133.1

O Maracanã e o lirismo de Armando Nogueira

Elcio Loureiro Cornelsen

Pois o segredo da vida é justamente este: é a grandeza da alma.

A alma que é a morada eterna do ideal. A morada do sonho.

(Armando Nogueira)[1]

 

No panteão da crônica esportiva brasileira, sem dúvida, brilha a estrela de Armando Nogueira. Original de Xapuri, no Acre, o jornalista radicou-se ainda bem jovem no Rio de Janeiro, onde atuou por décadas em diversos veículos de comunicação, entre outros, o Diário Carioca, o Diário da Noite, a revista Manchete, a revista O Cruzeiro, o Jornal do Brasil, a TV Rio e, principalmente, a Rede Globo de Televisão, onde ingressou em 1966 e atuou até 1990, tendo sido um dos responsáveis pela criação do Jornal Nacional e do Globo Repórter. A partir de 1990, Armando Nogueira passou a se dedicar, exclusivamente, ao jornalismo esportivo, atuando em canais, como a TV Cultura, a TV Bandeirantes e o SporTV (Globosat), e nas rádios Bandeirantes e CBN.

Dono de um estilo de escrita elegante e, ao mesmo tempo, lírico, Armando Nogueira nos legou verdadeiras jóias sobre o futebol brasileiro e o esporte em geral. Basta elencarmos alguns títulos de livros para termos uma breve dimensão de sua contribuição para as Letras e os Esportes: Na grande área (1966), Bola na rede (1973), O homem e a bola (1986), Bola de cristal (1987), O canto dos meus amores (1998), A chama que não se apaga (2000), A ginga e o jogo (2003), entre outros.

Como bem aponta Andréia Cristina de Barros Costa, “[a]s crônicas [de Armando Nogueira] são providas de vários elementos estruturais literários, como metáforas, jogo de antônimos, música, sonoridade e aliteração. Utilizava o emprego da palavra adequada em uma colocação esteticamente clara nas frases”.[2] O jornalista seria detentor de “uma prosa lírica, com graça, enxuta e precisa”.[3] E para Ivan Cavalcanti Proença, a literariedade das crônicas de Armando Nogueira resultariam da “procura obsessiva dos tempos perdidos, ou melhor, a catarse pela (através da) bola”.[4] Reconhecendo a verve literária de Armando Nogueira, o escritor Carlos Heitor Cony, no prefácio da obra O canto dos meus amores (1998), assim o situa no panteão da crônica esportiva brasileira:

Armando Nogueira forma, ao lado de Mário Filho e Nelson Rodrigues, a Santíssima Trindade da nossa literatura esportiva. Mário é o pai, até certo ponto o fundador. Nelson é o filho, que se imolou por nós. Armando seria o próprio Espírito Santo, o mais vasto, o mais completo, o inspirador, a pomba branca que paira acima de todas as coisas, […][5]

Imagem aérea do antigo Estádio do Maracanã. Foto: Reprodução.

Em sua longa trajetória como cronista e jornalista esportivo, por vezes, Armando Nogueira se dedicou a decantar o Maracanã como o “templo do futebol” brasileiro e mundial. Mas nem só de lembranças agradáveis se constituem suas narrativas sobre o gigante de concreto que está completando 70 anos. E foi, justamente, nos primeiros meses de vida do coliseu que Armando Nogueira, aos 23 anos de idade, descreve a atmosfera dentro do então designado Estádio Municipal, pouco antes do início do jogo reunindo as seleções de Brasil e Uruguai, última partida do quadrangular final da Copa de 1950:

O Maracanã está superlotado. Estima-se que aqui estão, embandeiradas, 200 mil pessoas. “Dez por cento da população” – anuncia, com fervor, o alto-falante. O Distrito Federal tem 2 milhões e 303 mil habitantes. Depois da informação, música, maestro: a banda dos Fuzileiros Navais enfeita o gramado, desfilando e tocando um dobrado daqueles que levam à guerra o mais reles dos patriotas. Até eu que, não estou nada cívico – até eu estremeço de fervor cívico.[6]

Essas linhas foram extraídas da obra A copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar (1994), que reúne, entre outros, relatos memorialísticos de Armando Nogueira, Jô Soares e, respectivamente, Roberto Muylaert acerca de suas vivências enquanto torcedores que presenciaram a fatídica derrota da Seleção Brasileira para a Celeste Olímpica, que entraria para os anais da História do Futebol Brasileiro e Mundial como Maracanazo. Como podemos constatar, há uma presentificação da cena narrada por aquele que surge como uma testemunha ocular daquela partida e da ambientação do estádio lotado, lá está o sujeito da enunciação, como que simulando sua própria visão, como se desconhecesse o desfecho trágico do jogo.

Enquanto construção discursiva, o texto oferece ao leitor uma narrativa rica em termos de recursos. As proporções da festa são anunciadas, e o sujeito da enunciação procura transmitir a sensação visual e sonora do que se passa dentro do estádio, com serviço de som e banda marcial tocando. Na visão de Armando Nogueira, não obstante a festa, os políticos são vaiados ao chegarem ao estádio:

Chegam as autoridades. O nome do prefeito Mendes de Morais é recebido com uma vaia colossal. O homem fez o estádio. Ainda assim, leva pau do público. A arquibancada do futebol é o divã da catarse nacional. É aqui que o povo se vinga dos políticos. Deve ter nascido, hoje, na cabeça de Nelson Rodrigues a célebre sentença que o consagraria como o maior frasista do futebol. “O Maracanã vaia até minuto de silêncio…”.[7]

Notamos que a presentificação das cenas tem prosseguimento na narrativa. Porém, abre-se o espaço também para digressões em relação ao futuro conhecido pelo sujeito da enunciação, posterior ao jogo: o sentido da frase de Nelson Rodrigues, que se consagraria nas décadas seguintes como o maior cronista esportivo brasileiro, é acompanhado também por uma digressão do sujeito da enunciação ao entender o espaço da arquibancada para além do próprio torcer.

Todavia, em sua narrativa, Armando Nogueira se apresenta como um torcedor fanático do Botafogo que, ao ouvir a execução do hino nacional, deixa de pensar em torcer contra a seleção devido à ausência de jogadores do clube da estrela solitária: “A banda toca o Hino Nacional. Me arrepio da cabeça aos pés. Confesso que aprendi o Hino Nacional bem antes de ter aprendido o hino do Botafogo. É o que basta pra ferventar em mim o sangue da pátria amada. Me rendo, de corpo e alma, à nobre causa da seleção brasileira”.[8] Neste ponto do texto, pela primeira vez, há uma espécie de flash forward, num momento de digressão de quem reconhece já saber o desfecho trágico do jogo: “Foi melhor assim. Se eu tivesse torcido pelo Uruguai, talvez amargasse um remorso eterno. Pois se o Obdulio Varela, que era o capitão da seleção uruguaia, acabou tendo um sentimento de culpa porque derrotou o Brasil…”[9]

Em termos de distensão temporal, há uma verdadeira lacuna na narrativa: o sujeito da enunciação, simplesmente, não narra detalhes sobre o primeiro tempo, nem sobre o intervalo, o primeiro lance apresentado por Armando Nogueira é o gol brasileiro, assinalado por Friaça no início do segundo tempo: “O primeiro gol brasileiro nos leva à alucinação. Embora o empate dê o título ao Brasil, o que a gente quer mesmo é que o Brasil repita contra o Uruguai o que fez contra a Suécia e contra a Espanha. Banho de bola, com direito a olé”.[10] Nessa passagem do texto, o “eu” se converte, pois, em um sujeito coletivo “a gente”, remetendo aos torcedores como uma coletividade unida pela paixão e a vontade de ver o Brasil campeão mundial de futebol. Poucos parágrafos depois, Armando Nogueira anuncia, lacônico, a virada uruguaia:

Dois lances que não estavam no programa: dois gols do Uruguai, um de Schiaffino, uma beleza; e outro de Gigghia (sic), uma desgraça. Esse caiu como uma maldição. Seria a pá de cal na chamada soberba nacional, porque o Brasil já vinha campeão há pelo menos 72 horas, e comemorando o título, há pelo menos 24 horas.[11]

Nota-se a elaboração temporal da narrativa, com o momento presente dos gols, o conhecimento prévio do clima de vitória antecipada, e também o significado do segundo gol como a “pá de cal”. Não tarda, e vem a sentença: “Pela primeira vez, que eu visse, os deuses do futebol decidiram castigar a soberba de uma nação. E daí a cena pungente da multidão absolutamente aparvalhada, no estádio silencioso”.[12] Com certo lirismo, assim descreve Armando Nogueira a desolação dos torcedores ao saírem do estádio:

Atrás das pessoas saindo do estádio, um rastro de desolação. Até hoje, uma imagem não me sai da lembrança: escurecia e o povo ia tocando fogo nos jornais velhos. Nascia, em minutos, uma colossal fogueira pelos degraus da arquibancada. E aquele fogo, primeiro infernal, depois atroz, foi murchando, murchando até que virou cinza. Daí a pouco, um pé-de-vento começou a levar pelos ares aquela cinza toda. Cinzas de um sonho que se consumiu na chama do nosso próprio orgulho. Cinzas de uma esperança morta.[13]

Pela primeira vez em seu relato, Armando Nogueira, distingue um “hoje” da vivência, enquanto estratégia discursiva de presentificação da cena passada, de um “hoje” na atualidade da rememoração, quatro décadas mais tarde. Está implícito também que os supostos “jornais velhos” eram aqueles que, antecipadamente, vinham anunciando a vitória brasileira frente ao Uruguai desde a vitória categórica contra a Seleção Espanhola.

Em seguida, tem sequência a descrição da saída da torcida brasileira do estádio. Logo surge a metáfora da “tragédia”, da “catástrofe”, como um “velório”: “Imagino o que está acontecendo pelo Brasil afora. O país inteiro só pode estar mortificado. É uma catástrofe. Em menos de uma hora, o estádio parece um imenso cemitério”.[14] E a metáfora da derrota como um “velório” prossegue: “O povo descendo a rampa, em silêncio, parecia um cortejo fúnebre. Parecia não – era mesmo. Tínhamos acabado de enterrar a soberba nacional. Perdemos um título ganho, de boca, na véspera”.[15]

O jogo com o tempo prossegue na narrativa, e Armando Nogueira refaz a visão equivocada que a imprensa brasileira tinha da equipe uruguaia às vésperas da partida: “Anos depois, com uma visão mais serena, acabei chegando à conclusão de que a equipe uruguaia não era a sopa que sugeria a crônica esportiva brasileira, nas vésperas da decisão”.[16] Como bem ressalta Rosângela de Sena Almeida, esse momento trágico se tornaria parte integrante da memória inaugural do estádio:

Sua monumentalidade original, sua grandiosidade impar para época em que foi construído, seguidas da notoriedade advinda de um acontecimento traumático inaugural são os primeiros traços de seu legado e são os sinais prematuros do lugar social e do lugar de memória que ele se revelaria ao abrigar o mundo do futebol brasileiro e todo o imaginário que dele emana.[17]

Andaimes seguravam a cobertura do Maracanã, em 1950. Foto: Divugação/Suderj.

Todavia, duas décadas mais tarde, ao homenagear o Maracanã nos seus 20 anos de existência, Armando Nogueira escreveu uma das mais belas crônicas sobre o estádio, intitulada “Menino-que-chega”. Originalmente publicada em 20 de junho de 1970, essa crônica integra a coletânea O homem e a bola (1986) e foi publicada também nos livros Futebol e palavra (1981), de Ivan Cavalcanti Proença, e na antologia de crônicas O mundo é uma bola (2006).

De início, o cronista associa a paixão pelo futebol à infância de uma personagem que, pela primeira vez, adentra o Maracanã:

Paulinho (seis anos) está na maior felicidade deste mundo: pela primeira vez na vida ele vai hoje ao Maracanã. Vai hoje, com o pai, ver o futebol de estádio grande.

Festejemos em Paulinho um sopro de vida que remoça o Maracanã, no ano de seus vinte anos. Esse é o glorioso destino do grande estádio: cada menino que chega é grama nova que floresce no campo.

Cada menino que chega, alento fresco no grito doce-aflito da multidão.[18]

Quantos de nós não experimentamos essa sensação na infância? Quantos de nós, feito Paulinho, não adentramos maravilhados o Maracanã, o Morumbi, o Pacaembu, o Mineirão, o Castelão, o Mangueirão, o Arruda, o Aflitos, a Fonte Nova, o Barradão, o Beira Rio, o Olímpico, a Arena da Baixada e tantos outros estádios…? Para além dos 20 anos de sua existência, como praça de esportes e “lugar de memória”, para pensarmos com o historiador Pierre Nora, são os torcedores que, desde a tenra idade, rejuvenescem, ciclicamente, o “grande estádio”.

Todavia, como aquele narrador postulado por Walter Benjamin, que teria a sabedoria de narrar as vivências próprias e alheias às novas gerações, o cronista do Maracanã imagina-se narrando para o jovem torcedor: “Se Paulinho pudesse me ouvir, eu contaria a ele, hoje, a história dos vinte anos do Maracanã. Repetiria o que já andei contando em breve escrito, sobre essa gigantesca panela de pressão – para usar uma feliz imagem de meu velho amigo Nilton Santos”.[19] E o cronista não deixa de narrar sobre aquele momento trágico do futebol brasileiro, em que, mais uma vez, o estádio se torna um cemitério e túmulo, uma “cova rasa” para a “esperança morta”:

Em vinte anos de comunhão esportiva, o Maracanã já viveu, em níveis profundos, todas as emoções que o futebol é capaz de provocar na multidão. O Maracanã já foi até cova rasa de um sonho nacional, quando o Brasil perdeu para o Uruguai a Taça do Mundo de 1950.

Testemunha da amarga tarde de 17 de julho, guardo bem na memória dos olhos a visão da arquibancada imensa toda coberta de cinzas – as cinzas do jornal queimado no fogo da esperança morta.[20]

Mas não só de tragédias, em 1970, era feita a história do Maracanã. E o cronista, ao desejar narrar para o menino os momentos de alegria e de emoção de que o gigante de cimento foi palco, os narra para nós, leitores:

Ah, se eu pudesse recompor, para o menino que chega, os melhores momentos do Maracanã: quanta mágoa ali convertida em riso pela simples abstração de um gol! Tanta gente sem endereço ali já teve seu momento de herói e semideus, projetando a própria alma no gesto de seu ídolo.

Quem me dera recriar para o menino que está descobrindo o Maracanã aquele drible que Garrincha esculpia no vento, ao longo do campo.[21]

E em seu estilo lírico, Armando Nogueira dá destaque especial a Garrincha no palco do Maracanã, o craque da Seleção e do Botafogo, time de coração do cronista, que, feito um artista, esculpe o drible no vento. E o Maracanã surge também como um autêntico teatro grego, em que se vivencia uma “santificação coletiva”, quando ecoam palavrões:

Se não for pedir muito, menino-que-chega, peça a seu pai cadeira especial: a porta do elevador se abre para o abismo da multidão que canta, aos palavrões, a própria infância perdida.

A cena assusta, mas não ofende, pois o coral do futebol conseguiu o milagre de purificar até os sons de um palavrão.

Vive-se no Maracanã, à maneira moderna, o fenômeno da santificação coletiva que os gregos antigos iam buscar no teatro.[22]

Mais uma vez, o torcer se associa à infância daquele menino-que-chega, que um dia, assim como outros de sua e de outras gerações, serão parte da multidão de torcedores que cantarão “a própria infância perdida”. E nesse turbilhão de emoções e sensações em que o Maracanã se renova a cada grande partida – não nos esqueçamos que a crônica é de 1970, com outra dinâmica e outra espacialização no estádio, que contava com a geral e toda a performance do torcer ali cultuada –, não falta a menção ao clube que leva legiões de torcedores e a toda simbologia e emoção que se fazem presentes nas arquibancadas do então maior estádio do mundo:

Chegue para ficar, menino-que-chega. Um dia, você verá o espetáculo inesquecível que é o Maracanã em tarde de Flamengo: milhares de bandeiras em festa, fechando o cerco das arquibancadas. As bandeiras maiores se alongam, femininas, até o campo, querendo enlaçar o herói do gol para entregá-lo, morto de beijos, ao abraço triunfal da multidão.[23]

Desse modo, o cronista apela para efeitos visuais – o mar de bandeiras – e auditivas, com os palavrões e os cânticos das torcidas: “E a multidão põe-se a cantar que ‘tá chegando a hora’: hora de rir e de chorar, hora de viver a vitória que lá fora a vida negou-lhe a semana inteira”.[24]

Por fim, num belíssimo desfecho, bem ao estilo lírico que é sua marca, o cronista volta a ressaltar a relação entre o futebol e a infância, num movimento pendular entre renovação – proporcionada por todo aquele “menino-que-chega” ao Maracanã pela primeira vez – e de regressão – de todo adulto que, no ato epifânico do torcer, retoma algo da própria infância:

Cheque para ficar, menino-que-chega, porque é aqui que está a bola – a bola da minha, da tua, da nossa infância; aqui está a bola que, rolando, descobre o céu, brinquedo mágico, forma perfeita, forma divina.

Deus é esférico.[25]

Selo comemorativo do Campeonato Mundial de Futebol de 1950 lançado pelo Correio brasileiro.

Em Maracanã: 50 anos de glória (2000), Renato Sérgio ressalta a função da infância como índice de renovação geracional relacionada ao espaço do estádio: “Maravilhosas multidões através das quais o Maracanã se alimenta e, em múltiplos rejuvenescimentos, renasce”.[26] E Ivan Cavalcanti Proença, em Futebol e palavra (1981), propõe uma interpretação do “esférico” em crônicas de Armando Nogueira:

A alma do carioca seria esférica. Deus idem, o talento do nosso jogador, o próprio Pelé sendo bola. […] A esfericidade é justamente aquele imponderável, aquele não computável, o não-adestrável de que falamos antes, em benefício da possibilidade-sempre de criar. Lembra o autor que o nosso jogador, a malandragem do carioca, Deus inclusive, não se ajustam aos “faremos tudo que seu mestre mandar”. Todos esféricos que são.[27]

Outro exemplo do lirismo como Armando Nogueira escreve sobre o gigante de concreto vem em forma de poema: “Maracanã”, que o cronista-poeta escreveu para homenageá-lo quando o estádio completou 40 anos, e o republicou em junho de 2000, por ocasião dos 50 anos do Maraca:

O Maracanã fez 50 anos, esta semana. Minha intenção era celebrar a data histórica, em crônica inédita. Infelizmente, como diria Rubem Braga, hoje estou meio fraco de idéias. O jeito é republicar o poema que escrevi, há alguns anos, e que saiu numa plaqueta editada nos 40 anos do amado estádio:

Revejo, com saudade,
as bandeiras das tuas batalhas

repartidas sobre o campo.
Revejo, com saudade,
a tua multidão que torce e distorce a verdade até morrer,
doa a quem doer.
Revejo, com saudade,

as esperanças que se perdiam pela linha de fundo
no entardecer de cada jogo.[28]

Marca dessa ode ao Maracanã é a saudade, o verso “Revejo com saudade”, reiteradas vezes, expressa o estado de ânimo do eu-lírico que, saudoso, rememora as vivências no estádio: o colorido das bandeiras, a agitação das torcidas, as disputas acirradas e as esperanças esvaídas e, ao mesmo tempo, renovadas. E esse gesto saudoso e memorialista prossegue:

Quantas vezes foste a minha pátria amada, idolatrada,

salve, salve a Seleção!

Quantas vezes a minha alma escapava de mim

e, sem que o árbitro notasse, aparecia na pequena área,

providencial, para fazer o gol da vitória.

Perdi a conta dos gols

que fiz com pés que nunca foram meus.

Saudade de certa lágrima de vitória

que um dia vi brilhar no rosto quase meu de uma criança.[29]

Esses versos decantam as lembranças do Maracanã em dia de jogo da Seleção Brasileira, da emoção dos inúmeros gols, em uma junção entre a alma do eu-lírico-torcedor e o jogador que assinala o tento com seus pés, e a infância que, assim como na crônica “Menino-que-chega”, celebra a união entre o eu-lírico adulto e a criança. E mesmo tendo se passado décadas entre a crônica e o poema, este também não deixa de fazer menção ao Maracanazo como uma marca trágica e perpétua do estádio:

Maracanã.

És fantasia da paixão

que aproxima e divide:

louvor e blasfêmia,

alegria e desdita.

És o gol de Gigghia (sic),

celebrado com um minuto de silêncio à soberba nacional.[30]

Se Ghiggia é o primeiro jogador nomeado no poema como aquele cujo gol decretou “um minuto de silêncio à soberba nacional”,[31] ou, como consta no relato memorialístico, “[s]eria a pá de cal na chamada soberba nacional”,[32] nos versos seguintes evidencia-se o louvor aos inúmeros “herois” e “craques” que deixaram suas marcas assinaladas, ao longo de décadas, no Maracanã:

És o ignorado heroi de uma tarde

cujo gol restou sem data

como se nunca houvera sido feito. És gol de placa

que ninguém sabe ao certo como nasceu

mas que o tempo

vem tratando de fazê-lo cada dia mais bonito.

Gol de fábula.

És o craque que passa, sem pressa,

tecendo a promessa de gol com a bola nos pés

e os olhos na linha do horizonte.[33]

Após prestar reverência aos inúmeros “craques” e “heróis” do futebol brasileiro, o eu-lírico não deixa de nomear vários deles, de diversas gerações que, desde 1950, tiveram o Maracanã como um de seus palcos, para alguns, até mesmo o palco principal:

És Gérson e Jair da Rosa Pinto

que tinham no pé esquerdo o rigor da fita métrica.

És Nilton Santos, futebol de fino trato

na majestade e no saber.

És Zizinho, que conhecia, como ninguém,

todos os atalhos da tua geometria.

És Zico que driblava triscando a grama,

suave como uma pluma.

És a “folha-seca” de Didi,

fidalgo de rara nobreza

que tratava a bola como se trata uma flor.

És Ademir Menezes correndo, olímpico,

pelos indizíveis caminhos do gol.

És Carlos Castilho, santo goleiro

que fazia milagres pelos confins da pequena área.[34]

São, sobretudo, craques dos anos 1950 e 1960 que povoam a memória do eu-lírico, com exceção de Gérson, que encerraria a carreira em meados dos anos 1970, e de Zico, que se sentia como que em sua própria casa no Maracanã. Mas o eu-lírico reserva os próximos versos a dois ícones que escreveram história no Maracanã:

És Pelé,

cujos gols eram tramados na véspera

(ele trazia de casa as traves e a bola do jogo).

És Garrincha que dobrava as esquinas da área

driblando Deus-e-o-mundo

com a bola jovial da nossa infância.

Quanta saudade

daquele drible pela direita

que alegrava as minhas jovens tardes de domingo.[35]

Garrincha e seu Botafogo foram imortalizados por Joaquim Pedro de Andrade em 1962, no documentário Garrincha, a alegria do povo. Imortalizada também a arquibancada do Maracanã, em imagens de uma multidão socialmente plural, algo que desapareceu com a arenização dos estádios, incluindo o Maracanã, como traço de exclusão social. E Pelé também se imortalizou no Maraca, com um gol marcante, o milésimo, que nos traz à mente a cena do goleiro vascaíno Andrada socando o chão e o Rei indo buscar a bola no fundo da rede, em 19 de novembro de 1969. Retomando os versos do poema, o eu-lírico enaltece Garrincha como aquele que, com seus dribles irreverentes, lhe remete saudoso aos tempos de infância, e Pelé é aquele que planejava os gols no gigante de concreto. Aliás, no prefácio da obra Na grande área (1966), de Armando Nogueira, o escritor Otto Lara Resende, assim define a escrita do cronista e seu poder de traduzir em palavras os dribles do “anjo de pernas tortas”: “Armando é, por seu turno, um monomaníaco do futebol, que nele encontra um intérprete sensível e fiel, capaz de recriar, no balanço feliz de uma frase, o ritmo encantatório de um drible de Mané Garrincha”.[36]

Por fim, o eu-lírico conclui a ode ao Maracanã enquanto parte de sua memória e de sua vida:

És, enfim, a vitória e a derrota,

caprichosa imitação da minha vida.

E porque és uma parte da minha memória,

seguirei cantando, comigo, a melodia de teu doce nome.

Maracanã, Maracanã.[37]

Mesmo décadas antes, Otto Lara Resende já reconhecia esse traço do cronista apaixonado pelo futebol, que partilha das alegrias e das dores dos torcedores, que seria uma marca de sua escrita: “Aqui também, falando de si, o cronista fala de todo mundo. Não está menos sujeito à paixão do que um torturado torcedor de arquibancada, capazes ambos de risos e lágrimas”.[38]

Em 30 de março de 2010, no dia seguinte ao do passamento de Armando Nogueira, aos 83 anos de idade, em decorrência de um câncer no cérebro, cujo corpo foi velado na Tribuna de Honra do Estádio de Futebol Mário Filho, o Deputado Chico Alencar, do PSOL-RJ, pronunciou um discurso na Câmara dos Deputados, um Necrológio, homenageando o jornalista. Além de citar na íntegra o poema “Maracanã”, o político também reverenciou a qualidade literária da escrita jornalística de Armando Nogueira: “Conhecia como poucos a poesia da bola, metáfora redonda da ‘insustentável leveza’ do nosso ser”.[39] Encerramos, aqui, com as palavras de Carlos Heitor Cony: “Armando consegue ser esférico, tal como a bola, perfeita em si, bola que, afinal, é de todos e de cada um de nós”.[40]

Referências

ALENCAR, Chico. Necrológio do jornalista Armando Nogueira. 30 de março de 2010. Acesso em: 16 jun. 2020.

ALMEIDA, Rosângela de Sena. De Copa a Copa: memórias do estádio de futebol do Maracanã. Tese Rio de Janeiro: UNIRIO, 2014. Acesso em: 16 jun. 2020.

CONY, Carlos Heitor. Prefácio. In: NOGUEIRA, Armando. O canto dos meus amores. Rio de Janeiro: Dunya Ed., 1998, p. VII.

COSTA, Andréia Cristina de Barros. Bate bola com a crônica: o futebol, o jornalismo e a literatura brasileira. Monografia, Juiz de Fora: UFJF, 2001. Acesso em: 18 jun. 2020.

NOGUEIRA, Armando. Menino-que-chega. In: ______ et al. O mundo é uma bola: crônicas, futebol e humor. São Paulo: Ática, 2006, p. 8-10.

______. A voz do tempo. In: ______. A ginga e o jogo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 13-15.

______. Maracanã. In: SÉRGIO, Renato. Maracanã: 50 anos de glória. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 239-240.

______. 1950: 10% da população do Rio no Maracanã. In: ______; SOARES, Jô; MUYLAERT, Roberto. A copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 19-36.

PROENÇA, Ivan Cavalcanti. Futebol e palavra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.

RESENDE, Otto Lara. O livro e sua musa. In: NOGUEIRA, Armando. Na grande área. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1966, p. 5-6.

SÉRGIO, Renato. Maracanã: 50 anos de glória. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

Notas

[1] NOGUEIRA, Armando. A voz do tempo. In: ______. A ginga e o jogo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 15.

[2] COSTA, Andréia Cristina de Barros. Bate bola com a crônica: o futebol, o jornalismo e a literatura brasileira. Monografia, Juiz de Fora: UFJF, 2001, p. 65-66.

[3] Idem, p. 66.

[4] PROENÇA, Ivan Cavalcanti. Futebol e palavra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, p. 38.

[5] CONY, Carlos Heitor. Prefácio. In: NOGUEIRA, Armando. O canto dos meus amores. Rio de Janeiro: Dunya Ed., 1998, p. VII.

[6] NOGUEIRA. 1950: 10% da população do Rio no Maracanã. In: ______; SOARES, Jô; MUYLAERT, Roberto. A copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 19.

[7] Idem, p. 21.

[8] Idem, p. 23.

[9] Idem, p. 23.

[10] Idem, p. 23.

[11] Idem, p. 25.

[12] Idem, p. 28.

[13] Idem, p. 28.

[14] Idem, p. 28.

[15] Idem, p. 29.

[16] Idem, p. 32.

[17] ALMEIDA, Rosângela de Sena. De Copa a Copa: memórias do estádio de futebol do Maracanã. Tese Rio de Janeiro: UNIRIO, 2014, p. 111.

[18] NOGUEIRA, Armando. Menino-que-chega. In: ______ et al. O mundo é uma bola: crônicas, futebol e humor. São Paulo: Ática, 2006, p. 8.

[19] Idem, ibidem.

[20] Idem, p. 9.

[21] Idem, p. 9.

[22] Idem, p. 9.

[23] Idem, p. 9-10.

[24] Idem, p. 10.

[25] Idem, p. 10.

[26] SÉRGIO, Renato. Maracanã: 50 anos de glória. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 238.

[27] PROENÇA. Futebol e palavra, p. 40.

[28] NOGUEIRA, Armando. Maracanã. In: SÉRGIO, Renato. Maracanã: 50 anos de glória. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 239.

[29] Idem, p. 239.

[30] Idem, p. 239.

[31] Idem, p. 239.

[32] NOGUEIRA. 1950: 10% da população do Rio no Maracanã, p. 25.

[33] NOGUEIRA, Maracanã, p. 239-240.

[34] Idem, p. 240.

[35] Idem, p. 240.

[36] RESENDE, Otto Lara. O livro e sua musa. In: NOGUEIRA, Armando. Na grande área. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1966, p. 6.

[37] NOGUEIRA. Maracanã, p. 240.

[38] RESENDE. O livro e sua musa, p. 6.

[39] ALENCAR, Chico. Necrológio do jornalista Armando Nogueira. 30 de março de 2010. Acesso em: 16 jun. 2020.

[40] CONY. Prefácio, p. VII.