18.5

Maré de azar – Maputo, Moçambique

Tiago Carrasco, João Fontes, João Henriques

Os atletas enterrados no capim aquecem os músculos para o jogo mais importante do ano. É a grande final do Bairro dos Pescadores da Costa do Sol, que opõe o Costa do Sol, formado por jogadores que moram do centro de saúde em diante, e do Xelisa, constituído por atletas que residem atrás do campo da bola. Os primeiros vestem a camisola do AC Milan, os segundos do Chelsea, clube inglês do qual deriva a sua adaptação moçambicana. O momento é de grande ansiedade: “Eram 12 equipas e só nós chegámos ao fim. O nível aqui é muito forte porque como se paga mal no futebol federado, os melhores jogadores do bairro entram neste campeonato amador”, diz Aires, capitão da equipa do Costa do Sol, enquanto nos dirigimos pelo meio das casas dos pescadores para o campo do bairro. As crianças inundam as ruas, brincando com um peão talhado na madeira, que fazem rodopiar com um chicote. Vivem 17 mil pessoas neste bairro – 40% tem menos de 18 anos.

Moçambique. Foto: João Henriques.

O terreno de jogo é delicioso. Um rectângulo de terra castanha foi recortado no meio do capim alto e nos seus extremos foram colocadas duas balizas feitas com troncos de árvores e malhas de pesca. O sol da tarde dá ao ambiente tons quentes como um filtro amarelo-torrado num filme de Walter Salles. Disputa-se o jogo para apurar o terceiro e o quarto classificado e, nas bancadas construídas também elas com troncos, bebe-se vinho de palma em copos de iogurte natural para aquecer os ânimos para a aguardada final. Tonecas, 22 anos, está preocupado com a organização do jogo: “Não é melhor começarem a final? É que depois fica escuro”. Ninguém dá bola ao Tonecas. Estão todos concentrados nas jogadas mirabolantes do extremo-esquerdo da equipa que alinha com a camisola do Benfica, o único a jogar descalço. “Esse gajo veio lá do norte, pá. Está habituado a andar descalço…por isso é que corre mais leve do que os outros. Se lhe pões uns sapatos nem se mexe”, diz Adriano, já cambaleante de tanta vinhaça.

Foto: João Henriques.

Entretanto, os finalistas começam a aquecer. Pedro, treinador da Costa do Sol, dá a táctica: “Não deixa jogar, sempre em cima”, ordena. Como a esmagadora maioria dos habitantes do bairro, Pedro tem barcos de pesca. Contudo, a maré é de azar e os ventos não ajudam. Nos próximos dias, os barcos não saíram à procura de magumba, o peixe espinhoso que é a principal fonte de rendimento da Costa do Sol. Garantem os locais que o peixinho tem espinha a mais mas que é daí que vem o seu sabor único – “o melhor” -, nas vozes da população da zona. O camarão, ícone do mar moçambicano, também é presa, sendo vendido na praia a 200 meticais/kg (6 euros). “Há alturas em que só pescamos para comer, há outras em que dá para ganhar um bocadinho para comprar outras comidas”, diz Armando, 45 anos, pai de oito filhos com cinco mulheres diferentes, que vinha da praia onde tinha estado a consertar um barco.

Foto: João Henriques.

A bola já está ao centro. A final prepara-se para começar. “Já começou tarde”, insiste Tonecas. Ninguém lhe ligou. Ao meu lado, os pescadores enumeram os atletas que estão em campo que jogam em clubes federados: “Estás a ver o defesa-direito? Joga no Costa do Sol e é internacional sub-21. O defesa-central e o médio centro também lá jogam nos juniores. O médio da outra equipa é do Maxaquene, antigo Sporting de Lourenço Marques. Eu também já ganhei a taça da cidade pela Académica de Coimbra de Maputo”, explica-me Dinho, 22 anos. Estou na bancada central, em frente à taverna, pelo que me encontro rodeado por pescadores bêbedos e treinadores de bancada. Um deles tenta apresentar-me o kumba, o médico tradicional do Xelisa. Depois de muita insistência, o curandeiro lá se aproxima, arrastando a sua pança pesada. À primeira impressão, o seu remédio preferido é o vinho tinto, que segura num copo na mão direita. “Olá, eu sou o Kaká”, apresenta-se. “Sou eu que preparo a equipa que ficou em terceiro e esta aqui. Sou o melhor aqui do bairro”. “Se és o melhor, faz com que não fique escuro antes do fim”, pede o Tonecas. “Cala-te Tonecas. Tu nem para jogar serves, foste eliminado logo na primeira eliminatória. Toda a gente sabe que o Tonecas é o palerma em Portugal e eu sou o Kaká, vou ganhar o Mundial”, retorque o curandeiro. Kaká não se cala durante todo o jogo. Dança, berra e atira-se para cima de todas as mulheres que passam, já com a camisa aberta para expulsar os vapores da bebida. A dada altura, também se pega com um velho ainda mais bêbedo que ele. Chateou-se de ouvi-lo passar o jogo a dizer a todos os jogadores com menos de 1,70m: “Olha ali o baixinho. Olha o Baixinho. O baixinho é que é bom”.

Foto: João Henriques.

O granel nas bancadas colmatava a ausência de espectáculo desportivo. O jogo estava táctico e aborrecido e o único momento que provocou uns saltos de entusiasmo foi quando a bola embateu no tronco, desferida por um pontapé de meia-distância de um dos “baixinhos”. “Olha o baixinho…remata com força”! Estava tudo tão monótono que até dava para um rapazinho arrancar com um ancinho as ervas mais altas nas grandes áreas a meio do jogo. Além do mais, começava a anoitecer. E quanto menos se vê mais se bate. O tal lateral-direito do Xelisa, referenciado como vedeta e reconhecível pelas rastas que usa no cabelo, parece uma retroescavadora. Em dez minutos, virou dois adversários com carrinhos por trás. Um deles, à falta de maca, teve de sair a ombros. “Isto está a ficar pesado, pá”, queixa-se Armando.

Foto: João Henriques.

A lua substitui-se ao sol. Do calor da tarde, resta apenas uma lista vermelha que teima em se apagar do horizonte. estamos no meio do mato e não há iluminação artificial. No campo, um desafio de sombras. De vez em quando, ouve-se um grito de dor: “Ahhh. Uiii,”. “Olha mais uma cacetada”, comenta o público, como se estivesse a seguir um jogo através de um microfone de escuta instalado na escuridão. Faltam ainda 17 minutos para o final. “Isto já não dá para jogar”, relembra o Tonecas. “Cala-te Tonecas. Isto ainda dá para desempatar por penaltis”, responde adepto. O árbitro pára o jogo pela primeira vez e o público aplaude. Jé ninguém consegue ver a bola. Porém, os jogadores querem definir hoje quem é o campeão do bairro e pedem para continuar. Passaram-se dois minutos. Bem à minha frente, dois adversários pegam-se durante a execução de um lançamento lateral e empurram-se. De seguida, efectuado o lançamento, o lateral do Xelisa espeta mais um pontapé na coxa do rival. Instala-se a desordem. Os pescadores entram em campo e não deixam a partida retomar. Os garotos roubam as bandeirolas de canto e exibem-nas no ar. O árbitro foge com a bola. Os adeptos rodeiam os atletas a pedir-lhes explicações. Só o Tonecas permanece impávido e sereno, com o seu ar de palerma: “Eu sabia. Devia ter começado mais cedo”. Não só não há peixe como não há campeão. É uma maré de azar.

Foto: João Henriques.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes foram de Portugal à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.

Como citar

CARRASCO, Tiago; FONTES, João; HENRIQUES, João. Maré de azar – Maputo, Moçambique.