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Mineirão visto de fora: uma parte da festa do futebol!

Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa

Nos últimos três anos tenho passado parte do meu tempo bem próxima ao Estádio Mineirão. Sendo mais específica, costumo ficar do outro lado da Avenida, no ginásio Mineirinho.

Em busca de documentos que pudessem me auxiliar a conhecer a história deste ginásio – o Palácio dos Esportes[i] – por vezes me deparei com fotos, memorandos e outros documentos oficiais que me remeteram também à memória do seu vizinho, o Estádio Minas Gerais[ii].

E essa proximidade dos documentos, que atualmente estão guardados no mesmo local, em uma sala do grande ginásio, pode ser melhor compreendida se considerarmos que esses dois espaços de esporte e lazer foram administrados pelo mesmo órgão público do Estado de Minas Gerais, a ADEMG[iii]. Criada em 1965, com o objetivo de administrar o Estádio, também coube a ela a administração do Ginásio, inaugurado em 1980. E, com a extinção da Autarquia em 2013, esses documentos permaneceram no Mineirinho.

Entre idas e vindas, empenhada na busca de fragmentos de outros tempos, pesquisando os documentos nos armários e nas caixas, eu encontrava companhia no silêncio daquela grande sala.

Pode soar de modo estranho a ideia de que o silêncio pudesse ser uma companhia durante a pesquisa. Mas, era com este silêncio que eu podia ouvir e em alguns momentos prestar atenção em outras situações que ocorriam fora da sala: o miar de um gato; o latido de um cachorro que perambulava pela Feira de Artesanato; o canto de diferentes pássaros que se recolhiam em árvores próximas, preparando para o anoitecer; algumas conversas inaudíveis de trabalhadores da Feira que se preparavam para o trabalho ao cair da noite. Enfim, eu podia ouvir diferentes sons, sinais de vida e da ocupação do espaço.

Em outros momentos, de dentro da sala, eu ouvia estouros, gritos e cantorias em outros espaços do Mineirinho. Esses eram instantes em que o silêncio era perturbado de maneira muito destacada.

Já fora da sala, preparando-me para ir embora, eu podia compreender melhor o significado de tanto murmurinho: as noites de futebol!

Nas horas anteriores ao jogo, o silêncio, que de maneira geral marcava a minha permanência no Mineirinho, era abruptamente substituído por barulho, muito barulho! E na maioria das vezes, eu ia para casa com uma sensação de que seria uma grande festa!

Ainda que eu não tivesse permanecido lá em nenhum dos dias para ver o desdobramento, era recorrente eu sair me lembrando do movimento, da expectativa e dos personagens que faziam a festa: o(a)s torcedores(as)!

Mineirão visto de fora. Foto: Luciana Cirino.

Com suas cantorias, festejando o seu time, por vezes eu via a torcida visitante – que vinha de fora da cidade e até mesmo de outro estado-, em parte do estacionamento do Mineirinho, fazendo a concentração para o jogo. Foi assim com a torcida do Grêmio, quando várias pessoas chegaram em seus ônibus e aguardaram o jogo com o Cruzeiro na Copa do Brasil 2017; e também vi fragmentos da festa na concentração da torcida do Palmeiras, que aguardava o jogo com o Cruzeiro, recentemente, na Copa do Brasil 2018.

Se dentro do estádio, durante os jogos, podemos ter festa, do lado de fora, antes, durante e depois, também! Ainda que, durante esses dias de jogos em que estive presente no Mineirinho, eu tivesse acompanhado, de perto, somente o pré-jogo, de longe, eu presenciei momentos de festa, em especial quando a vitória era do time da casa – Belo Horizonte-.

Há festa! Perto e longe. Festa da torcida que permanece nos arredores do estádio, preparando o ritual de baixar a ansiedade, espalhados em grupos pelas ruas próximas, reunidos ao redor da churrasqueirinha, como se estivessem em um tributo ao futebol; festa e luta pela sobrevivência, envolvendo trabalhadores e trabalhadoras, que em alguns casos, por torcerem pelo time que entrará em campo, ficam com o ouvido atento à narração do jogo, enquanto aguardam a saída da torcida para venderem comidas e bebidas. E, como em um terremoto, podem ajudar a estremecer o estádio e o seu entorno, quando o gol dentro do estádio irradia a festa de comemoração.

Os céticos poderiam duvidar das percepções sobre o futebol e a “festa” que foram apresentadas até aqui. Dessa visão otimista exposta sobre o lado de fora do Mineirão. E, eu, compreendo e até imagino de onde poderia surgir a dúvida: talvez, viria da derrota do time para o qual se torce!

É, a derrota do time querido pode ser motivo de chateação. Mas, em tempos de crise e de uma nebulosidade que paira no ar, tenho motivos maiores com os quais eu poderia me chatear!

E, ainda que envolta por essa estranha nebulosa, que pode causar uma sensação de distanciamento dessa áurea que é torcer, no dia de hoje, agora que mais uma final da Copa do Brasil finalizou, temos festa! Acompanhando o jogo e ouvindo os disparos dos fogos de artifício que já incendeiam a cidade, temos o aviso de mais um título vindo para BH!

Bem, visto de fora, muitos são os olhares que podemos ter do Mineirão: em dias de jogo, vida e festa, alegria e tristeza, dentro e fora; em dias sem jogos, concreto e energia a espera da próxima festa.

Do lado de cá da avenida, na cobertura do Mineirinho, em um passeio para melhor conhecer e fotografar alguns dos espaços desse belo ginásio, eu vejo o Estádio: o Mineirão, do lado de fora!

 


[i] Palácio dos Esportes foi a denominação atribuída a esse ginásio público desde o seu planejamento até a sua inauguração, ocorrida em 15 de março de 1980. Poucos dias depois, por meio da Lei 7674, de 31/03/1980, passou a ser denominado como Estádio Jornalista Felipe Drumond. Popularmente, é conhecido como Mineirinho.

[ii] Inaugurado em 1965 e popularmente conhecido como Mineirão, com a publicação da Lei 4072/1966, o Estádio Minas Gerais foi denominado como Estádio Governador Magalhães Pinto.

[iii] LEI 3410, DE 08/07/1965. Disponível em: https://www.almg.gov.br/consulte/legislacao/completa/completa.html?num=3410&ano=1965&tipo=LEI&aba=js_textoOriginal