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Cronologia das torcidas organizadas (VI): Mancha Verde – Sociedade Esportiva Palmeiras (parte I)

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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Mancha Verde. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

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Desde os anos de 1940, a Sociedade Esportiva Palmeiras tem adeptos que se reúnem nas arquibancadas para apoiar as partidas de futebol profissional de seu clube. Até a década de 1960, o apoio era “oficial”, uma vez que a banda musical de incentivo ao time tinha aval da direção e recrutava membros associados ao clube. Em 1970, com o surgimento da Torcida Uniformizada do Palmeiras (TUP), as associações de torcedores organizados deixam de ter a chancela direta e exclusiva dos dirigentes do clube. Não obstante, conforme também ocorria em outros times, muitos eram sócios e tinham algum grau de ligação clubística.

Ao longo do decênio de 1970 e durante o início dos anos 1980, diversas pequenas organizações de torcedores palmeirenses surgiram no cenário das arquibancadas. Mas uma delas viria a ter maior destaque e suplantaria, com o tempo, a principal torcida, a TUP, em termos de números de integrantes e de vínculos identitários. No ano de 1983, mais precisamente a 11 de janeiro, foi fundada a torcida organizada Mancha Verde, o maior agrupamento de torcedores do Palmeiras na atualidade, fruto da fusão de três microgrupos: a Império Verde, a Inferno Verde e o Grêmio Alviverde.

O nome é inspirado no personagem “Mancha Negra”, o vilão das revistas quadrinhos da Disney. A torcida surge no cenário futebolístico com um discurso nativo de “impor o respeito” dos palmeirenses nas arquibancadas. Seus idealizadores justificam-na como uma espécie de “mal necessário”. Segundo tal discurso, era hora de a torcida deixar de ser “escorraçada” e de apanhar nas brigas com os torcedores de clubes adversários. Ainda que já presente nos anos 1970, a década de 1980, juntamente com o crescimento da Mancha Verde, assistiria a um incremento no número, na motivação e na premeditação de enfrentamentos inter-torcidas no Brasil, fenômeno que angaria maior visibilidade nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A escalada das rixas não passou despercebida ao jornalista Juca Kfouri, que em 30 de agosto de 1985, em sua coluna semanal da Revista Placar, periódico da Abril Cultural, de que fora editor, escreve um texto intitulado “É hora de desorganizar as torcidas. E já”. No texto, o autor informa que Carlos Facchina, então dirigente do Palmeiras, anunciava a decisão de não mais ajudar nenhuma torcida organizada do clube.

Depois de disseminar sua “fama” de briguenta nos jogos do estado de São Paulo, seja na capital seja no interior, a Mancha Verde começa a difundir seu nome em outras cidades. Em 1987, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro de futebol, a Copa União, uma briga de grandes proporções ocorre nas dependências do Maracanã. Torcedores do Palmeiras e do Flamengo, junto aos respectivos aliados de Vasco da Gama e Corinthians[1], enfrentam-se nas arquibancadas durante boa parte do segundo tempo da partida, demandando violenta e enérgica intervenção policial. Segundo a edição do mês de novembro da revista Placar daquele ano, a doutora Leonor Pinto, médica que trabalhava no estádio, contou para o periódico que foi a briga mais séria que ela já havia presenciado nos seis anos em que atuava no estádio.

Cinco anos depois de sua fundação, em 17 de outubro de 1988, o líder Cléo Sostenes Dantas da Silva, então com 24 anos, foi morto a tiros em frente à antiga sede da torcida, localizada na Rua Padre Antônio Tomás, no bairro da Água Branca. O incidente aconteceu pouco depois de o torcedor chegar de uma caravana da torcida ao Rio Grande do Sul, onde o alviverde enfrentara o Grêmio porto-alegrense. Tudo leva a crer na premeditação do assassinato por rivais, mas o Inquérito Policial instaurado foi arquivado e o caso nunca foi elucidado pela polícia civil.

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Mosaico em homenagearam Cléo Sóstenes (ex-presidente da Mancha). Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Sob ambiente tenso, na esteira do episódio, a primeira partida do Palmeiras após o assassinato de Cléo aconteceu contra o Cruzeiro, também pelo Campeonato Brasileiro, no estádio Parque Antártica. Na ocasião, o ex-presidente da torcida foi homenageado com um minuto de silêncio antes do início do jogo. Em seguida, já com a bola em jogo, uma grande queima de fogos foi promovida pela Mancha Verde. Entrementes, no setor visitante, a torcida do Cruzeiro rompe as homenagens, ironiza sob a forma de cânticos o nome de Cléo e hostiliza o palmeirense morto. Uma massa de “manchistas” corre para a linha divisória que os separava dos torcedores mineiros. Xingamentos, dedos em riste e confrontos entre palmeirenses e cruzeirenses se deflagram dentro do estádio.

Em partidas seguintes, as provocações continuariam por parte de torcedores adversários, uma mostra da “fama nacional” angariada pela Mancha Verde. Em partida contra o Flamengo, torcidas organizadas do clube rubro-negro também lembram do ocorrido. Um grupo da Torcida Jovem tripudia da morte do palmeirense e acende velas fúnebres, em jogo na quarta-feira à noite, no Maracanã, aos cantos de: “O Cléo morreu/a Mancha se fudeu!”.

Durante a década de 1990, a animosidade entre as torcidas se intensifica. Foi entre os anos de 1992 e 1994 que, segundo o sociólogo Carlos Máximo Pimenta, “ocorreu a maior parte dos envolvimentos, noticiados, entre torcidas organizadas”. Os confrontos resultaram na morte de 12 pessoas, sendo quatro delas em 1992 e oito em 1994. Nesse período, as brigas grupais passaram a ser constantes e os instrumentos utilizados para defesa e/ou ataque tinham o poder de ocasionar lesões de natureza grave. Os torcedores começam a fazer uso mais frequente de bombas e de armas de fogo, instrumentos menos utilizados nos embates entre torcidas. Até então, estas se contentavam em atear fogo nas camisas e nas bandeiras adversárias ou em atirar pedras nos ônibus quem vinham em caravanas e nos setores de visitantes em que se encontravam os rivais.

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Torcida Mancha Verde em ação. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Com efeito, o crescimento do quadro associativo das torcidas nesse período é exponencial. Ainda segundo o sociólogo Pimenta:

“Em 1991, a Mancha Verde tinha 4.000 filiados, a Independente, 7 mil e os Gaviões da Fiel, 12 mil. Até outubro de 1995, período em que passaram a ocorrer, por parte da Justiça Pública paulistana, cerceamentos às atividades desenvolvidas pelas Organizadas, estas associações tinham em seus quadros o registro de 18.000, 28.000 e 46.000 filiados, respectivamente.”.

Em 6 de agosto de 1995, ocorre um confronto entre palmeirenses e corintianos nas arquibancadas do estádio Santa Cruz, na cidade de Ribeirão Preto, durante a final do Campeonato Paulista, vencido pelos alvinegros por 2 a 1. Duas semanas depois, na final da Supercopa de futebol Junior, realizada no Pacaembu, em 20 de agosto de 1995, dá-se um dos incidentes mais notórios de brigas entre torcidas organizadas no Brasil. Filmada e sob o crivo das câmaras de televisão, chamar-se-ia “a Batalha Campal” do Pacamebu. Naquela manhã de domingo, as torcidas de São Paulo e Palmeiras invadem o campo e digladiam com paus e pedras, colhidos nos entulhos de um canteiro de obras do setor Tobogã. O resultado é de mais de 100 pessoas feridas e de um jovem morto, por traumatismo craniano.

Após esse episódio, o Grêmio Recreativo Esportivo Cultural Mancha Verde foi judicialmente extinto e proibido de entrar nos estádios pela Federação Paulista de Futebol e pelo Ministério Público. Pouco depois, no entanto, ainda no final daquele ano, em 18 de outubro de 1995, é fundado o Grêmio Recreativo Cultural Bloco Carnavalesco Mancha Verde.

Em 1997, num artifício jurídico utilizado para driblar a extinção e continuar a sua existência, é criada a torcida Mancha Alviverde, com sede, estatuto e diretores próprios, separados das atividades carnavalescas. Três anos depois, em 2000, o Grêmio Recreativo Cultural Bloco Carnavalesco Mancha Verde cresce e se transforma no Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mancha Verde. Em apenas quatro anos, a escola de samba alcança o grupo especial do carnaval paulistano.

[1] A aliança entre torcidas organizadas do Flamengo e do Corinthians durou cerca de dez anos, entre 1978 e 1988. As amizades eram mais acentuadas entre Torcida Jovem do Flamengo e Gaviões da Fiel, de um lado, e entre Raça Rubro-Negra e Camisa 12, de outro.