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“Matutos, mas campeões”: a história por trás da manchete

Phelipe Caldas

Jornal Diário da Borborema de 30 de maio de 2006. Foto: Reprodução/Diário da BorBorema

O Campeonato Paraibano de Futebol de 2006 foi decidido por Treze e Botafogo-PB, dois dos maiores clubes do estado.

A partida decisiva foi realizada num domingo, 28 de maio daquele ano. Dentro do Estádio Amigão, em Campina Grande, casa trezeana, que estava lotada.

Não era um jogo qualquer. Não era um jogo entre apenas duas equipes. Era, acima de tudo, um duelo entre cidades, entre a capital e a segunda maior cidade paraibana, entre dois povos, entre alteridades muito bem postas naquele contexto específico.

O Galo, apelido do Treze em alusão ao Jogo do Bicho, era o atual campeão e defendia a hegemonia estadual. O Belo, o rival, havia vencido a partida de ida realizada na capital João Pessoa e jogava pelo empate.

Foi uma batalha. Uma guerra enfurecida. Um conflito épico. Daqueles jogos em que o objetivo, mais do que vencer, é destroçar com fúria o adversário, humilhar e subjugar o outro. Daqueles jogos em que o campo incendeia a arquibancada. A arquibancada incendeia o campo.

Você, leitor, está autorizado a usar quantos termos hiperbólicos e bélicos quiser para descrever aquela partida. Não estará exagerando. Eu mesmo estava no estádio naquele fim de tarde de domingo, ocupando o setor de arquibancada destinada aos visitantes. Foi difícil chegar, foi tenso permanecer, quase impossível sair.

No fim, o Treze venceu por 2 a 1. Sagrou-se bicampeão paraibano. E, na edição seguinte, que saiu apenas na terça-feira (30), o extinto Diário da Borborema, de Campina Grande, estampava em manchete de capa:

“MATUTOS, MAS CAMPEÕES”.

Para entender essa manchete é importante voltar um pouco no tempo.

O Treze havia vencido o primeiro turno do campeonato. Se vencesse o segundo, seria campeão direto. Mas foi o Belo quem, no dia 21 de maio, venceu o segundo turno. E derrotando justamente o Galo na decisão.

Haveria, assim, mais dois jogos decisivos, que definiria o título do campeonato, mais uma vez entre as equipes das duas cidades. O primeiro aconteceria em João Pessoa, no meio de semana; o segundo aconteceria em Campina Grande, já no domingo seguinte, o tal 28 de maio sobre o qual já falei.

Mas foi nesse jogo do dia 21 que aconteceu toda a celeuma. Quando o título do turno já parecia certo, torcedores do Botafogo-PB começaram a gritar em uníssono: “Matuto! Matuto! Matuto!”. O alvo eram os trezeanos.

O técnico trezeano Maurício Simões (que morreu em outubro de 2011) não gostou. Ao fim do jogo, em entrevista coletiva, disparou, fazendo alusão ao fato de ser natural do Recife, a capital pernambucana que fica a apenas 120km de João Pessoa: “Não me venha chamar o povo de Campina Grande de matuto, porque o povo de Campina Grande não é matuto. Quando eu quero comer goiaba, chupar manga e chupar laranja, eu vou para João Pessoa, que é o quintal da minha casa” (caso queira, assista ao vídeo aqui).

Maurício Simões era conhecido como Rei do Nordeste. Foto: Divulgação / Treze

O golpe foi certeiro. Afinal, a mesma relação de opressão e superioridade que o torcedor de João Pessoa tenta impor contra o torcedor de Campina Grande é aquela que o de Recife tenta impor contra o de João Pessoa. Em ambos os casos, claro, há reações. Mas, como já dito, foi cirúrgico. Os pessoenses, mais do que apenas os botafoguenses, sentiram o impacto do golpe.

A declaração ganhou repercussões inimagináveis. A notícia sobre o jogo, antes reservada aos programas esportivos, chegou também aos programas políticos de rádio e de TV. Alguns mais exaltados ameaçavam levar a questão para a justiça. E o caso foi parar até mesmo na Câmara Municipal de João Pessoa, que aprovou um título de “persona non grata” contra Maurício Simões. Tudo isso na semana que antecedia os jogos derradeiros. Tudo isso sendo canalizado para dentro do campo de jogo das partidas que ainda estavam por vir.

De forma que, quando o título do Treze enfim foi confirmado, em meio a partidas brigadas e extremamente acirradas entre um lado e outro, tudo foi resumido naquela manchete histórica. E, se querem saber, eu, sendo editor do jornal, ainda teria sido mais ousado, optando por “Matutos, e campeões”.

A polissêmica figura do matuto no imaginário do torcedor paraibano 

O matuto é uma figura recorrente no imaginário do nordestino. Não seria diferente com o paraibano. Segundo a versão eletrônica do dicionário Houaiss, chama-se de matuto “o indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social”, aquele que é “caipira, roceiro, jeca”. Ou ainda aquele que “não tem conhecimentos”, que é “ignorante, ingênuo”.

“Matuto”, portanto, é ofensivo na maioria dos contextos. E certamente foi gritado como xingamento quando proferido por botafoguenses em direção a trezeanos.

Mas a questão não é tão simples como pode parecer a princípio.

Porque a figura do matuto, não raro, está ligada também à ideia de resistência, de bravura, de coragem, de sobrevivência em meio à adversidade. É o homem do campo, do Sertão, é o sertanejo que enfrenta a seca, as altas temperaturas, a pobreza. Que enfrenta tudo isso com dignidade e honestidade.

São idealizações, afinal. Construções sociais. Contextos. Alteridades.

O matuto é como o personagem Fabiano, de “Vidas Secas”, de autoria de Graciliano Ramos. Um sobrevivente. Sofredor, acima de tudo. Que resiste e seguirá resistindo enquanto tiver forças. Ou, na clássica frase de Euclides da Cunha, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Não é por acaso que a figura do cangaço seja tão positivada no imaginário de muitos dos nordestinos de hoje em dia. Não é por acaso que personagens como Lampião e Maria Bonita ganhem status de heróis na região. Não é por acaso que a Copa do Nordeste, apenas para dar um exemplo futebolístico, seja poeticamente apelidada pelos nordestinos de “Lampions League”.

Portanto, numa perspectiva antropológica em que as identidades são sempre dinâmicas e nunca poderão ser pensadas como estáticas ou definitivas, em que é o “outro” quem define quem você é naquele instante específico, a figura do matuto vai ter significados tão diversos quanto possível.

Então, retornando à questão inicial, o mesmo trezeano que se ofende com o grito de “matuto” do botafoguense, por exemplo, é aquele que “xinga” o torcedor do Sousa, do Nacional de Patos ou do Atlético de Cajazeiras (todos clubes do Sertão paraibano) de “matuto”. E é o mesmo trezeano que, como o passar dos anos, ressignificou o ser matuto a ponto de começar a cantar no estádio, em jogos contra o Belo (e apenas contra o Belo, me parece), um grito de “Ah, eu sou matuto!”.

O mesmo acontece com o botafoguense. Os xingamentos de “matuto” contra os torcedores de Campina Grande não cessaram com o passar dos anos. Mas em 2018, quando acompanhei cerca de 400 torcedores do Belo até Ribeirão Preto, para assistir a um jogo do time pessoense contra o Botafogo-SP que valia vaga na Série B do Brasileirão, o ser nordestino, ser sertanejo, ser matuto, para além das divisas da região, ganhava uma perspectiva completamente diferente. Essa, positiva.

Não eram poucos os torcedores do Belo usando o chapéu de couro típico dos matutos, ressaltando suas origens nordestinas e a força de um futebol que resiste apesar das (muitas) dificuldades e da opressão que vem de fora.

Tão acostumado a tratar “matuto” como xingamento, estavam eles mesmos vestidos de matutos. Talvez, parafraseando Euclides, levavam no coração aquela ideia arraigada de que o botafoguense, também ele, é, antes de tudo, um forte.

Os matutos do Belo: em alguns contextos, o termo ganha um significado positivo. Foto: Phelipe Caldas

 

Referências

CUNHA, Euclides da. Os Sertões [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa [online]. Rio de Janeiro, Houaiss, 2009.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2013.


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