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À altura de Deus?

José Carlos Marques

Assim que a rodada final das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo de 2018 chegou ao seu final no último dia 10 de outubro, o jornal esportivo argentino Olé estampou em sua página na internet o título “À altura de Deus”, sem interrogação, aludindo à performance de Lionel Messi e seus três gols que deram a vitória à Argentina sobre o Equador por 3 x 1, em Quito. O resultado garantiu a classificação albiceleste para o Mundial da Rússia – independentemente de qualquer outro resultado das demais seleções da América do Sul que também estavam em campo naquele mesmo momento.

A celebração do fato parecia estabelecer uma trégua entre o astro Messi e o próprio país em que o craque nasceu em 1987. A capa da versão impressa do Olé no dia seguinte (ver imagem abaixo) a este jogo é ainda mais simbólica: com o título “Messi é argentino”, o jornal nos permitia imaginar que poderia haver dúvidas quanto à real nacionalidade do jogador (como se sabe, Messi transferiu-se muito jovem, com apenas 13 anos para o Barcelona FC).

Messi Argentino

Capa do jornal Olé. Foto: reprodução.

A alusão ao fato de Messi estar “à altura de Deus” é uma singela reverência ao “Deus argentino” de fato, ou seja, a Diego Armando Maradona, jogador que, para além da genialidade singular, sabia acrescentar ao seu jogo um carisma que só costuma aparecer na pele das grandes lendas. Nunca ninguém duvidou da “argentinidade” de Maradona, e ele soube carregar com rara felicidade o fardo de representar toda uma coletividade ao envergar a camisa de sua seleção.

O norte-americano Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos sobre a relação do mito na sociedade moderna, resumiu de maneira singular o percurso padrão da aventura do herói mitológico, a qual estaria baseada no trinômio separação-iniciação-retorno: alguém proveniente do mundo cotidiano se lançaria numa região de “prodígios sobrenaturais”; ali, diante de forças fabulosas, ele obteria uma vitória decisiva; em seguida, o herói retornaria de sua aventura com o poder de partilhar com seus semelhantes o elixir da conquista.

Portanto, após a obtenção do prêmio maior, que é o objeto do desejo, haveria ainda a necessidade de se percorrer o caminho da volta, tão penoso quanto o inicial: o herói deveria agora retornar sob as bênçãos alcançadas e, com o prêmio da vitória, restaurar o mundo inicial ao qual ele pertencia antes de iniciar a aventura. Assim, vemos que, após cruzar o limiar, o herói deve sobreviver a uma sucessão de provas – a fase favorita do mito-aventura, segundo Campbell. Repetidas vezes terá o herói de ultrapassar barreiras e matar dragões.

Ao longo dessa jornada, vislumbra-se também a necessidade de o herói ir ao encontro da deusa, como demonstração de que o talento que ele possui também lhe permite atingir a bênção do amor. Como forma de humanizar-se diante da aventura, é preciso que o herói tenha o “coração gentil”, merecedor dos amores da pessoa amada.

De todo modo, ao final do percurso do herói mitológico, a bênção alcançada por meio da vitória deve servir à renovação da comunidade, da nação, do planeta. É preciso que se complete o círculo do “monomito”, ou seja, faz-se mister que o personagem saiba adentrar com maestria o mundo das provas, superar obstáculo após obstáculo e, após obter a comunhão suprema, que ele saiba também retornar ao mundo de origem para devolver aos seus os frutos da experiência extraordinária vivida em nome de uma coletividade.

Uma simples passagem pelas carreiras de Maradona e de Messi permite-nos verificar que, enquanto o primeiro cumpriu à risca o percurso concebido por Campbell (não é à toa que ninguém ponha em causa o potencial mítico da figura de Maradona), o segundo ainda está às voltas com as diferentes viagens do retorno. É como se Messi ainda não tivesse regressado ao seu mundo de origem (qual deles? O catalão? O argentino?) e ainda não tivesse repartido com seus semelhantes o elixir das vitórias alcançadas.

Não estamos colocando em causa a genialidade de um, nem a do outro. Não nos parece justo comparar rendimentos esportivos de atletas que viveram suas carreiras em épocas distintas. O que estamos propondo aqui é um exercício de se ler as narrativas destes dois craques para além do desempenho futebolístico de cada um.

durante Jogo da Selecao Brasileira contra a Argentina pela decima primeira rodada das eliminatorias sul-americanas para a Copa da Russia de 2018 no Mineirao em Belo Horizonte.

Messi. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Na mesma semana em que a Argentina decidia seu destino nas eliminatórias da Copa diante do Equador, a cidade catalã de Barcelona, onde Messi vive há quase duas décadas, anunciava a promulgação de sua independência perante o poder central da Espanha. O zagueiro Piqué, catalão de nascimento e um dos ícones do Barcelona FC, foi uma das vozes sonantes em prol do separatismo da Catalunha. Mas Messi, como o maior astro da história do próprio Barcelona, tem sido uma figura ausente nesse debate. Como partilhar o elixir da vitória com seu mundo barcelonista se o jogador sequer é catalão, já que é originário da cidade de Rosário, na Argentina?

Do mesmo modo, como partilhar o elixir da vitória com seu mundo argentino se não havia conquistas até agora para serem partilhadas? Daí que a capa do Olé do dia 11 de outubro pode ser o anúncio daquilo que faltava para Messi completar o círculo do monomito, pelo menos na sua dimensão nacional de origem.

Vencer o eliminado Equador numa fase de eliminatórias de Copa é muito pouco para catapultar alguém à dimensão do herói mitológico. No entanto, vencer um Mundial de Futebol em nome da Seleção Argentina será certamente o ingrediente que permitirá a viagem de regresso de Lionel Messi. Caberá a ele, então, saber dividir o elixir da conquista com os seres mortais de onde ele surgiu. Aí, e apenas aí, poderemos dizer que ele está à altura de Deus, à altura do Deus Maradona.