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Memórias do bairro de St. Pauli e identidade torcedora: a formação de uma “Antifa Area”

João Manuel Casquinha Malaia Santos

St. Pauli, 2019. Foto: João Malaia.

Sempre procurei observar a interação do ser humano no tempo e no espaço. Pensar como este espaço é transformado e transforma homens e mulheres. E por isso, em quase todos os meus trabalhos, procuro aprofundar a investigação sempre relacionando a ação humana no passado ao espaço em que a mesma se desenvolve.

E já que este é segundo texto sobre o F.C. St. Pauli, mas o primeiro que busca aprofundar um pouco este clube de futebol, nada mais natural que eu comece as reflexões partindo para a análise do espaço em ele está inserido. O que é St. Pauli? Qual a sua história, aquela que mostra os primórdios da ocupação humana naquele local? Que influências tiveram as pessoas que ali moraram, trabalharam ou simplesmente passaram por ali? Que atividades se desenvolveram naquela região? O que dessas histórias permanece cristalizado na memória dos moradores do bairro, principalmente os torcedores do F.C. St. Pauli? Qual a ligação dos torcedores e do clube com o bairro? O quanto a história do bairro influencia torcedores e dirigentes do clube?

Todas estas perguntas estão longe de encontrar uma resposta definitiva. Muito menos neste texto. O que procurei foi ter estas perguntas em mente para guiar minha visita ao bairro e ao clube. E o que passo aqui são algumas das respostas que consegui formular a partir desta experiência.

Como o assunto é a relação do clube com o bairro, esta relação já se apresenta na escolha do nome do clube. O F.C. St. Pauli escolheu como nome o mesmo nome do seu bairro. Portanto, neste texto, St. Pauli é o bairro. F.C. St. Pauli é o clube.

St. Pauli, 2019. Foto: João Malaia.

Fiquei três dias em St. Pauli. Como coloquei no primeiro texto, minha ideia era ficar hospedado no bairro, andar por lá com Maarten (morador local e torcedor do F.C. St. Pauli), falar com todas as pessoas que pudesse do clube e, claro, ir ao jogo. Além disso, tirei algum tempo para caminhar sozinho. Tentar conversar com algumas pessoas, observar os grafites, os adesivos colados nas paredes, nas janelas, nas portas, nas placas e nas latas de lixo. Observar as lojas, o interior do bairro, as praças, as pessoas. Ver os punks na Reeperbahn pedindo: “Coins for joints”.

Com Maarten, tive a oportunidade de ter as conversas um pouco mais aprofundadas sobre o bairro. Ele me chamava a atenção por constantemente me lembrar que aquele bairro tinha uma história de luta contra a opressão, desde sua ocupação. Mostrava que esta característica do bairro estava profundamente enraizada nos torcedores do F.C. St. Pauli. Ao menos nos grupos de ultras e nos torcedores mais próximos do pensamento que o clube vem defendendo nos últimos anos. “Nós crescemos fora dos muros da cidade”.

Essa frase é importante para entender a identificação entre os torcedores com o passado de seu local de moradia e com o clube que carrega consigo a bandeira das lutas progressistas.

A partir do século XVI, no local onde hoje está o bairro de St. Pauli, foi permitido que algumas pessoas se fixassem. Aquelas dispostas a viver “fora dos muros da cidade”, além do Hamburger Millerntor (portão da cidade), portanto menos protegidas. St. Pauli cresceu fora dos muros da cidade, sua população mais antiga sofreu por séculos a discriminação por parte de quem vivia dentro dos muros. Por ser uma região mais alta, tinha o nome de Hamburg Berg, que manteve até 1833.

Foi neste primeiro povoado que se inaugurou uma igreja simples e em homenagem a São Paulo, a St. Pauli Kirche, em 1682. Este primeiro mapa, datado do século XVI ou XVII, mostra as muralhas de Hamburgo ainda não circulando toda a cidade e o início da ocupação de Hamburger Berg: fora dos muros, ao lado da entrada e ainda totalmente voltada para as atividades agrícolas.

Algumas atividades econômicas se desenvolveram na região, como as manufaturas de óleo e de cordas. Por ser uma região com espaço, os trabalhadores que faziam cordas para embarcações passaram a usar a maior via que dava acesso àquela região para fazer seu produto. Podiam esticar a corda com mais facilidade e em uma via paralela às docas. Daí o nome da famosa avenida do bairro, Reeperbahn. Havia também extração de areia e de pedras para construções em Hamburgo. 

No início do século XVIII, as muralhas já estavam totalmente terminadas. Há apenas a entrada de Millerntor. Neste mapa de 1705 é possível observar algumas mudanças: o aparecimento da Reeperbahn e o maior isolamento entre Hamburgo e Hamburger Berg. Podemos ver também ao lado de Hamburger Berg o povoado de Altona.

No século XIX, os habitantes de Hamburger Berg ainda sofriam discriminação por parte dos administradores e habitantes da parte interior da cidade. Mesmo com a incorporação a Hamburgo, em 1833, e com a mudança de nome para Vorstadt St. Pauli (Subúrbio St. Pauli), A região continuou isolada da cidade até a segunda metade do século XIX. Os moradores de St. Pauli tinham que pagar taxas de entrada e saída, além de impostos de consumo e para vender. No período da noite, o Hamburger Millerntor era fechado para proteção de quem morava na parte de dentro. 

Mapa de 1813. Cidade toda murada e Hamburger Berg totalmente isolada.

Em mapa datado de 1813, podemos ver a região de Hamburger Berg isolada da cidade pelos muros, a Reeperbahn e a entrada do Millerntor. Podemos observar que a região se desenvolvia às margens do Rio Elba, na entrada da cidade. Este isolamento e a falta de proteção devem ter operado de maneira a estreitar laços entre a comunidade, ainda mais se tratando uma região portuária e à entrada do portão da cidade.

No detalhe, aproximando o mapa, podemos observar a Reeperbahn já constituída como grande via de acesso à cidade e a estreita entrada da cidade, o Millerntor. A Reeperbahn foi sendo constituída não apenas como espaço para a manufatura das cordas, mas agora como importante via de acesso ao povoado de Altona.

Nas guerras napoleônicas, por exemplo, o exército francês atacou duramente Hamburgo durante os anos de 1813 e 1814. St. Pauli foi incendiada e a St. Pauli Kirche pegou fogo sendo praticamente destruída. Parte de sua reconstrução foi realizada com as indenizações pagas pela França no pós-guerra. Mas só em 1864 teve toda a sua estrutura finalizada, com a inauguração da torre principal.

S. Pauli Kirche. Foto João Malaia

Em 1842, um outro incêndio destruiu centenas de casas, mas desta vez dentro dos muros. O acidente fez com que um número elevado de pessoas procurasse viver em St. Pauli, pelo fato de ser uma região de valores imobiliários mais baixos. Com a abertura dos portões, em 1860, mais pessoas passaram a procurar a região para morar e para frequentar.

Além disso, o século XIX foi palco de uma enorme transformação no movimento do porto de Hamburgo e isso trouxe um número elevado de trabalhadores para St. Pauli: trabalhadores das docas, dos navios, dos inúmeros bares, para além de pessoas ligadas aos negócios de prostituição. Este crescimento do bairro é perceptível na evolução do número de habitantes entre 1811 e 1880, principalmente se comparado com o crescimento populacional da cidade.

Em Hamburgo, a taxa de crescimento entre 1811 e 1880 foi de de 59% e a população aumentou de 107.000 para 170.885. A taxa de crescimento de St. Pauli no mesmo período foi de 625%. A população do bairro saltou de 7.700 para 55.882 habitantes.

Neste mapa, de 1895, já podemos ver duas vias de acesso a St. Pauli, mostrando uma mudança crucial para a história da região. Uma saída pelo antigo Millerntor, ligando com a Reeperbahn. A outra, mais ao sul, quase encostada na margem do Rio Elba. Para se ter uma ideia, o estádio do F.C. St. Pauli fica cerca de 500 metros da Reeperbahn ao norte, praticamente de frente para onde era a entrada do Millerntor. 

As duas entradas da cidade ao lado de St. Pauli e a localização atual do estádio. O mapa é de 1895, portanto, ainda não existia o estádio.

O aumento do movimento nas docas. Uma população maior. Uma região que não era mais isolada da cidade. Um fluxo maior de pessoas que viviam em Hamburgo em direção a St. Pauli em busca da noite que passava a ficar famosa. Este movimento atraiu empresários que passaram a investir mais e mais nesse setor. St. Pauli ia se tornando um “red light district”, um distrito “da luz vermelha”, fazendo alusão à prática de prostituição. No excelente livro de Victoria Harris, Selling Sex in the Reich: Prostitutes in German Society (1914-1945), St. Pauli é apresentada como uma das principais zonas de prostituição da cidade de Hamburgo e da própria Alemanha. Resultado de imagem para Selling Sex in the Reich: Prostitutes in German Society (1914-1945)

Entre 1895 e 1896, a região enfrentou pesadas greves dos trabalhadores das docas, exigindo que o governo alemão construísse melhores moradias em St. Pauli. Tal movimento levou a um projeto de demolição de casas feitas de madeira para a construção de moradias populares de concreto. Assim St. Pauli começava sua entrada no século XX. O projeto foi interrompido em 1914, com a I Guerra Mundial, já com o F.C. St. Pauli em atividade desde 1910.

Uma das comunidades que chegou a ser bastante numerosa no início do século XX em St. Pauli foi a de cheineses. St. Pauli chegou a ter uma Chinatown, mas durante o regime nazista muitos foram presos e enviados para campos de concentração. Mais uma história de opressão a minorias que o bairro enfrentou. Ao final da guerra e com a destruição da cidade de Hamburgo, toda a cidade foi remodelada e St. Pauli também teve impactos neste novo período da cidade.

St. Pauli, 2019. Foto: João Malaia.

Um novo plano de ruas, avenidas e de áreas urbanas foi pensado. Nas docas, a chegada dos navios de containers diminuiu muito o número de trabalhadores. A indústria da corda também deixou de existir e o bairro passou a ter grandes problemas quanto à geração de emprego, tendo um período de declínio acentuado de população. Entretanto, não deixou de ser um centro de lazer e de expansão do mercado de entretenimento. Não podemos nos esquecer, por exemplo, que foi em St. Pauli que os Beatles deram seus primeiros passos na carreira, em história que vamos explorar em outro artigo.

Os anos 1970 e 1980 trouxeram a recuperação do bairro. De acordo com, Mirja Striedieck, em seu mestrado “Causes, developments and consequences of gentrification processes: A case study of the urban district of Hamburg-St. Pauli” (2012), entre 1970 e 2008, St. Pauli fez parte de seis projetos de regeneração de prédios e residências antigas. A partir daí, a autora conduz uma série de entrevistas a moradores e trabalha com dados estatísticos para mostrar um processo de gentrificação do bairro. O trabalho de Mirja Striedieck foi de extrema importância para o levantamento do histórico do bairro apresentado até aqui.

St. Pauli, 2019. Foto: João Malaia.

Para esta minha trajetória, toda a reflexão começou com uma frase de Maarten, falada em frente ao Millerntor-Stadion, o lindo estádio do F.C. St. Pauli. Ao me falar que St. Pauli havia sido formada “fora dos muros da cidade”, ainda apontava para a região de frente para o estádio e dizia: “Ali ficava o Hamburger Millerntor, o portão da cidade. Eles não existem mais. O que existe aqui agora é outro Millerntor, o Millerntor-Stadiom”.

Ao longo de todo o tempo que estive com Maarten e nas várias andanças por St. Pauli, ele contou sobre a história dos excluídos da cidade. Dos imigrantes chineses sendo perseguidos pelo nazismo e das prostitutas que sempre souberam que ali poderiam trabalhar. De vários grupos de trans de vários lugares do mundo (inclusive do Brasil) que passaram a procurar as ocupações do bairro como moradia segura e ponto de passagem para outros lugares da Europa. Do acolhimento aos grupos marginalizados, como os punks e artistas de rua.

Esta história de St. Pauli e sua cristalização na memória de inúmeros moradores do bairro ajudam a criar um ambiente de tolerância. Por todo o lado vemos adesivos e grafites “ANTIFA AREA”, ou como a bandeira pendurada na janela: “FUCK YOUR NATIONAL IDENTITY”. E isto se reflete na atitude de grupos que apoiam as ocupações (squatts), principalmente de refugiados, que procuram abrigo justamente em St. Pauli.

Em 2017, Pierpaolo Mudu e Sutapa Chattopadhyay editaram um livro com o título Migration, Squatting and Radical Autonomy, uma colaboração de vários autores e autoras que se propuseram a analisar diferentes experiências de ocupações de prédios abandonados com grupos de refugiados na Europa. Simone Beate Borgstede  escreveu o capítulo “We are here to stay: Reflections on the struggle of the refugee group “Lampedusa in Hamburg” and the Solidarity Campaign, 2013–2015. A autora mostra como uma campanha de solidariedade comoveu a população do bairro que convivia com grupos sociais que não detinham os mesmos direitos enquanto cidadãos. Resultado de imagem para Migration, Squatting and Radical Autonomy

Em certo momento do texto, Simone Borgstede fala sobre o bairro em que a ação decorre: “O que faz de St. Pauli um local tão importante? St. Pauli sempre foi uma parte da cidade onde diferentes regras foram seguidas. Vivendo do lado de fora dos muros da cidade, seus habitantes nunca foram reconhecidos como cidadãos com direitos iguais. A população de St. Pauli é heterogênea”. Na sequência de seu capítulo, mostra como as experiências de imigrantes do bairro com perseguições por parte de torcedores nazistas os aproximou dos grupos ultras antifascistas do St. Pauli, os Ultras St. Pauli (USP).

Outro autor que se dedica a refletir sobre as diferentes características de St. Pauli é Peter Birke, no capítulo Right to the City—and Beyond: The Topographies of Urban Social Movements in Hamburg, publicado no livro Urban Uprisings: Challenging Neoliberal Urbanism in Europe (2016), editado Margit Mayer, Catharina Thörn e Håkan Thörn. Birke afirma que “Hamburgo é talvez o mais espetacular exemplo de constituição de uma rede pelo direito da cidade que emergiu na base de inúmeros conflitos trazidos pelas políticas governamentais de neoliberalização”. Esta rede envolveu nos últimos anos novas alianças entre camadas mais pobres moradoras do bairro, refugiados, ativistas de classe média e comunidades “squatter” (de ocupações). Resultado de imagem para Urban Uprisings Challenging Neoliberal Urbanism in Europe

Nas conversas com o presidente Oke Göttlich e com o diretor do museu Sönke Goldbeck, o mesmo assunto veio à tona: a história do bairro, o vínculo com a comunidade, uma volta ao que foi o futebol em seu início, pelo menos em algumas tentativas concretas. O clube já organizou festivais musicais para arrecadar dinheiro para as ocupações de refugiados e ajuda a Fanladen a manter a equipe do F. C. Lampedusa.

O fato de Hamburger Berg, depois St. Pauli, ser uma região que cresceu às margens e isolada da parte interior da cidade, com uma população que não compartilhou dos mesmos direitos de quem vivia do lado de dentro dos muros, de certa forma se cristalizou em determinados grupos de moradores do bairro. Estes eventos do passado adentraram na memória social e acabaram auxiliando na criação de um ambiente de tolerância e de acolhimento dos diferentes.

St. Pauli, 2019. Foto: Maarten Thiede.

A partir daí, podemos pensar na operação que a memória realiza na comunidade de St. Pauli e de que maneira esta memória está influenciando torcedores que defendem pautas progressistas e até mesmo legitimando o seu discurso. Ao incorporarem o fato de que estão de certa forma conectados com as experiências do passado de um povo que viveu e se consolidou na região fora dos muros, muitos moradores passam a agir a partir da defesa de toda e qualquer pessoa discriminada e sem os mesmos direitos de quem está dentro de qualquer tipo de muro.

O muro não existe mais fisicamente, mas permanece vivo, simbolizando as marcas de todo e qualquer tipo de segregação. A observação do passado na longa duração e o estabelecimento de raízes com este passado são marcas de St. Pauli. Esta parece ser a dinâmica atuando quando torcedores e diretores do clube abraçam causas que nenhum outro clube do mundo tem coragem de abraçar de maneira tão profunda e sistemática. A história vai sendo usada como motor de ações que visam um mundo livre de discriminações e preconceitos de qualquer tipo.

A memória cristalizada de histórias de resistência, de sobrevivência e de união influencia os habitantes a terem atitudes que vão de encontro a esta espécie de tradição contada e recontada. Estas atitudes reforçam então a memória dos acontecimentos celebrados em uma circularidade entre a memória e a atuação enquanto sujeito social na interação com a sua comunidade. Esta operação que se estabelece entre recuperar o passado e a partir dele guiar a atuação no presente pode ser observada de maneira bastante intensa em St. Pauli. E nos ajuda a começar a compreender um pouco melhor este fascinante clube de futebol que faz questão de misturar sua trajetória à longa história de sua comunidade.

KEIN FUßBALL DEN FASCHISTEN!