87.7

Marta = Leônidas da Silva (“Ninguém é igual a ninguém”)

Luis Eduardo Veloso Garcia

Odeio esse tipo de comparação (a correspondência da mulher por um homem da mesma área) porque ela soa muito mais diminuição do comparado do que louvação do seu talento (Simone Biles nos ensinou maravilhosamente isso nas Olimpíadas: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Eu sou a primeira Simone Biles”), no entanto, acho necessária neste caso para entendermos que o futebol feminino se encontra atualmente no mesmo pé (todo quebrado!) em que se encontrava o futebol masculino na década de 1930, e isso diz muito sobre as situações que Marta vai enfrentar – e que Leônidas enfrentou.

Sem dúvida o maior craque do nosso futebol na década de 30 e 40, Leônidas da Silva – o “Diamante Negro” – foi um gênio daqueles que fazia mágica por onde passava, considerado o inventor da bicicleta (quer jogada mais mágica que essa? Existe polêmica sobre o criador da jogada, mas com o “Diamante Negro” ela era muito mais incrível, com toda certeza!) e, segundo um dos maiores goleiros de todos os tempos, o monstruoso Oberdan Cattani, “foi maior que Pelé”.

Onde Marta e Leônidas se encontram então? Simples, na enorme dificuldade das décadas iniciais de seus esportes em considerarem válida a profissionalização (eis a palavra-chave!). Assim como Marta, Leônidas fazia chover com a camisa da seleção brasileira – a ponto de ser artilheiro com atuações absurdas no quase-impossível terceiro lugar do Brasil na Copa de 1938 –, no entanto, era obrigado a ver o futebol em seu país sem nenhuma garantia profissional, em que seus praticantes passavam por situações precárias para jogarem o esporte que tanto amavam.

Mario Filho apontou em seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro” que sem a mágica de Leônidas a profissionalização desse esporte – que aconteceu após diversos episódios na década de 30, e se consolidou na década de 40 – no Brasil não seria uma realidade… E agora chegamos a Marta: pensando no recorte em que o futebol feminino é praticado no país (com mais força da década de 90 para cá), os períodos em que o futebol masculino foi praticado por Leônidas se assemelham (começando no país por volta de 1900, mas ganhando mais corpo depois da década de 1910).

Rio de Janeiro- RJ- Brasil- 16/08/2016- Olimpíadas Rio 2016- Futebol Feminino- Brasil e Suécia. Foto: Ministério do Esporte

Marta em partida nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Foto: Ministério do Esporte.

Se equivalem na mágica… se equivalem nos conflitos de um mesmo recorte temporal em suas práticas… E se equivalem, principalmente, em serem responsáveis por uma problematização muito necessária sobre a profissionalização neste esporte. Sem a mágica de Leônidas, um milagre como Pelé não teria acontecido (ou como falava o próprio Diamante Negro sobre Pelé, “Qual a diferença entre mim e Pelé? É simples. Eu fui craque e ele, gênio”).

Sem a força simbólica de Leônidas, pensar a profissionalização no futebol masculino parecia piada.

Somente com a força simbólica da magia de Marta pudemos enxergar o quanto a exigência da profissionalização do futebol feminino se faz urgente e necessária (e o maior erro é acreditar que essa profissionalização passa pelo absurdo horrendo da “seleção permanente”, precisamos tirar essa ideia urgente da cabeça!).

Para essa força simbólica transcender, precisamos também colaborar, pois um dos principais meios para a profissionalização passa pela formação de público (encarar o esporte sim como produto no qual precisa ter demanda de público em sua existência – a CBF é muito canalha para continuar mantendo de graça um campeonato que não dê retorno, sem contar que somente com retorno de público os patrocínios podem acontecer para os times).

A Marta precisa que o público que tanto a admira se torne presente nos campos dos outros times femininos que jogam a Copa do Brasil Feminina (campeonato que acontece agora) e o Campeonato Brasileiro Feminino assim como o público que se apaixonou por esse esporte no Brasil ao ver o brilho do “Diamante Negro”.