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Memórias e sabores: o futebol e a infância

Felipe Pereira de Queiroz

O Mineirão visto da Lagoa da Pampulha. Foto: Wikipédia

O futebol e suas diversas expressões exerceram durante toda a minha trajetória uma centralidade que foi ressignificada a cada período da vida.  Durante o meu processo de formação escolar e não-escolar o futebol mostrou-se como um espaço de reconhecimento e pertencimento social, disputa, fruição e divertimento. Esses elementos, associados a uma relação paterna e ao Clube Atlético Mineiro, contam um pouco das emoções e sentimentos envolvidos na produção do despertar para esse universo.

O futebol como espaço de reconhecimento e pertencimento social aparece na vida escolar, nas relações de vizinhança e no encontro com mundo próximo. Essa sensação acontece primeiro pelo corpo, pela prática que envolve uma microexpressão dessa emoção produzida e compartilhada nas diversas formas de se jogar futebol. A experiência de um drible, do disparar de uma arrancada, a impulsão de um salto, o fechar dos olhos para um cabeceio e o êxtase de um gol marcaram minha infância e a de muitos praticantes. O pertencimento a um time, a escolha de companheiros de equipe e a organização tática na rua, foram formas de me sentir parte de um sentido maior de comunidade. Obviamente essas experiências envolviam frustrações, derrotas e, muitas vezes, sentimentos de exclusão por uma escolha ou por ausência. Essa profusão de emoções que acompanharam toda a minha relação com o futebol é agora revisitada pelo interesse acadêmico.

O futebol como disputa nasce da própria prática do jogo/esporte. O funcionamento dos diversos tipos de futebol – na rua, quadra, escolar, brincadeira – envolveu para mim uma sensação de disputa na qual podemos entender sua dimensão pedagógica e de representação em microescala das relações sociais. O jogo em si tem esses significados que agora foram percebidos como elementos formadores de uma personalidade. A sensação de movimento corporal, o encontro e disputa direta pela posse da bola acompanharam a minha experiência da prática ao torcer. 

O futebol como fruição foi visto por mim a partir da perspectiva do torcer e, mais especificadamente, o torcer em estádios. Apesar de algumas experiências no futebol amador como torcedor de beira de campo, o estádio representou majoritariamente minha experiência e compôs o meu imaginário. Nesse sentido, iniciaram-se as primeiras idas ao estádio Mineirão por volta de 1994. As primeiras lembranças foram sendo construídas a cada novo jogo e somadas ao longo do tempo com a história que se contou dele. Tive a oportunidade de vivenciar um estádio que, sob minha perspectiva infantil, tinha proporções ainda mais monumentais. Em um exercício de rever essas memórias percebo como os sentidos foram determinantes para esse resgate.

O olfato, sentido através do qual conseguimos acessar memórias quase inatingíveis relacionadas aos cheiros, remeteu-me a lembranças possivelmente compartilhadas por vários torcedores, mas algumas curiosas nas quais acredito serem únicas. Uma delas é o cheiro cítrico da laranja quando se começa a descascar. A imagem que me veio à cabeça depois desse cheiro característico foi o corte da famosa “tampinha” da laranja. Essa parte superior ficava comigo quando durante as famosas seletivas, ou jogos que antecediam o jogo principal, começavam e eu e meu pai descascávamos laranjas na arquibancada ainda vazia pelo horário. A tradição de chegar mais cedo ao estádio quando criança também era permeada de outras diversões – que não envolviam diretamente o futebol – ali mesmo na arquibancada. Desde a tradicional corrida nos longos e autos degraus das antigas arquibancadas de concreto até as minhas primeiras partidas de baralho. Em se tratando de memória afetiva compartilhada, a alquimia da gordura dos churrasquinhos, o tropeiro, o ovo frito, a cerveja, que era muitas vezes lançada em direção ao campo, foi formando um tipo de sabor de se ir ao estádio. Esse sabor era construído desde a caminhada até o Mineirão, nas barraquinhas do entorno, até a volta para casa. O paladar, já aguçado pelos cheiros, realizava-se no pão com pernil na chapa e no tropeiro com gema mole. A tradição gastronômica de um estado genuinamente representada no estádio.

Foto: Wikipédia

Os sons que acompanhavam toda a experiência de ir ao estádio compuseram esse exercício de resgate. Primeiro, o chiado do rádio no pré-jogo e a expectativa da escalação. Segundo, as conversas em diferentes tons sobre o time, sobre a vida e o futebol. Terceiro, os cânticos e o hino antes do jogo, no aquecimento da partida. Quarto, a profusão sonora às vezes coincidentes, às vezes dissidentes dos comentários e reações a cada lance. E, por fim, o compartilhar das emoções através dos mais diversos sons em momentos sublimes da partida. Alguns em particular como:  o gol, o gol anulado, a marcação de um pênalti, a defesa de um pênalti, a bola na trave e uma defesa épica.

Já o tato e a visão foram sendo formados através dos desafios que a experiência no estádio exigia. Por exemplo, o momento da separação na entrada, onde crianças tinham uma fila específica, era um desafio de referência de espaço. O espremido das filas e a necessidade de encontrar um caminho até portão do bilhete. A expectativa de reencontro com os pais. O lance de escadas até a arquibancada, ou quando corríamos descendo até próximo ao fosso que separava o campo da geral. Essa sinestesia, construída jogo a jogo, formaram as bases da minha relação com o futebol em estádios.

A memória é um imbricamento complexo entre individualidade e sociabilidade, construída, cotidianamente, por emoções que torna a experiência vivida e compartilhada, única. Os sentidos, a porta de acesso e formação dessas lembranças. O sabor, a junção entre o paladar e olfato. A infância, uma fase da vida que retornarmos em peculiares momentos de afeto e saudade. Já o futebol, esse é difícil de explicar.


Como citar

QUEIROZ, Felipe Pereira de. Memórias e sabores: o futebol e a infância. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 1, 2020.