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Maracanã: um rio que virou represa

Gilmar Mascarenhas

Antes de mais, homenageamos a seminal contribuição de Gisella Moura, intitulada “O Rio corre para o Maracanã”, de 1998, livro-base para as pesquisas posteriores. Parodiando o fato de este estádio ter assumido mundialmente o simpático nome (toponímia tupi) do curso fluvial que banha o entorno, a autora sugere poeticamente que a cidade corre (aflui) para o Maracanã como se fosse um rio. Rios enfrentam pedras no caminho, mas seguem adiante, jamais deixando de correr obstinadamente rumo ao seu destino. E assim a cidade afluía inteira para o Maraca, assiduamente, sem titubear, em alegre e conturbada procissão. Já não flui, pois temos agora uma espécie de represa formada pelo sistema imposto pelas normas, vigilâncias e catracas do novo equipamento.

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Como qualquer metrópole, o Rio de Janeiro comporta ao mesmo tempo várias cidades em sua vasta tecitura. Muito mais, porém, que o reiterado mosaico de diferenças tantas, esta cidade confunde nosso olhar pela profusão de camadas que se movem instáveis, redes de significados cambiantes, superposição das formas de apropriação dos lugares pelos diferentes grupos sociais que atravessam, aos tropeços e esbarrões, sua áspera e fascinante cosmologia cotidiana.

Maior concentração urbana de escravos da era moderna, em meados do século dezenove pelas ruas desta cidade se podia ouvir, da gritaria nos mercados aos mais discretos sussurros, dezenas de distintos dialetos africanos e tantos outros linguajares nativos e d’além mar. A modernização capitalista pouco a pouco instaurou a nova ordem burguesa, expulsando (ou silenciando) da cena urbana tudo e todos que não fossem “compreendidos” como (e pela) racionalidade à europeia. Revolta da Vacina e Reforma Pereira Passos são apenas alguns dos primeiros episódios que marcaram, ao longo do século XX, a produção do medo, do ódio, dos muros, das remoções forçadas e das distancias que empobrecem ou mesmo inviabilizam a riqueza de nossa alteridade.

A modernidade é incompleta em qualquer lugar, especialmente nos trópicos e muito mais ainda por essas bandas. Praias, matas, feiras, terreiros, circos, quilombos, mercados, rodas de capoeira, carnavais e botequins constituíram, cada um à sua maneira, espaços de sobrevivência e expressividade popular. A partir de 1950, o Rio de Janeiro passou a contar com um equipamento de uso coletivo que reescreveria definitivamente sua história e potencializaria seu devir enquanto pólis. A cidade plural que sobrevivera assim cambaleante à violência física e simbólica da modernização encontraria doravante insumos revigorantes. Uma nova centralidade emergia. Era o “Colosso do Derby”. Era o glorioso “Estádio Nacional”. Celebrada maravilha da engenharia e da arquitetura modernista que se tornaria muito maior e mais pujante nas vozes e danças do povaréu que preencheu com alma e rebeldia seus espaços. Misto insondável de carnaval na praia, terreiro no boteco, feira no quilombo, circo na mata, capoeira nos mercados e muito mais…

Poderia seguir tecendo loas e lágrimas ao “maraca”, mas passo a palavra ao brilhante geógrafo Fernando da Costa Ferreira. Ele, autor de magnífica tese doutoral defendida no ano passado, na UERJ, ainda inédita, a qual tive o prazer de colaborar como orientador e sobretudo com ele aprender. Inteiramente suspeito sou, mas insisto que, conjugando sagacidade e paixão incomuns, o vascaíno Fernando dissecou o Novo Maracanã como ninguém. Vagando ora como detetive ora como etnógrafo pelos mais diversos setores do estádio, atento aos ínfimos detalhes, propôs toda uma taxonomia torcedora. Através de suas lentes sensíveis e de seu rigor metodológico, podemos vislumbrar um pouco do que sobrou do velho templo e o muito que lhe foi roubado, e melhor compreender a reduzida parcela de cidade que ainda pulsa (ou jaz) em seu interior. Passo-lhe a bola:

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Até o ano de 2005, o Maracanã apresentava três grandes anéis, dispostos da seguinte forma, de baixo para cima: a geral, as cadeiras azuis e as arquibancadas (com uma subdivisão feita por grades fixas, correspondente a cerca de 1/6 de sua área, reservada às cadeiras especiais, cabines de rádio, televisão e Tribunas de Imprensa e de Honra). O público presente às cadeiras especiais e Tribuna de Honra (assim como nas antigas cadeiras azuis) assumia uma postura muito mais contemplativa do que participativa. Mesmo considerando que esse tipo de espectador estivesse presente em todos os setores, a festa ecoava por todo o estádio especialmente em seus anéis inferior e superior. Sua arquitetura possibilitava a recorrente criação de um ambiente festivo que, em grandes jogos, apesar do gigantismo característico daquele espaço, assumia uma atmosfera de “caldeirão”.

O antigo equipamento, projetado para as massas, apresentava formas de apropriação bastante peculiares, que refletiam os diferentes estratos socioeconômicos que compunham o seu público frequentador, com amplos setores accessíveis às camadas populares. Segundo Mascarenhas (2014a, p. 30), ali as multidões puderam desenhar livremente suas dinâmicas comportamentais. Rusticidade e descaso que foram apropriados pelas massas como oportunidade de “fazer o estádio a seu modo”, produzindo aquele espaço social com certa autonomia. Com o fim da Geral, a redução da capacidade das arquibancadas em razão da colocação de assentos e o progressivo encarecimento do preço das entradas em um ritmo acima da inflação e do ganho real do valor do salário mínimo, houve uma significativa e contínua diminuição em números absolutos e relativos da presença de torcedores pertencentes às classes populares. Paralelamente, cresciam as restrições relacionadas à participação das torcidas organizadas, compreendidas como agentes responsáveis pela promoção da desordem. Tais fatos, aliados à nova configuração interna do nosso mais importante equipamento esportivo após a reabertura, em 2013, foram fundamentais para a imposição inicial de um novo padrão de comportamento diametralmente oposto ao tradicional modo de torcer construído ao longo de décadas.

A hipersetorização do estádio, ao invés de incentivar o acesso de grupos tradicionalmente excluídos nas últimas décadas (reflexo de uma sociedade machista) e a permanência de frequentadores pertencentes a diferentes níveis socioeconômicos (ainda que segregados), acelerou o processo de desterritorialização dos torcedores pertencentes às classes menos favorecidas. Partindo de uma associação, a nosso ver, equivocada comportamento do público – classe social, o Maracanã arenizado culminou o processo de troca do filtro da exclusão de sociocultural para socioeconômica.

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Atual configuração interna do Maracanã arenizado e hipersetorizado.

Como parte desse processo, houve o confinamento e a restrição do ato de torcer na qualidade de expressão coletiva aos subsetores localizados nas porções superiores Norte e Sul, que somente sobreviveram como expressões de resistência após a realização de reuniões entre lideranças torcedoras, administradores da arena, autoridades governamentais e responsáveis pelo policiamento. Ao término da reforma/reconstrução, o estádio parecia destinado a abandonar definitivamente sua vocação como espaço de uso público, dotado de uma centralidade popular, passando a ser gerenciado como uma arena entregue à administração privada, concebida para receber uma plateia de maior poder aquisitivo, disposta a aceitar os novos padrões de comportamento e consumo desejados. Sua nova configuração interna passaria a reproduzir, portanto, práticas excludentes e de “invisibilização” da população menos favorecida, presentes em sucessivas intervenções realizadas no tecido urbano carioca nos últimos anos.

Entretanto, reforçando seu caráter orgânico, uma análise mais detalhada acerca de como a “arena” vinha sendo apropriada pelo público frequentador ao longo dos anos de 2015 e 2016, possibilitou identificar a existência (e resistência) de múltiplas territorialidades torcedoras em contraposição à homogeneização pretendida para a plateia pelos agentes hegemônicos.

O estudo empreendido acerca da tradicional distinção existente entre torcedores e espectadores e da evolução dos coletivos torcedores, associado à observação direta de novas e tradicionais formas de torcer em grupo e individualmente, resultou na elaboração de uma taxonomia torcedora própria, inspirada no trabalho desenvolvido por Richard Giulianotti (2012), voltado à realidade dos frequentadores dos estádios europeus. Procuramos classificar os tipos encontrados de acordo com a produção e a reprodução de múltiplas territorialidades, relacionando-os à distribuição desses indivíduos e coletivos pelos diferentes setores da arena. Com base nas oposições comportamentais torcedores x espectadores e artistas x atores, encontramos durante os cinquenta e um jogos investigados, em oito diferentes setores do estádio, entre fevereiro de 2015 e novembro de 2016, três combinações possíveis no Maracanã das práticas cotidianas, que geraram uma infinidade de subtipos: espectador clássico, torcedor-artista e espectador-ator ou não torcedor[1].

Encontrado em todos os setores (especialmente nas porções mistas Leste e Oeste e inferiores Norte e Sul), o espectador clássico caracteriza-se pela postura contemplativa (jamais desinteressada), com o torcer constante do corpo combinado à fixação do olhar no campo de jogo. Apesar de seu distanciamento voluntário dos coletivos torcedores, admira o espetáculo corpóreo, visual e sonoro promovido pelos coletivos de diferentes vertentes, aos quais denominamos de forma genérica como Movimentos Organizados de Torcedores (MOTs), aderindo, por vezes, voluntária e temporariamente a comportamentos festivos, de incentivo ou mesmo críticos ao time do coração.

O torcedor-artista engloba os indivíduos que vivenciam a partida de futebol como um espetáculo que transcende os limites físico e temporal impostos pelas regras do esporte. Para ele, a ação deve prevalecer sobre a contemplação. Seja desacompanhado, seja em grupo, sua participação ativa tem como objetivo incentivar a equipe em busca de um resultado positivo. O estádio, de acordo com a situação que se apresenta, pode ser apropriado como espaço de festa ou espaço de contestação.

Nos níveis 2 e 5 dos setores Norte e Sul, localizamos os torcedores-artistas filiados a expressões coletivas, distribuídos em diferentes MOTs, responsáveis pela produção do espetáculo multissensorial encontrado no Maracanã. Identificamos também a presença dos satélites, indivíduos temporariamente coletivizados, posicionados ao redor desses agrupamentos, que optam por torcer com o grupo, de maneira efusiva, sem, entretanto qualquer compromisso formal de pertencimento àquele ou a qualquer outro grupo.

Nas porções inferiores correspondentes, prevalecem expressões individuais como as dos torcedores caricatos (de aparência e comportamento extravagantes, dispostos a interagir de maneira festiva com as diferentes mídias e a torcida presente) e dos pós-geraldinos, que, mesmo numa partição na qual a maior parte do público opta por permanecer sentada e onde se encontram posicionados os fiscais de comportamento (stewards), procuram reproduzir a prática de torcer de pé à beira do campo de jogo, característica da antiga Geral.

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Diferentes tipos de torcedores artistas: torcedor caricato do Fluminense (em 24/06/2015), satélites cruzmaltinos do movimento Guerreiros do Almirante (em 20/09/2015), defensores do território rubro-negros (em 02/08/2015) e pós-geraldinos gremistas junto a espectadores clássicos (em 23/09/2015). Autor: Fernando da Costa Ferreira.

Por ocasião da realização de encontros com expectativa de uma grande afluência de público, e da venda de todas as entradas destinadas para a porção “popular” tradicionalmente ocupada pelos seus torcedores, havia o “transbordamento” da torcida local para o subsetor localizado entre o público visitante e um setor misto. Em razão da proibição da presença de torcidas organizadas e da possibilidade de utilização da lei das gratuidades, o perfil desse frequentador assemelha-se ao dos espectadores clássicos encontrados no nível 1 dos setores Norte e Sul, ainda que a presença de idosos e crianças não seja tão expressiva.

Ao mesmo tempo, junto às grades de separação com a área destinada à torcida visitante era possível identificar um tipo bastante peculiar de frequentador formado por torcedores avulsos “com alma”, ao qual denominamos como defensores do território. Na ausência das torcidas organizadas mais aguerridas, ele parecia tomar para si a missão de defender aquele ponto do estádio contra o “inimigo” próximo. Aproveitando a presença do policiamento apenas do outro lado da cerca, dedicavam grande parte do tempo de permanência no estádio a provocar os coletivos rivais. Estes, por sua vez, respondiam com gestos, ameaças e desafios para que os torcedores locais ultrapassassem as barreiras física e humana a eles impostas. Como estratégias de provocação, os defensores do território exibiam, orgulhosos, a camisa do clube, faziam gestos de adeus (em caso de vitória), apontavam o dedo indicador para baixo como forma de reforçar a posse do território ou o dedo médio em direção ao adversário. As ofensas “leves” emitidas de modo descoordenado, jamais em coro para a coletividade visitante faziam com que, quando comparadas aos torcedores organizados tradicionais, as provocações desses adeptos soassem como ingênuas.

A torcida visitante costuma ocupar um subsetor localizado na parte oposta ao dos coletivos que apoiam a equipe detentora do mando de campo. Por ocasião dos encontros envolvendo equipes dos estados de São Paulo e de Minas Gerais, um significativo contingente de MOTs vindos em caravanas, se juntava aos componentes de núcleos locais e indivíduos residentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Quando o encontro envolvia times de fora da região Sudeste, prevalecia a presença de torcedores avulsos. Tratando de forma específica deste último grupo era possível perceber que muitos deles, talvez em razão da emoção do reencontro com o time do coração e da possibilidade de estar novamente próximo àqueles que compartilham da mesma paixão clubística, adotavam uma postura festiva e participativa provavelmente distinta daquela que teriam caso estivessem em seu local de origem.

Independentemente da postura adotada ou do setor escolhido, o principal traço identitário que une grupos marcados pela heterogeneidade é o pertencimento a uma mesma comunidade imaginada, no caso, o grêmio futebolístico. Esse sentimento parece inexistir entre os espectadores-atores, também conhecidos como não torcedores. Sua presença no estádio não tem como interesse primordial assistir a uma partida de futebol. Relacionando as nossas observações com a obra de Gustavo Coelho (2015), apesar de serem encontrados em todos os pontos do estádio, os não torcedores têm no setor Maracanã Mais[2] seu habitat ideal, projetado para abrigar torcedores “sem mito”, que frequentam arenas “sem alma”.

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Comportamento não torcedor no estádio. Casal de alvinegros preocupado com a selfie perfeita durante a primeira partida da final do Campeonato Carioca de 2015 enquanto o time do coração buscava o gol. Autor: Fernando da Costa Ferreira (em 26/04/2015).

O confinamento dos MOTs nas porções superiores Norte e Sul, localizadas atrás das duas balizas, potencializado pela presença dos satélites, acelera a formação de modos de torcer híbridos. A criminalização das torcidas organizadas tradicionais e os longos períodos de suspensão impostos a algumas delas possibilitaram o crescimento de novas expressões torcedoras, com destaque para os movimentos populares[3] que, exceção feita ao Clube de Regatas do Flamengo[4], constituíam os agrupamentos que congregavam o maior quantitativo entre os coletivos torcedores de suas equipes nos estádios. Servindo como zonas de amortecimento, estrategicamente posicionadas para evitar conflitos internos, havia as antigas torcidas locais, às quais se agregaram as ascendentes torcidas chopp e, somente para o Club de Regatas Vasco da Gama, um considerável e atuante aglomerado rastafári, que se coadunam à proposta de torcer em paz, incentivar e promover a festa nas arquibancadas.

É possível compreender os setores superiores Norte e Sul como locais marcados pela resistência e pelo consentimento. Resistência, em razão da permanência de práticas de início compreendidas como inadequadas para o remodelado ambiente. Nelas, os adeptos podiam permanecer de pé (inclusive sobre os assentos), sem camisa, empunhar bandeiras e outros apetrechos, entoar cânticos marcados pelo ritmo de instrumentos e se movimentar livremente, mesmo que em um espaço limitado sem o risco de serem incomodados pelos stewards ou pelo policiamento. Consentimento, pois a quantidade do material a ser exibida deve obedecer a um limite previamente estabelecido pelas forças de segurança e devidamente vistoriado no momento da entrada. Havia também a proibição quanto ao acesso e à exibição de símbolos alusivos a agrupamentos punidos com longos períodos de suspensão em função do envolvimento em passagens criminais, frequentemente ocorridas em locais distantes do complexo esportivo.

Os setores inferiores Norte e Sul, apesar da proximidade e da possibilidade de acessar os níveis superiores, caracterizavam-se como áreas eminentemente familiares, nas quais a sobrevivência de algumas práticas torcedoras tradicionais e o respeito às normas de comportamento desejadas para os estádios ressignificados, pareciam alcançar um ponto de equilíbrio. A combinação de fatores, como o benefício concedido pela lei das gratuidades (válida também para os setores superiores), a proibição da permanência dos MOTs e a predisposição da maior parte da plateia presente em assistir sentada às partidas, porém, sem abdicar da festa emanada dos níveis 2 e 5, atraiu um público marcado por uma maior diversidade socioeconômica e sociocultural.

Consequentemente, era possível encontrar diferentes formas atomizadas de torcer. Os frequentadores que preferiam permanecer de pé costumavam procurar localizações que minimizem possíveis incômodos aos demais espectadores, tais como as laterais e a mureta divisória com o campo de jogo. Também era possível perceber a presença de torcedores caricatos, que comparecem fantasiados e/ou carregando cartazes com mensagens de incentivo ao time ou em tom jocoso contra o adversário, preocupados em transmitir sua imagem e/ou mensagem para o público externo, mas também para a coletividade presente às partidas.

Junto à linha lateral, os setores Leste Inferior, Leste Superior, Oeste Inferior e Maracanã Mais compunham, em 2015, partições destinadas à torcida mista. Nesses espaços marcados pela cobrança de valores mais elevados, pela presença de torcedores atomizados, pelo respeito ao lugar marcado e à visão plena do campo de jogo de todos os frequentadores, o respeito ao conjunto de normas muito próximo àquele seguido pelas plateias das salas de cinema ou de teatros, se impunha sobre os códigos tradicionais existentes nos “velhos” estádios, compreendidos agora como inadequados.

Esse processo fora facilitado pelo conhecimento e pela predisposição por parte da maioria dos indivíduos que adquiriam ingressos para aqueles pontos em aderir voluntariamente à lei vigente. Como complemento, a existência de um forte aparato de vigilância (extensivo a todo o estádio), corroborava a visão de Mascarenhas e Gaffney (2004) acerca da transformação dos estádios de futebol em espaços disciplinares, vigiados por câmeras, policiais e stewards, cuja função primordial consistia em zelar pela preservação do patrimônio físico e pelo respeito às normas vigentes, reprimindo, com a anuência dos próprios frequentadores, comportamentos indesejáveis.

Nessas porções mistas, a contemplação deveria prevalecer sobre a ação, e torcer ou permanecer de pé constituiria uma atitude inaceitável. Como consequência, assistimos a uma terceirização do ato de torcer, na qual competiria aos componentes dos coletivos torcedores e demais frequentadores dos setores superiores Norte e/ou Sul a missão de conduzir o alento à equipe. Em razão de concentrarem frequentadores de maior poder aquisitivo, era possível perceber, especialmente durante as partidas com a presença de Flamengo e/ou Corinthians, equipes com a imagem tradicionalmente vinculada a uma massa torcedora pertencente às classes populares, a prevalência da identidade de classe sobre a identidade clubística, com o frequentador economicamente favorecido optando por estar ao lado de cidadãos que compartilhem de códigos comportamentais semelhantes aos seus, ainda que divirjam quanto à equipe que apoiam.

Terminadas as competições olímpica e paralímpica, o impasse acerca da devolução do estádio pelo Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 ao Consórcio Maracanã S.A., fez com que o mítico equipamento esportivo carioca reabrisse para as partidas de futebol com uma configuração interna distinta à existente entre 2013 e 2015. Este conflito afetou sobremaneira o perfil e o comportamento do público presente ao estádio. Em razão da falta de diversos assentos e da recolocação de muitos deles sem obedecer à ordem correta de numeração, houve o fim da exigência do respeito ao lugar marcado contido no ingresso.

Ao mesmo tempo, o modelo de torcida mista deixou de ser adotado, com as porções Leste Inferior, Leste Superior, Oeste Inferior e Maracanã Mais sendo ocupadas pelos adeptos da equipe detentora do mando de campo (quando não permaneciam fechados como forma de contenção de gastos). Com isso, renomeamos os antigos setores mistos como setores laterais. Por ocasião das partidas que tiveram o Clube de Regatas do Flamengo como contratante, a aquisição da maior parte dos tickets disponíveis para as porções “populares” por sócios-torcedores detentores dos planos mais caros também influenciou na afluência de um novo perfil de frequentador e na redistribuição de parte do público que tradicionalmente ocupava as dependências do setor Norte superior.

É possível afirmar que, em 2016, houve uma subversão às normas vigentes desde 2013, com o embate entre diferentes modos de torcer, opondo os espectadores-clássicos a determinados segmentos dos torcedores-artistas, que procuravam impor as práticas torcedoras permitidas nos locais ocupados pelos MOTs assistindo às partidas de pé. A atuação ineficiente dos stewards contribuiu para que, em partidas de maior apelo de público, prevalecessem práticas associadas ao torcer em grupo e, por ocasião das disputas com menor quantitativo de torcedores, houvesse uma coexistência, até certo ponto pacífica e espontânea, com a (re)distribuição espacial do público presente aos agora setores laterais, refletindo o modo de torcer da sua preferência.

O Maracanã Mais restava como o único setor onde prevalecia (parcialmente) o respeito às normas vigentes entre 2013 e 2015. Esses fatos serviram para reforçar a ideia do estádio como um ser vivo, cujo espaço produzido resulta de múltiplas e contínuas combinações e recombinações de diferentes formas de apropriação.

Concluído o período de observações, constatamos que o espaço concebido pelos atores hegemônicos para a “arena” Maracanã não conseguiu se impor plenamente aos conteúdos e tradições produzidos pelo espaço vivido do estádio. Ao mesmo tempo, ambos não compõem entes indissociáveis. Acreditamos que seja viável a construção de um ambiente inclusivo, que combine o resgate de aspectos positivos relacionados ao estádio popular, compreendido como “uma forma de fazer cidade, de ter direito à festa, ao encontro, inventividade coletiva” (MASCARENHAS, 2014a, p. 31), com os avanços percebidos por uma expressiva parcela dos novos e antigos frequentadores após a sua arenização.

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O texto de Fernando deixa antever brechas e rachaduras que sinalizam desgaste na grande represa. De um lado, os cofres de aço do futebol moderno abraçado a certo modo de gerir a cidade neoliberal. De outro, a correnteza do rio onde trafegam o espírito lúdico e a revolta dos marginalizados. Neste espaço em disputa, ao que tudo indica, o jogo não acabou.

[1] O torcedor-ator, quarto grupo possível, não constou da análise, em razão de se tratar de um tipo de frequentador característico dos megaeventos esportivos, em especial a Copa do Mundo de futebol masculino. Ao classificá-los, compreendemos como indivíduos que costumam comparecer às arenas, com espírito festivo, fantasiados, carregando consigo um sem número de adereços e/ou com partes do corpo pintadas com as cores da nação a qual representavam. Ao contrário dos torcedores caricatos (até mesmo em razão do caráter bissexto dessa competição), não constituem presenças recorrentes nas arenas mundialistas e que, salvo raríssimas exceções, são reconhecidos como seus torcedores-símbolo.

[2] Porção do estádio localizada na parte oeste, em frente à linha do meio-campo, onde são cobradas as entradas de valor mais alto. Em 2015 e 2016, seu principal atrativo era a oferta de um serviço de buffet onde o frequentador (exceção feita ao consumo de cerveja) poderia se servir “à vontade” (na realidade, havia uma taxa no valor de 45 reais, embutida no valor da entrada) em um amplo salão refrigerado, rodeado por aparelhos de TV que transmitiam a partida.

[3] Bravo 52 (Fluminense), Guerreiros do Almirante (Vasco) e Loucos pelo Botafogo.

[4] Nação 12.