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Mário Filho e o Maracanazo (1950-1958) (1ª Parte)

Denaldo Alchorne de Souza

Era o dia 16 de julho de 1950, às 14 horas e 55 minutos. Pela voz dos locutores Antônio Cordeiro e Jorge Curi da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, atletas brasileiros e uruguaios iniciavam a última rodada da Copa do Mundo de Futebol para saber quem seria o campeão. Era o primeiro torneio em doze anos. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) praticamente paralisou as competições intercontinentais. Os Jogos Olímpicos foram realizados em 1936, na cidade de Berlim, e somente seriam disputados novamente em 1948, em Londres. A última Copa do Mundo de Futebol aconteceu na França, em 1938, e apenas voltaria a ocorrer agora, no Brasil.

A partida estava sendo realizada no recém-inaugurado Estádio Municipal, no bairro do Maracanã, cidade do Rio de Janeiro. Era considerado por muitos o maior palco esportivo do planeta. Naquela tarde, 173.850 pessoas pagaram para ver o jogo. Se incluirmos convidados e profissionais que estavam a serviço, calcula-se que 200 mil pessoas estavam no local. Eram aproximadamente nove por cento da população do Rio de Janeiro. E não estavam presentes somente cariocas. Torcedores dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e de outros lugares mais distantes também estavam presentes naquela hora e naquele lugar para verem os atletas patrícios disputarem contra os uruguaios o título de campeão mundial.

Não foi por acaso que os brasileiros eram considerados os favoritos da partida. Conseguiram montar uma poderosa equipe que contava com craques como Zizinho, Ademir de Menezes, Jair Rosa Pinto e Danilo Alvim. Se classificaram na primeira fase da competição depois de uma campanha eficiente contra os mexicanos (4 a 0), suíços (2 a 2) e iugoslavos (2 a 0). Na fase final, aplicaram duas sensacionais goleadas nas fortes seleções da Suécia (7 a 1) e da Espanha (6 a 1), somando 4 pontos. Já, os uruguaios, na mesma fase final, conseguiram um sofrido empate contra os espanhóis (2 a 2) e uma vitória sem brilho contra os suecos (3 a 2), somando 3 pontos. Na partida final, a vantagem era dos brasileiros. Bastava um empate para serem campeões[i].

Foi um primeiro tempo equilibrado, com uma leve vantagem para os brasileiros por sua densidade de jogo. Além dos lances de perigo, teve destaque a participação do capitão da equipe uruguaia, Obdulio Varela, que em diversos momentos gesticulava, gritava e reclamava com os brasileiros, com os seus companheiros e até com o juiz. O fato mais polêmico para alguns comentaristas foi, aos 27 minutos, o pontapé do capitão uruguaio seguido de um “tapinha” no rosto do jogador brasileiro Bigode.

Era a partida mais difícil da fase final, contudo, os brasileiros tinham a vantagem do empate. O segundo tempo começou com fogos de artifício e com o apoio da torcida. Aos 2 minutos Friaça fez o gol brasileiro. Era a consagração de uma equipe de futebol, de uma campanha vitoriosa, de uma torcida, de um país inteiro. A partir daquele momento, ninguém podia ter mais dúvidas que a seleção brasileira, ou melhor, o Brasil seria campeão mundial.

Mais do que a equipe de futebol, quem provavelmente iria ganhar aquele campeonato era a nação brasileira. Mais ainda, era a vitória de uma interpretação de “Brasil” e de “povo brasileiro” construída desde a década de 1930 e sintetizada na obra O Negro no Foot-ball Brasileiro, escrita pelo jornalista Mário Rodrigues Filho[ii].

Quando, no dia 16 de julho de 1950, Friaça fez o primeiro gol contra os uruguaios, era assim que grande parte dos brasileiros visualizava o futebol e a nação: um povo pobre que passou por inúmeras dificuldades como a escravidão, a miséria, a exploração, o analfabetismo, o racismo, a ignorância, a pouca civilidade, mas que agora possuía uma nova face, uma nova postura. Era uma nação que aprendera com a sua história. O racismo estava em extinção. A falta de cultura e de educação era algo do passado. O país estava se desenvolvendo, se disciplinando e se civilizando. E, para provar tal constatação, todos os atletas se comportaram de forma exemplar. Jogaram honestamente, não apelaram para a violência, não mostraram descontrole emocional e não xingaram os adversários.

Entretanto, logo após o gol, Obdulio Varella foi em direção ao juiz e ao bandeirinha e depois segurou a bola debaixo do braço sem entregá-la a ninguém. As reclamações do uruguaio duraram mais de um minuto.

Após a nova saída de bola, os cisplatinos se projetaram com maior frequência ao ataque. Impuseram alguns lances de gols e concentraram as jogadas mais pelo lado direito de seu ataque, com Julio Lopez e Ghiggia. Este lado do campo era defendido por Bigode com a cobertura de Juvenal. Mas agora, no segundo tempo, com desvantagem no placar, avolumaram os ataques por esse lado do campo. Todavia, aos 20 minutos, Schiaffino empatou para equipe cisplatina e aos 33 minutos Ghiggia colocou em vantagem os uruguaios. O resultado perdurou até o final do jogo. A equipe do Uruguai era campeã do mundo mais uma vez[iii]. Aos brasileiros, restava o vice-campeonato.

Gol de Ghiggia, o que definiu o título da Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai e o “Maracanazo” para o Brasil. Foto: Divulgação.

Para as próximas gerações, a partida foi sempre recordada como “a mais trágica de todos os tempos”. Mais importante que a tão esperada vitória dos brasileiros contra os suecos na final da Copa de 1958; ou contra os tchecoslovacos em 1962; ou ainda nas vitoriosas campanhas de 1970, 1994 e 2002; ou até mesmo mais trágica que a recente derrota para os alemães por 7 a 1 na Copa de 2014. Para muitos, 16 de julho de 1950 foi o dia mais triste da História do Brasil. Mais ainda: foi o dia mais triste de suas vidas. Tal sentimento de frustração, de abandono, de fracasso, que imperava naquele fatídico dia, foi incomensurável. Para aqueles que não viveram esses momentos ficará sempre uma aura de mistérios, de tentar inutilmente entender depoimentos tão trágicos e tão duradouros, como este, dois dias depois, de José Lins do Rêgo:

A Derrota

Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse de enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu o coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagada. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada tem a esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações. Não dormi, senti-me alta noite, como que mergulhado num pesadelo. E não era pesadelo, era a terrível realidade da derrota[iv].

Naquela tarde de 16 de julho de 1950, uma das grandes derrotadas foi a ideia, defendida por Mário Filho em O Negro no Foot-ball Brasileiro, de que o futebol contribuíra decisivamente na consolidação da democracia racial e para o processo civilizador brasileiro.

Depois da derrota, iniciou-se uma “caça às bruxas”: os dirigentes erraram ao mudar a concentração da equipe do isolado bairro do Joá para a movimentada instalação do Vasco da Gama em São Januário; as constantes visitas de jornalistas, políticos e curiosos à concentração nos dias anteriores à final; as palavras do prefeito do Rio de Janeiro Mendes de Moraes cobrando o título aos jogadores; a comemoração da conquista antes da partida final; o já mencionado “frango” do negro Barbosa; e tantas outras explicações. Porém uma se destacou nos momentos seguintes à derrota: a de que os brasileiros não tiveram a bravura e a coragem necessária para enfrentar os valetes uruguaios. O evento capital foi o “tapa na cara” que o capitão cisplatino Obdulio Varela deu em Bigode, zagueiro da seleção e também negro. Bigode era um atleta vigoroso, um “xerife”, daqueles que a bola passava, mas o atacante não. Até hoje é discutido se realmente foi um tapa na cara. O caso é que após o duvidoso evento, o atacante uruguaio Ghiggia conseguiu passar pelo beck todas as vezes que tentou. Foi dele o passe para Schiaffino empatar a partida e foi dele o gol da vitória da Celeste, sempre passando por Bigode. Nos anos seguintes, criticar Bigode e o goleiro Barbosa e enaltecer a bravura e a coragem do capitão Obdulio Varela passaram a ser uma constante. Muitos inclusive afirmavam que o jogador negro não possuía condições psicológicas para disputar um grande evento esportivo como uma Copa do Mundo. Os negros Bigode e Barbosa ficaram marcados para o restante de suas carreiras e de suas vidas como os responsáveis pela “vergonhosa derrota” no Maracanã. Eles foram acusados de medrosos, covardes, bêbados e outros tantos adjetivos. Depois, o técnico Flávio Costa ainda acrescentou um terceiro culpado, o negro Juvenal, por não ter feito a cobertura de Bigode quando Ghiggia atacava.

Anos depois Mário Filho reconheceu o fracasso de sua visão da sociedade e do futebol brasileiro: “A derrota do Brasil em 50, no campeonato mundial de futebol, provocou um recrudescimento do racismo. Culpou-se o preto pelo desastre de 16 de julho”. Desta forma, “aparentemente, O Negro no Futebol Brasileiro, por uma análise superficial, teria aceito uma visão otimista a respeito de uma integração racial que não se realizara ainda no futebol, sem dúvida o campo mais vasto que se abrira para a ascensão social do preto”[v].

Em 1954 iria acontecer uma nova Copa do Mundo, agora na Suíça. Seria uma nova oportunidade para a “reabilitação” do futebol brasileiro. A seleção não contava mais com o mesmo elenco da competição anterior. Craques como Zizinho, Ademir de Menezes, Jair Rosa Pinto e Danilo Alvim estavam ausentes. O único titular que continuou foi Bauer. A equipe possuía uma defesa mais qualificada, com Djalma Santos, Pinheiro e Nilton Santos; uma grande revelação no meio de campo, Didi; e um ponta direita fenomenal, Júlio Botelho. Mas, no conjunto, era inferior à equipe de 1950. Entretanto, a cobrança pelo título era muito maior. O “fantasma de Obdulio Varela” ainda assustava. “Será que os brasileiros vão se comportar sem bravura e brio nos campos da Suíça?” Era o que todos perguntavam. Iniciaram bem, com uma goleada de 5 a 0 sobre os mexicanos. Entretanto, no jogo decisivo da primeira fase, contra a equipe da Iugoslávia, não sabiam que bastavam empatar no tempo normal e na prorrogação para que ambos se classificassem. Os patrícios jogaram como nunca. Tentaram a todo custo evitar a prorrogação. Não conseguiram. Nos 30 minutos seguintes, estavam nervosos; e os iugoslavos tranquilos. Quando acabou o jogo, os brasileiros choravam. Teve que passar alguns minutos para que os organizadores esclarecessem que estavam classificados.

Entretanto, a alegria durou pouco. Através de sorteio ficou decidido que na próxima fase iriam enfrentar a forte equipe da Hungria. O time magiar era “o bicho papão” daquela época. Possuía craques como Puskas, Kocsis, Boszik, Lantos e Hidegkuti. Ganharam invictos os Jogos Olímpicos de 1952. Foram os primeiros a derrotarem os ingleses em Wembley, por 6 a 3 (1953); e na revanche, em Budapeste, venceram novamente por 7 a 1 (1954). Estavam invictos desde 1950. Na Copa, já haviam aplicado goleadas contra os coreanos (9 a 0) e os alemães (8 a 3). Dizem que, depois do sorteio, as lágrimas escorreram na concentração brasileira.

Foi uma partida difícil e equilibrada, onde os húngaros conseguiram ganhar por 4 a 2. Foi também muito violenta. Dois brasileiros e um húngaro foram expulsos. Após o fim do jogo ocorreu uma verdadeira batalha campal entre os atletas, com socos, pontapés, rasteiras e garrafadas. Nos vestiários, a confusão se estendeu para os dirigentes de ambas as equipes. A partida ficou conhecida como a “Batalha de Berna”.

Brasil x Hungria pela Copa do Mundo de 1954, a “Batalha de Berna”. Foto: Reprodução/DPA Press Association Images.

Nesta época, o jornalista Mário Filho, já afastado dos periódicos pertencentes a Roberto Marinho, concentrava seus esforços como cronista da revista Manchete Esportiva e como editor e jornalista do Jornal dos Sports. Neste último conseguiu montar uma equipe que contava, entre outros, com José Lins do Rêgo, Mário Pollo, Albert Laurence, Antonio Olinto, Manoel do Nascimento Vargas Netto, João Lyra Filho e Geraldo Romualdo da Silva, além de artigos esporádicos de Thomaz Mazzoni, geralmente sob a assinatura de “Olympicus”.

A equipe do Jornal dos Sports era bastante heterogênea. No mesmo número, o leitor poderia apreciar dois ensaios bem divergentes. Quando Barbosa foi considerado um dos principais culpados pela derrota de 1950, podíamos ver um debate acalentado entre Vargas Netto, que corroborava com a acusação, e José Lins do Rêgo, que procurava defendê-lo[vi]. Parecia que tal diversidade de interpretações era incentivada pelo próprio Mário Filho. Contudo, uma mesma mentalidade os unificava: a consciência da importância do futebol no processo civilizatório da sociedade brasileira.

No jornalismo esportivo carioca, Mário Filho ainda era a figura dominante. Porém, as derrotas da seleção brasileira nas Copas de 1950 e de 1954 haviam derrubado as narrativas construídas nas duas décadas anteriores, de que o futebol contribuíra decisivamente na consolidação da democracia racial. Era necessário explicar essas derrotas e entender o porquê dos brasileiros, mesmo jogando o melhor futebol do mundo, estavam fadados ao fracasso.

Para responder essa pergunta Mário Filho escreveu uma série de crônicas entre 1955 e 1958, que procurava explicar os fracassos nas Copas de 1938 e 1954, e, principalmente, a derrota em 1950, no Maracanazo[vii].

Para Mário Filho, estudar os problemas do futebol brasileiro era, na verdade, estudar os problemas da sociedade brasileira. E o que podemos notar é que, durante esse período, o jornalista construiu toda uma teleologia como estratégia de superar o fracasso do “16 de Julho” e o fracasso da sociedade brasileira enquanto democracia racial. Esta teleologia foi construída através de uma narrativa impregnada de elementos da ideologia messiânica judaico-cristã. Nela, dois aspectos se destacavam. Primeiro, a função soteriológica, o papel do redentor justo, atribuída por ele ao futebol na sociedade brasileira, com destaque para o jogador negro e mestiço. E, em segundo, a luta entre o bem e o mal, sendo que o mal não era externo ao brasileiro, não era um país ou uma seleção estrangeira. O inimigo era interno, era o próprio brasileiro, que precisava sublimar suas características negativas. O brasileiro tinha que purgar seus próprios erros, aprender com o seu próprio sacrifício para poder suplantar os obstáculos e atingir um novo grau de maturidade[viii].

Não era necessário negar o conteúdo anterior de O Negro no Foot-ball Brasileiro, de 1947. Apenas agora, deixava de ser uma linha evolutiva, ascendente, e lhe acrescentava uma mudança de rota, um obstáculo, uma provação, que não deveria ser evitada, porque era ela que enobrecia o ser humano. Uma provação que precisava ser suplantada para que os brasileiros adquirissem uma nova dimensão, qualitativamente superior[ix]. Era uma provação originada num pecado. E o pecado “descoberto” por Mário Filho era o costume do brasileiro de tripudiar o adversário e de comemorar a vitória antes do final da partida, numa total falta de respeito com o outro.

Para o jornalista, a fatídica derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950 ocorreu por causa deste pecado original. As razões podiam ser encontradas no jogo anterior, na maravilhosa vitória contra a equipe da Espanha por 6 a 1. Para muitos, foi o maior desempenho da seleção brasileira em qualquer época. Mas também foi o maior castigo. Até aquela vitória, o brasileiro temia La Furia, como eram chamados os espanhóis. Após o quarto gol, nas arquibancadas, duzentas mil pessoas começaram a cantar a marchinha Touradas de Madri. “Nunca respeitamos um derrotado. […] Ganhamos da Espanha cantando as Touradas de Madri. Os espanhóis ficaram esmagados. Menos pelos seis goals do que pelas Touradas de Madri[x]. Por causa do “Brasil versus Espanha”, três dias depois, na hora decisiva, quando o que estava em jogo era o título de campeão mundial, os brasileiros não tomaram conhecimento dos uruguaios. Ganhavam deles quase sempre. Não havia motivos a temer. Para atletas, dirigentes e torcedores, a seleção brasileira já era campeã.

Os uruguaios sabiam disso tudo. Estavam hospedados num hotel no bairro do Flamengo. Viam as manchetes dos jornais e ouviam o rádio. Quando saiam para almoçar, ouviam os comentários dos torcedores. Era humilhante demais. Para os brasileiros, era a festa antecipada. Tamanha falta de humildade só poderia ser punida com a derrota. Era o castigo a ser pago pelo pecado da soberba. Segundo o cronista, os brasileiros chegavam a se envergonhar de um a zero. “Friaça marcou um goal e todos nós exigimos mais um, mais um. Um a zero era pouco, queríamos outra goleada semelhante a da Espanha. De um certo modo precisávamos daquela lição de humildade”[xi].

Era preciso mudar a mentalidade esportiva do brasileiro.

(Continua…)

 

NOTAS:

[i] Naquela competição, quatro equipes se classificavam para disputar a fase final. Todos jogavam contra todos. A vitória representava 2 pontos e o empate, 1. A equipe que acumulasse mais pontos era declarada campeã mundial.

[ii] RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no Foot-ball Brasileiro. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Pongetti, 1947. No livro, o autor mostrava, de forma explícita a influência de Gilberto Freyre e da ideologia da “democracia racial”.

[iii] Os uruguaios já haviam sido campeões mundiais em 1930 e bicampeões olímpicos em 1924 e 1928.

[iv] RÊGO, José Lins do. A derrota. Jornal dos Sports, 18 jul. 1950, p. 5.

[v] RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro, 2ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964, p. XIX-XX. Alguns pesquisadores argumentam que nas reportagens do período, o que mais se enfatizava era a dignidade da torcida brasileira que aceitou a derrota civilizadamente, não havendo qualquer alusão às suas características raciais. Ver: MOURA, Gisella. O Rio Corre para o Maracanã. Rio de Janeiro: EdFGV, 1998, p. 144-146. Por outro lado, podemos contra-argumentar que, em 1950, estava-se vivendo um momento em que os discursos explicitamente racistas já tinham perdidos a sua hegemonia. Obras referenciais da envergadura de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, a adoção de toda uma engenharia educacional e cultural montada pelo Estado durante o Primeiro Governo Vargas (1930-1945) e a derrota na Segunda Guerra Mundial de países e de visões de mundo que faziam apologia do racismo ajudam a explicar a decadência de tal paradigma. Porém, se o discurso racista não era mais hegemônico, isso não quer dizer que o racismo no Brasil fora extirpado. Ele apenas mudou de tom, passou a ser mais subentendido, mais hipócrita. Como exemplos de artigos que respondiam às atitudes racistas na época, ver: NASCIMENTO, Álvaro. Uma pedrinha na shooteira. Jornal dos Sports, 22 jul. 1950, p. 10; e MAZZONI, Thomaz. Os leigos perante os acontecimentos do campeonato mundial. A Gazeta Esportiva, 27 jul. 1950, p. 3.

[vi] Ver: VARGAS NETTO, Manuel do Nascimento. Minuto obscuro. Jornal dos Sports, 19 jul. 1950, p. 5; e RÊGO, José Lins do. Bigode e a torcida flamenga. Jornal dos Sports, 21 jul. 1950, p. 5.

[vii] Ver: ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. Com Brasileiro, Não Há Quem Possa! Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: EdUNESP, 2004.

[viii] Ver: SOUZA, Denaldo Alchorne de. Pra Frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, a dialética da ordem e da desordem (1950-1983). São Paulo: Intermeios, 2018, p. 53-85.

[ix] Não por um acaso que um dos capítulos acrescentados por ele era intitulado “A provação do preto”.

[x] RODRIGUES FILHO, Mário. O horror ao vice-campeonato. Jornal dos Sports, 30 mai. 1958, p. 5.

[xi] RODRIGUES FILHO, Mário. O bom 16 de julho. Jornal dos Sports, 10 mai. 1958, p. 5.