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Meu vizinho jogador

Leandro Marçal

Cheguei atrasado à última reunião de condomínio e notei um burburinho. O pessoal mais velho deveria estar comentando sobre mais um descuido meu, de aparecer fora do horário combinado. Achei estranho não olharem torto para mim, me aproximei e percebi que o assunto era o novo vizinho.

Sou mais velho que ele, ele é bem mais famoso que eu. Titular no grande clube da cidade, uns moradores tinham medo de sua presença por aqui, poderia trazer riscos e pediram mais atenção à segurança no edifício. Outros se entusiasmaram, comentavam sobre lances decisivos na última temporada. Eram capazes de listar todos os clubes da carreira do meia-atacante. Falaram das camisas que ele poderia autografar quando chegasse, cogitaram selfies no elevador e contaram aos filhos pequenos quem era ele. Era ele mesmo.

Esqueci o assunto e a vida seguiu. Até o dia em que a porta do elevador ia fechando e alguém a segurou para mim. Era o meu vizinho jogador. Bem que notei nas últimas semanas uma movimentação no andar, sabia ser de um morador novo, não fui cordial pela falta de tempo. Dei bom dia e evitei tietagens.

É claro que eu também sabia tudo da carreira dele, os motivos para voltar ao Brasil, os gols, lances e polêmicas mais importantes. Mas preferi fingir ser um cara elegante, educado e sem dar muita importância à bola e seu mundo particular. Ainda assim, consegui tirar uma foto do celular, meio torto, meio escondido, para mandar no grupo dos amigos da escola. Olha só, galera, quem divide o andar comigo.

Foi o papo do almoço no escritório, também. Ninguém acreditou muito. Pensei na possibilidade de pedir açúcar ou sal emprestado dali em diante. Mera desculpa para notar se havia troféus, medalhas e fotos com outros craques do passado pendurados à parede. Talvez uma televisão cobrindo a parede, itens de luxo poucas vezes vistos pelos moradores daqui.

Foto: Frantzou Fleurine/Unsplash.

Dei uma desculpa para ir ao estacionamento, sou um dos poucos moradores sem motor. Tinha certeza de que ele deveria ter uma máquina, dessas sempre brilhosas, incapazes de sujar. Pena que outros moradores dão muito valor às quatro rodas, não fui capaz de identificar qual era o carro do craque.

E não me importei com a insônia nos dias de festas em seu apartamento. Mantive a porta da sala entreaberta e dava uma leve espiada, disfarçando para dar uma espiada. Quando ele passava, só um cumprimento protocolar, como nas vezes em que nos encontramos no elevador. Se antes o corredor que separa nossos apartamentos era um deserto, passou a ser mais movimentado. Eram as crianças e os mais velhos, com uma desculpa para tocar o interruptor branco da campainha.

Nas reuniões de condomínio seguintes, nada de sua presença. Nem da esposa ou da mãe, que dividiam o mesmo apartamento. O burburinho voltava. Ele não estacionava direito, fazia barulho, era mal educado. Quando a má fase em campo apareceu, notei uma cara mais invocada. Assunto irrelevante para a reunião.

Minha maior preocupação era uma venda. Aquele foi o reforço mais importante da temporada. Do time e do prédio. E nem digo isso pela camisa autografada que ele me entregou na última semana. Seu sorriso anda mais cúmplice nos dias em que o flagro tirando uma selfies com um torcedor mirim ou idoso, emprestando açúcar para uma senhora que balança a cabeça tentando ver o interior de seus cômodos, antes de me regular por cima dos óculos quando rio por sua curiosidade.

Eu evito tietá-lo. Deve ser por isso que fui convidado para um churrasquinho no próximo fim de semana. Estou um pouco nervoso, nem tenho roupa para isso. Mas é bom fazer uma política de boa vizinhança.