12.5

Março, 1978

Idelber Avelar

…dali a massa de gente se via como enorme vulto, pipocando na luz dos refletores que golpeavam-no diretamente, na cara, brutais e obscenos, magnificando a dor insuportável na coxa, que já se estendia pelos joelhos e por toda a perna, tentacular, inescapável, e no rolar do corpo se misturavam o gosto forte da grama e o brilho enceguecedor das luzes, estas, permeáveis o suficiente para confirmar-lhe que nunca viu um estádio tão cheio, tão carregado de tensão, enquanto a dor se agudiza até o ponto em que parece suspender-se o tempo, na mistura entre o escurecer da tarde e o prateado dos refletores, e ali percebe que estava rolando na grama do Mineirão, sim é o gol do lado da lagoa da Pampulha o que testemunha a contorsão de agonia de seu rosto, e quando seus olhos passeiam pelas arquibancadas nesse suspender-se do tempo, só vislumbrando um vago alvinegro esparramado pela multidão compacta e percebendo a grama úmida grudando-se à sua camisa alvinegra já meio arrancada para fora do calção e amassada pelo contato com o chão e peso do corpo sobre ela, nesse instante em que a dor parece conjugar-se com a suspensão do tempo, as travas de uma chuteira enorme desmoronaram sobre seu corpo, sua coxa ferida, e ali já era impossível diferenciar os membros, a sensação de que se quebrava tudo atravessou o fragilizado corpo, e cabeça e tornozelos sentiam que se partiam como uma bolacha, não se vê mais nada do que era até ali o brilho, o luar, as arquibancadas, só o imenso vulto vestido de branco com uma listra vermelha em algum lugar, que pisava, com sua mastodôntica perna direita, a chaga que o imobilizava, que o eliminava da partida, fazendo dele presa fácil dessa força superior, enquanto todo o branco e negro se deixava tragar por um cinza escuro que apagou todos os refletores no poço infinito da dor, pois a partir daí a cabeça não mais dirige aos holofotes o olhar, o corpo não mais arrasta a chaga, a perna não se sente mais parte do corpo, e este como uma flácida matéria se oferece dócil ao pisoteio que se prolongava eternizado no tempo, arrastando-as, as travas, por toda a extensão da coxa ferida, e não se saberia dizer quanto durou tudo aquilo, quanto tempo permaneceu o vulto enorme ereto sobre seu corpo, repousando sobre a perna sua, que já se despedaçava sob um peso descomunal, magnificado pelo pontiagudo das chuteiras e pela humilhação de encontrar-se sob os pés de outrem, e às portas do abismo seu corpo tentou encontrar forças para levantar-se, arrastando a perna como um apêndice inútil e lembrando-se da partida que, agora sim, abandonaria de vez, incapaz de manter o peso de seu corpo sobre dissolvidos membros, sim, era como uma massa em dissolução que ele se percebia naquele momento quando se arrastou em direção à lateral e ao túnel, vagarosamente, e aí se levantou com um barulho estridente na cabeça e viu-o, de corpo inteiro, Ângelo do Atlético, mas quando a sua vasta cabeleira se virou e o bonito rosto se deixou revelar — não era mais Ângelo, mas seu mesmíssimo rosto, ele Adonias Mendonça, um rosto de si mesmo no corpo de outro, e antes que o barulho definitivo se instalasse, ainda viu o filho Ademir transformando-se, apropriando-se do corpo de Ângelo, quando soavam já as 6:30, como sempre, com a Sra. Mendonça esperando-o para o imutável café.

novembro/dezembro, 2006