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Memórias da infância e da adolescência e olhares sobre o esporte e a política pública: como as mulheres entram em campo?

Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa

Nos últimos quatro anos, em virtude de minha atuação profissional vinculada a um Programa de Esporte e Lazer, da Prefeitura de Belo Horizonte[i], tenho me aproximado do cotidiano de um campo de várzea da regional Norte da cidade. Essa trajetória tem evidenciado alguns aspectos interessantes relativos ao universo do futebol e da relação dos moradores com o campo.

Além de se constituir como locus para a prática do futebol, também é utilizado pela população para outras atividades corporais: treinamento físico, caminhada, corrida, andar de bicicleta e para as brincadeiras das crianças. Potencialmente utilizado para o esporte e a brincadeira, destaca-se ainda como espaço de lazer para os moradores da região, em especial do bairro em que está localizado. Algumas formas de uso são percebidas tanto durante a semana, quanto aos finais de semana, sendo possível identificar a sua utilização para encontros de amigos e namorados; para a realização de algumas festividades; point de encontro de adolescentes e jovens para as resenhas[ii] antes ou depois dos jogos e dos treinos; espaço em que grupos de torcedore(a)s e jogadores organizam churrasco ao lado do campo; e por algumas vezes, torna-se residência temporária de moradores de rua.

Essa proximidade com o cotidiano desse campo de várzea evidenciou um aspecto que eu já havia identificado, anteriormente, nos atendimentos realizados por nossa equipe nas aulas da Escola de Futebol: a presença reduzida do público feminino. Ainda que na política pública desenvolvida pela Prefeitura esse público fosse alvejado, efetivamente, quando observamos os dados dos relatórios produzidos entre os anos de 2015 e 2018, é perceptível que o atendimento das meninas no campo é baixo, se comparado ao número de inscritos nas atividades.

Tenho refletido sobre os fatores que podem impulsionar esse panorama de distanciamento das mulheres em relação ao universo futebolístico (e por que não dizer do universo esportivo?). Arrisco dizer que os aspectos relacionados à cultura são marcantes para impulsionar essa situação, em especial aqueles relacionados à aceitação e à negação da presença e da permanência das mulheres no campo – o que, como e quando podem estar nele.

Na semana passada, ao participar de uma formação, revisitei a minha infância e adolescência. Estava em um grupo de quatro mulheres e identificávamos quais as brincadeiras que fizeram parte de nossa infância. Fazendo o exercício coletivo, identificamos muitas brincadeiras e práticas corporais que perpassaram o nosso brincar naquele período. Brincando na rua ou em casa, na escola ou fora dela, com meninos e meninas, ou só entre meninas, muitas eram as brincadeiras e os jogos que brincamos e jogamos. Esse exercício despertou memórias que me acompanharam nos últimos dias.

Vamos ocupar o espaço vazio. Foto: Luciana Cirino.

O refletir sobre as memórias de infância evidenciou que, apesar de não ter aparecido no grupo das quatro mulheres, entre sombras e visibilidades[iii], entre proibições e consentimentos, as brincadeiras relacionadas ao universo do futebol fizeram parte da minha infância e adolescência, com brincadeiras como chutar latinha voltando da escola, jogar paulistinha e disputar com meus irmãos a bandeira de qual time ficaria pendurada no alto do padrão de luz. Contudo, lembro-me de que eu fazia parte de uma pequena parcela das meninas que brincavam ou praticavam de algum modo o futebol. Eu fazia parte de uma pequena parcela de meninas que queriam jogar, correr, fazer gol! Éramos a resistência pink (e poderia ser também azul, roxa, verde, da cor que qualquer uma quisesse). E isso tinha um preço, dentro e fora de casa: apelidos, xingamentos e constrangimentos (memórias que dariam outro texto!). Reflexos de uma sociedade pouco favorável à presença das mulheres no futebol.

Na adolescência, ainda que o universo de possibilidades de práticas esportivas tenha se expandido, agregando por exemplo, o voleibol, a peteca e o atletismo às modalidades corriqueiras que eu realizava, o futebol continuava como um desafio. Tanto na escola quanto na rua ainda era difícil jogar, em especial constituir grupos com mulheres. Analisando o cotidiano do campo em que desenvolvemos a escola de futebol (vinculada à política municipal de esporte e lazer), verifico que essa situação se modificou pouco nos dias atuais. As barreiras para o acesso das mulheres ao futebol permanecem.

Pois bem, compreendendo o esporte e o lazer como direitos sociais, para todos e para todas, e o Estado como possibilidade de fomentá-lo, destaca-se a importância de pensar em que medida a política de esporte e lazer será traçada no âmbito do governo federal, a partir de 2019. Haverá lugar para as mulheres? Haverá lugar para a liberdade, independente de sexo, orientação sexual, crenças religiosas e ideologias partidárias? É possível que o formato da política adotada tenha desdobramentos nos estados e nos municípios brasileiros.

Espero que tenhamos possibilidades de avançar, de corrigir as desigualdades que ao longo das últimas décadas ainda não conseguimos modificar, inclusive as relacionadas ao acesso das mulheres ao esporte. Essa pode ser uma das contribuições que as políticas públicas de esporte e lazer podem ter na oferta e no estímulo da presença de mulheres no universo esportivo – desde a infância até a vida adulta.

E que nos lembremos de rememorar as trajetórias vividas individual e coletivamente, não só no esporte, mas em nossa sociedade de modo geral. Quem sabe assim, tenhamos possibilidades de trocar os calçados de salto, os chinelos, as sandálias e os pés descalços pelas chuteiras. Sem medo, sem ressentimentos e sem preconceitos: ocupar o espaço vazio!


[i] Para conhecer os Programas e Projetos executados pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de Belo Horizonte – SMEL/PBH, acesse: https://prefeitura.pbh.gov.br/esportes-e-lazer. Acessado em: 17 dez. 2018.

[ii] A palavra resenha era utilizada com frequência entre os adolescentes que jogavam futebol no campo e servia para indicar as conversas que realizavam após os jogos ou as festas que participavam.

[iii] O artigo publicado por Silvana Vilodre Goellner, intitulado “Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades”, contribui para refletirmos sobre os desafios e os enfrentamentos da participação de mulheres nos esportes, entre os quais, o futebol. Para ter acesso na íntegra: GOELLNER, Silvana V. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 19, n. 2, p. 143-151, 1 jun. 2005.