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A minha primeira Copa

Plinio Labriola Negreiros

Vejo com estranheza o “quase debate” sobre a condição alienante do futebol. Diante de uma vasta literatura sobre o esporte bretão, especialmente nos últimos 20 anos, de uma qualidade ascendente, imaginei que essa questão tivesse ficado perdida no século XX. Condição muito diferente do contexto da primeira Copa do México, a de 1970. A primeira com transmissão ao vivo pela televisão. Também foi a minha primeira Copa. Como eu nasci em 1962, ano da disputa no Chile, e tinha apenas quatro anos no evento ocorrido na Inglaterra, não tomei conhecimento dessas Copas.

Desde os meus cinco anos já tinha alguma consciência do que era o futebol. Era um pequeno torcedor corinthiano, com idas a estádios, vistas de jornais e televisões, além de escutar rádio. Lembro das figurinhas relacionadas à Copa de 70. Era a época dos álbuns que distribuíram prêmios. Dessa forma, era necessário preencher cada página do álbum e, em cada uma delas, havia a famosa figurinha carimbada, a mais cobiçada. Tenho na memória duas imagens fortes: a procuradíssima figurinha da Fifa e a febre das figurinhas atingindo todas as idades. Para quem tinha a minha idade, o álbum pouco importava; interessávamos em bater figurinha.

Antes da Copa, outra lembrança marcante: meu pai comentava a demissão do técnico João Saldanha. Sei que esse evento esteve associado à figura de outro técnico, Yustrich, que dirigia o Flamengo. Dizia-se que o técnico do selecionado nacional não aceitou com tranquilidade restrições ao seu trabalho por parte do técnico do Flamengo e fez algumas ameaças a este, inclusive com o uso de um revólver. E isso, bem próximo do início da Copa do México. Após esse evento, as minhas memórias se voltam para a disputa da Copa, escutando incessantemente a canção Pra Frente Brasil, de Miguel Gustavo. Eu não tinha ideia que uma Copa do Mundo era muito mais do que uma disputa esportiva. Não sabia que era a primeira vez que os brasileiros assistiriam as partidas da seleção ao vivo pela televisão.

Obviamente, assisti e torci muito nas seis partidas da seleção canarinho. Todas com o mesmo ritual. Na sala da minha casa, com todos os familiares presentes, ou seja, pai, mãe, irmãos e minha avó materna. Havia ainda outro personagem essencial: o nosso cão, o Roy, um legítimo vira-lata, que estava conosco desde o seu nascimento, em março de 1969. Nesse núcleo familiar, o Roy era um talismã; a sequência de vitória rumo à conquista do tricampeonato estava diretamente relacionada à sua presença na sala da casa. Sempre tivemos certeza disso.

Antes de participar “daquela corrente pra frente”, porém, eu precisava superar um forte obstáculo: a dona Maria Aparecida, minha professora do segundo ano primário em uma escola religiosa no Bom Retiro, bairro próximo ao centro de São Paulo. Das seis partidas, três foram disputadas em quartas-feiras, no final da tarde, começo de noite. No mês de junho, estávamos aprendendo tabuada. E como fazíamos isso? A professora dava como tarefa estudar, por exemplo, a tabuada do 6. No dia seguinte, havia chamada oral. Alguns alunos eram convocados para irem à frente da sala com o intuito de mostrarem que tinham decorado a tabuada solicitada pela professora. Lembro inclusive, de um colega que foi chamado para apresentar a tabuada do 5. Ele sabia toda a tabuada que lhe foi cobrada. Em meio à apresentação, ao afirmar que 5 x 7 era igual a 35, a professora fez a seguinte pergunta: “e quanto é 7 x 5?”. De imediato, veio a resposta: “Não sei. A senhora não pediu para estudar a tabuada do 7!”. Essa pressão era somente parte do terror. Ao exigir que a tabuada fosse decorada, a dona Maria Aparecida era taxativa: o aluno que não a decorasse, ao invés de ir para casa ver o jogo da Copa, ficaria na escola aprendendo a tabuada. Talvez alguns dos efeitos desse draconismo: não me lembro de nenhum colega que não tenha feito a tarefa com correção e eu jamais esqueci a tabuada.

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Vencida essa barreira, veio a primeira partida e a primitiva lembrança: o gol da Tchecoslováquia, de Petras. Na comemoração, ele se ajoelha e faz o sinal da cruz. De forma instantânea, na minha casa, de forte tradição católica, o desconforto com o gol sofrido foi recompensado com o ato de fé religiosa, afrontando o ateísmo de uma nação dominada pelo comunismo. Não dimensionei que tal gesto ficaria tão memorável.

A segunda lembrança da Copa veio dessa mesma partida. Há uma falta, sofrida por Pelé, na meia lua da defesa tcheca. Eu sabia que Rivellino, do Corinthians, era um excelente batedor de faltas. O fazia com muita força e precisão. E não aconteceu outra coisa: saia o primeiro gol do Brasil no México. A minha alegria era dobrada porque era um gol corinthiano. Vale lembrar também a minha tristeza diante da ausência de gol corinthiano na final contra a Itália. Todas as faltas batidas pelo jogador do Corinthians foram parar muito longe do gol. Muitos anos depois, escutei o então atleta corinthiano dizer que o gramado não estava em boas condições. Na partida final, um pequeno consolo: o primeiro gol da seleção, de cabeçada do Pelé, veio de um cruzamento do Rivellino.

Saliento que não tinha ideia de como era a disputa do Mundial. Portanto, não sabia da existia de quatro grupos, assim não sabia qual era o grupo do Brasil. Da mesma forma que não acompanhava as outras partidas também transmitidas ao vivo. Na minha leitura as únicas partidas eram da seleção brasileira.

Nessa perspectiva, torci muito pela vitória brasileira contra o Inglaterra. Um jogo muito difícil. Há quem considere o melhor jogo dessa Copa, senão o de todas as outras. Veio a vitória da seleção, como a derrota também não esteve fora de cogitação. As duas equipes jogavam um futebol refinado. Além do gol de Jairzinho, é inesquecível a defesa do goleiro inglês, Gordon Banks, em uma quase fatal cabeçada de Pelé. Esse lance fez com que eu aprendesse a admirar o adversário.

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Brasil e Inglaterra. Foto: Correio da Manhã.

A terceira partida foi contra a Romênia. Não fui informado que era um país comunista. Nos dois gols romenos, nenhuma menção religiosa nas comemorações. Mas algo estranho aos meus olhos: os jogadores romenos comemoram os seus dois gols com beijos nos rostos.

Na quarta partida, que eu não tinha ideia que era eliminatória, veio uma nova surpresa: o técnico peruano era brasileiro. Como eu vivia o clima dos “noventa milhões em ação”, não compreendia como um brasileiro, bicampeão mundial, ajudaria outro país a derrotar o seu próprio país. De qualquer maneira, nessa partida uma alegria particular: o primeiro gol da seleção de Rivellino, em uma comemoração muito representativa desse atleta.

Como já ocorria nas partidas anteriores, todas com vitória, nas brincadeiras de futebol com meu irmão, tentávamos reproduzir cada gol do Brasil. Essa brincadeira persistiu por alguns anos. Cada um daqueles jogadores eram nossos heróis. Sabíamos como tinha cada um dos gols brasileiros na Copa.

Na quinta partida, contra o Uruguai, não dimensionava o peso dessa disputa. Ouvia algo sobre uma vingança contra os uruguaios, mas não entendia que a referência era a trágica final de 1950. Não tinha dúvida sobre mais uma conquista nacional. Veio com um importante gol de Rivellino, o terceiro, quando o Uruguai ameaça muito a meta do selecionado. Na comemoração, os reservas invadem o gramado e o goleiro Ado, também do Corinthians, salta sobre todos os outros jogadores. A seleção brasileira faria a final contra a Itália. Nessa partida, sairia o primeiro tricampeão mundial, que ficaria com a taça Jules Rimet. Claro que confiava na conquista nacional.

Como nas partidas anteriores, muita emoção na comemoração do segundo gol do Brasil, de Gerson, novamente com a presença “invasora” do goleiro corinthiano Ado. Além disso, uma curiosidade: o nome de um atleta italiano – Luigi Riva, sobrenome que era uma das formas como os narradores esportivos se referiam ao Roberto Rivellino. Também começava a descobrir que havia uma Itália no Brasil. Como havia uma Itália em mim.

Naquele distante junho de 1970, lembro um pouco da festa. Muitos fogos e carros buzinando. Um ou dois dias depois, meu pai levou-me, junto com meu irmão, para ver a chegada de parte da delegação tricampeão em São Paulo. Ficamos na praça das Bandeiras, na região central da cidade, e vimos alguns jogadores da seleção, como o Rivellino e o Ado. Inexistiam dúvidas: o Brasil jogava o melhor futebol do mundo. No segundo semestre desse ano, lembrava-se constantemente dessa conquista. Lembro das transmissões esportivas da TV Tupi, nas quais no momento de um gol, destacava-se os jogadores fazendo a festa ao som de uma canção composta especialmente para celebrar a conquista do selecionado brasileiro: Sou tricampeão, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, em gravação dos Golden Boys. “Eu hoje, igual a todo brasileiro/Vou passar o dia inteiro/Entre faixas e bandeiras coloridas”.

Mal sabia que o país vivia um processo ditatorial, afinal estava em uma família com pouco envolvimento político – ainda que meu pai sempre votava em oposição à ditadura – e eu tinha apenas oito anos. E como morador do Bom Retiro, muito me emocionou, anos mais tarde, o filme O ano em que meus pais saíram em férias, Cao Hamburger. Em muitos momentos, sentia-me como o protagonista da história, em meio ao futebol e às ruas do Bom Retiro.

Entre a Copa de 70 e a de 74, na Alemanha, a grande novidade foi o Pelé se despedir da seleção. Lembro das muitas campanhas populares para ele reconsiderasse a sua decisão. Tudo em vão. Havia muito otimismo pela conquista do tetracampeonato. O time não foi bem na fase de grupo e chegou à semifinal, mas foi derrotado pela grande sensação dessa Copa, a Holanda. Foi a primeira vez que via a seleção perder um jogo de Copa. A decepção misturou-se com a tristeza. Afinal, éramos ou não os melhores do mundo?

Na Copa seguinte, ocorrida numa Argentina ditatorial, fiz uma grande descoberta: havia quem torcia contra a seleção. Já tinha 16 anos e começa a descobrir o mundo. E tinha o direito de torcer contra a seleção. Não sei se torci contra ou não, mas a paixão de 70, não existia mais. Para isso, muito contribuiu a derrota em 74 e a forma como o selecionado se preparou para 78. Anos depois, passei a ficar mais atento ao entorno dos jogos da seleção do que ao próprio jogo. Os sons da cidade durante uma partida de Copa merecem uma atenção cuidadosa.