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Marcelo Bielsa: coreografias táticas para uma beleza invulgar

Alexandre Fernandez Vaz

Para Ivan Marcelo Gomes

Em 5 de setembro de 2000 a seleção brasileira de futebol masculino jogou contra o selecionado argentino, em Buenos Aires. A partida foi no Monumental de Nuñez, estádio do River Plate, e nele brilhou um astro dos Millonarios, Marcelo Gallardo, El Muñeco, autor do gol da vitória do time mandante por dois a um. No banco portenho, estava outro Marcelo, de sobrenome Bielsa, chamado de El Loco, com quem o primeiro aprendeu muito durante os anos de convívio na Albiceleste. Gallardo é hoje um dos melhores e mais criativos técnicos de futebol em atividade.

Naquela partida, o placar de 2 a 1 nem de perto espelhou o amplo domínio dos argentinos, exercido com uma intensidade impressionante. Os brasileiros saíram na frente, mas a noite de quarta-feira viu os vencedores com zagueiros adiantados e o time todo pressionando os visitantes. Troca de posições, todos atacando e defendendo, transições rápidas, tabelas curtas, triangulações, viradas de bolas constantes, marcas do jeito de jogar daquela equipe.

Marcelo Bielsa, quando treinador do Olympique de Marseille, em 2015. Foto: Wikipedia.

Bielsa e seus comandados chegaram à Copa no Japão e na Coreia, dois anos depois, como favoritos, mas caíram na primeira fase depois da atuação convincente contra a seleção da Nigéria (Pablo Sorín e Javier Zanetti eram laterais, ponteiros meias e atacantes, tudo ao mesmo tempo), da derrota frente aos ingleses (logo eles!), do melancólico empate com os suecos (só alcançado, aliás, ao final da contenda). Uma pena, pois teria sido lindo ver aquele time avançando no Mundial e mostrando o futebol vibrante, inesperado, rico em opções; uma equipe sem grandes craques, mas espetacular. Um novo combate contra os brasileiros, depois do massacre em Buenos Aires e da revanche no Maracanã, pelas Eliminatórias (3 a 1, com grande atuação do médio-volante Vampeta, autor de dois gols), nos daria uma experiência única.

Bielsa tinha despontado uma década antes, ao levar o Newell’s Old Boys a dois títulos argentinos e à final da Copa Libertadores da América, contra o São Paulo de Telê Santana, que nos pênaltis conquistaria seu primeiro título sul-americano. Na zaga dos rosarinos, atuava Mauricio Pochettino, que também frequentaria a seleção argentina, antes de tornar-se o bom treinador de hoje.

Ao diário colombiano El Espectador, Pochettino há poucas semanas assim se referiu àquele que foi seu treinador por tantos anos:

“Siempre digo que no soy discípulo de Bielsa, por el hecho de que es muy difícil intentar o querer copiar el libreto que Marcelo traslada a sus equipos y cómo él transmite sus ideas que crea en su cabeza para después plasmarlas en los equipos. Dicen que es un gran motivador, pero para mí la motivación es algo muy corto. Lo más importante es que ha inspirado a todos, nos metió esa semillita de interesarnos por el juego. Fue un gran innovador y ha hecho que todos pensemos de una forma diferente a partir de lo que él quería. Nos dio esa curiosidad de querer entender el juego” .

Como se não bastasse a simples atenção às equipes que ele prepara, vários são os técnicos que consideram Bielsa um grande conhecedor do futebol. Mesmo críticos de seu estilo, como Ricardo La Volpe, reconhecem seus méritos. Segundo ele, El Loco seria muito rígido em seu sistema de jogo e valorizaria demais a marcação individual, sacrificando os craques de seu time, obrigados a correr atrás dos laterais adversários. Por outro lado, Marcelo lhe teria sido muito importante nos inícios da carreira, um exemplo quando ambos argentinos dirigiam equipes mexicanas.

Há toda uma mitologia em torno de Bielsa. Convidado a trabalhar no Santos Futebol Clube, há alguns anos, teria impressionado os dirigentes do clube ao dissertar detalhadamente sobre os jogadores do plantel, incluindo vários das categorias de base. Teria sido um luxo vê-lo no comando dos Meninos da Vila, mas a pedida do argentino estivera acima das possibilidades praianas. Josep Guardiola, por sua vez, o visitara na Argentina, ainda na condição de aprendiz, para passar horas em torno de um asado debatendo futebol. Há poucos dias, por ocasião da partida entre Manchester City e Leed United pela Premier League, que os oporia, o catalão vaticinou:

“Bielsa é provavelmente a pessoa que mais admiro. Ele é único. Ninguém consegue imitá-lo. Ele é inspirador para mim. Nós ganhamos mais títulos, mas, como técnico, ainda estou longe dele.”

Após levar o Leeds United de volta à Premier League, uma rua recebeu o nome de Bielsa no centro da cidade. Foto: Wikipedia.

Entre sucessos impressionantes e retumbantes desentendimentos, principalmente com dirigentes, Bielsa pode ser eventualmente vítima de suas próprias obsessões. Talvez tenha sido o caso na desclassificação frente ao selecionado brasileiro nas oitavas de final da Copa de 2010, na África do Sul. Não era o time argentino que ele comandava, mas o chileno. Sem condições de corresponder às expectativas de seu treinador, a equipe sucumbiu por três a zero perante o adversário, com direito a um belo gol de Luís Fabiano. Não houve reação ou mudança de postura tática, o treinador se mostrava entre catatônico e resignado à beira do gramado, enquanto seus jogadores se revelavam incapazes de cumprir as diretrizes táticas que lhes transmitira.

Rosarino, como Lionel Messi e Ernesto Guevara, Marcelo Bielsa tem conceitos e os opera em movimento: são ferramentas para pensar sobre o futebol, para torná-lo mais dinâmico, eficiente, buscando a invulgar beleza dos desenhos táticos que são como coreografias complexas. Genial.

Coqueiros, Florianópolis, outubro de 2020.


Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Marcelo Bielsa: coreografias táticas para uma beleza invulgar.