campeonato Mineiro Feminino de 2018 teve início em setembro, contando com oito times: Nacional FC, Real Esporte Clube, Viçosa, EC MHM, Manchester FC, Betis FC, Ipatinga FC e América MG. Estes dois últimos tiveram impressionantes campanhas, com 86% de aproveitamento/39 gols marcados e 100% de aproveitamento/52 gols marcados, respectivamente, seguindo para a final.

A partida de ida ocorreu no dia 24/11, no Ipatingão, terminando 3×3. Já a decisão ocorreu no dia 02/12, às 11h, no Estádio das Alterosas, em Belo Horizonte. A partida, como se esperava, foi pegada, com quatro cartões amarelos para o América mais a expulsão do técnico do time. Os dois finalistas tiveram grandes chances durante toda a partida, com destaque para o segundo tempo realizado pelo América, que conseguiu chegar a área do Ipatinga com perigo diversas vezes. Entretanto, a disputa não saiu do 0x0 no tempo normal, partindo para as penalidades, as quais as Coelhinhas venceram as Tigresas do Aço por 8×7, com destaque para a goleira Camila Menezes, que defendeu duas cobranças. A volante Karol Dias foi a responsável pela cobrança final, convertendo a penalidade que deu o tricampeonato ao América.

Foto: Mourão Panda/América.

 

Esperava-se que a partida ocorresse no Independência, como proposto pela campanha nas redes sociais #coelhinhasnoindepa, mas a partida foi levada para o SESC, campo onde a seleção brasileira masculina treinou durante a Copa do Mundo de 2014. Como dito por uma das torcedoras do América presente:

(…) Aqui no SESC tá bacana porque o campo é grande, bem maior que o Baleião em que as meninas tão acostumadas a jogar, porém o que dificultou um pouco foi a distância, sendo no Independência eu acho que a torcida seria maior ainda e isso daria mais visibilidade, porque a galera ia ver que tão apoiando o futebol feminino e poderia melhorar bastante.

Sem um posicionamento oficial, fica o questionamento para a diretoria do clube em relação à não disponibilização do estádio para o jogo, uma vez que não acontecia nenhum conflito de agenda com o espaço e o horário da partida propiciava uma redução de custo.

Foto: acervo pessoal.

 

Esse ‘escanteamento’ da partida reflete um processo de mercantilização do futebol que, de certa forma, favorece um cruel ciclo – que precisa ser interrompido – de falta de investimento, falta de mídia, falta de público e de retorno financeiro, e assim por diante. A diretoria do América, acatando a campanha #coelhinhasnoindepa, apoiada até pela comissão técnica e pelas jogadoras, daria um passo favorável à quebra desse ciclo, já que, como dito pela própria torcedora, um estádio conhecido e melhor localizado traria consigo maior público e divulgação, assim como favoreceria uma cobertura maior da mídia, que, infelizmente não fugindo do comum, ficou apagada durante todo o campeonato.

Assim, por parte da mídia não especializada, observa-se um discurso bem representativo do espaço reservado para dar voz ao futebol feminino, embora haja contraposições que se completem. Se por um lado, o repórter de uma grande emissora de televisão relata que as decisões editorais – e isso não é de desconhecimento de ninguém – privilegiam aquilo que ‘dá mais audiência, mais retorno, que vai atrair anunciantes’, algo que o futebol feminino ainda não consegue em comparativo com os grandes clubes brasileiros, restando apenas espaço para essas minorias em intertemporadas – entretanto o foco maior ainda é nos envolvidos com o esporte praticado por homens. Por outro, a jornalista responsável pela cobertura da partida na rádio traz uma opinião mais justa quanto à relação da mídia com os demais esportes para além do futebol masculino, dizendo que:

A gente projeta que cada vez mais a mídia interaja com o futebol feminino, porque é uma obrigação nossa, quanto jornalistas esportivos, pensar o esporte pra muito além do que tá nos holofotes, […] tem que dar a voz cada vez mais a esportistas que talvez não tenham tanto espaço, é uma forma mais igualitária de se cobrir o esporte.

Ainda que com esses descasos, vale o aplauso à torcida presente, em especial à diretoria e torcida Raça Jovem do Ipatinga (que se organizaram em caravanas para a vinda a Belo Horizonte), que fez do possível para tornar a partida um verdadeiro espetáculo, com cânticos provocativos e de ‘ê vamo vencer time!’ e batuques, engrandecendo o sentimento daqueles presentes. A torcida do América não ficou para trás na festa, a Avacoelhada, a torcida ‘desorganizada’ – como se autointitulam – do time, também levou seus tambores e respondeu por igual ao barulho feito pela Raça Jovem. É interessante ressaltar o grande número de mulheres e crianças na torcida, fugindo do padrão comumente observado em partidas masculinas.

Durante os pênaltis, o silêncio era raramente sobreposto por vaias ou gritos de ‘vai perder’ a cada chute. Enquanto a Avacoelhada preferiu manter-se ao lado do campo, a Raça Jovem se aglomerou atrás do gol onde as cobranças foram realizadas. Com a cobrança de Karol Dias, a torcida americana explodiu, dirigindo-se para as grades que, por mera formalidade, separavam a festa das jogadoras e da torcida. Ainda que com o vice-campeonato, a Raça Jovem não deixou de reconhecer e festejar a grande campanha de seu time, usando sinalizadores para deixar o céu belorizontino às cores do time do coração.

Avacoelhada (a esquerda) e Raça Jovem (a direita). Fotos: acervo pessoal.

 

Vivido tudo isso, essa mais uma partida de futebol é uma breve metonímia do futebol feminino, salve as exceções e sem abordar toda sua complexidade, suas barreiras e desafios a serem vencidos. Fica o apelo à quebra desse círculo vicioso que o circunda, por parte da mídia, que busquem contar essas histórias; por parte das emissoras de TV, que deem cada vez mais espaço para a transmissão de partidas e campeonatos[1]; por parte da academia, que continue crescendo com estudos sobre o assunto; e a nossa parte, como torcedores, que cada vez mais valorizemos o esporte, respeitando as atletas, indo às partidas, comprando produtos, reivindicando direitos e igualdades.


[1] Um salve à Rede Globo de televisão que, pela primeira vez, transmitirá em seu canal aberto as partidas da Seleção Brasileira na próxima Copa do Mundo, em 2019, sendo realizada na França <https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/pela-1a-vez-na-historia-globo-transmitira-selecao-feminina-na-copa/>.