118.25

Miro, felino no Rio

Gustavo Cerqueira Guimarães

 

[…] e os gatos misteriosamente dormem e acordam,
e entre sono e vigília sonham acaso as suas gatarias,
poemas como gatos sem casa ao sabor
uns dos outros,
estio e inverno agora no mundo
libérrimo, dificílimo,
gataria de poemas: sem dono e sem peixe certo:
só a chuva e o bom tempo
e o amor e o ódio impetuosos uns aos outros:
poemas quando se vai com a mão
e bufam e arranham logo.

A morte sem mestre, Herberto Helder.

 

Hoje, estou um pouco baqueado e não consegui decidir se irei ao jogo do Atlético contra o Nacional, no Mineirão, pela Libertadores. Desde o dia em que eu assistiria ao jogo do Galo no Paraguai contra o Cerro Porteño, estive meio caladão, cabisbaixo e sem escrever. Foi uma viagem bem intempestiva. Resolvi pegar o avião para Assunção do Rio de Janeiro, porque, além da passagem estar baratíssima, havia muita necessidade de espiar o Atlântico e, quem sabe, entrar nele para descarregar as energias acumuladas.

No domingo, saí de Belo Horizonte no ônibus das 7h e cheguei no Rio às 14h, a tempo de passar na pensão na Glória e almoçar com uma amiga na Tijuca, antes de contemplar o pôr do sol no Arpoador, só. O mar estava agitado, eu estava cansado e não me sintonizei muito bem com ele. Depois de andar um pouco a pé, recolhi-me ao pensionato, desencaixei o meu braço mecânico, limpei-o, pois estava cheio de areia, tomei um banho e me deitei para ler e esperar os gols do Fantástico o show da vida –, sem afagar os já saudosos gatinhos.

Na segunda-feira, no final da tarde, ao solicitar o transporte do Largo do Machado para o Galeão, começou uma tempestade com muitos raios e trovões que afetou toda a dinâmica da cidade. Houve alagamentos, destruições e mortes. Toda a cidade parou. Não chovia assim há décadas, soube mais tarde por meio de todos os noticiários da televisão. Ali, estava eu como coparticipante da tragédia, sentindo-me um sobrevivente. Muito impressionado, assisti a uma longa entrevista de uma historiadora da UFRJ, de sobrenome Casa Nova, sobre o quanto o aterramento de grande parte da cidade contribui para as enchentes no Rio, frutos de descasos históricos dos governantes. “É um problema também social, sabe?” – ela dizia e explicava os motivos.

 

Imagem: Miro Borba.

 

No outro dia, ao me refugiar no Aterro do Flamengo, com o intuito de passar toda a manhã bem próximo dos sábios felinos – nenhum deles morreu por conta da enchente –, fui interpelado, de pronto, por uma repórter da Rede Globo:

— Senhor, bom dia! O senhor poderia dar umaish palavrinhaish pro nosso jornal da Globoa? – falava com um sotaque carregadíssimo, com o som da vogal A em palavras finalizadas com a vogal O.

— Bom dia! Uai, depende, quem sabe…

— Hummmm… deishconfiadoa… é mineiroa? A gente só goishtaria de saber se o senhor ontem foi pelo temporal afetadoa, onde o senhor eishtava na hora da chuva?

— Aaah! Eu estava de saída pro aeroporto, a chuva chegou de uma vez e não teve mais como me deslocar pela cidade, parou tudo.

— Pôa, e daí…?

— Fiquei debaixo de uma marquise tentando remarcar o voo, e eles me disseram que as remarcações seriam somente a partir de amanhã. Quando a água começou a subir, eu corri pro hotel. Eles me hospedaram num bom lugar no Flamengo até quinta-feira.

— Perdeu algum compromisso importante de trabalhoa ou eishtava voltando meishmoa pra tua casa?

— Nada, sou aposentado, eu só vim pro Rio pra pegar o voo pra assistir ao jogo do Galo em Assunção.

— Jogo do gatoa…!?

— Não, não, Galoa! Eu estava indo ver o jogo do Galo, do Atlético Mineiro lá no Paraguai, pela Libertadores, mas, agora, vou ficar pelo Rio. Enfim, ’tá tudo bem, se é que se pode dizer que ’tá tudo bem neste país, né…? – eu disse com aquele tom meio queixoso de alguém que tem a oportunidade de falar para uma grande audiência, sentindo-se com o dever de denunciar a política do país, mesmo que de um lugar comum, com a legenda: Miro Borba – turishta aposentadoa.

— A coisa aqui ’tá preta meishmoa, maish, sorte pro teu Galo amanhãm.

— Obrigadoa, obrigadoa. Pôa, devo assistir na CarioGalo, num bar lá na Lapa, onde os atleticanos se encontram. Vai lá pra fazer uma reportagem com a gente – de saída, ainda emendei.

— Aaah, claroa! Que ótima ideia, ótima pauta. Sim vamoish, vou falar lá na Globoa.

Eu assisti à histórica goleada dos paraguaios por 4 a 1 na Tijuca, na casa da velha amiga dos tempos da faculdade de Educação Física em Belo Horizonte. Esse jogo praticamente definiu a desclassificação dos mineiros na competição. O Galo começou muito bem, concentrado, e, aos dezenove minutos, fez 1 a 0. Mas, dos trinta e um aos quarenta e quatro, sofreu todos os tentos. O revertério se deu em apenas quatro minutos, numa espécie de curto-circuito que paralisou o time, sem tempo para orações a quem quer que seja. Estava claro que não se repetiria jamais o milagre da virada por 3 a 2 no jogo anterior contra os venezuelanos. Os jogadores estavam desacreditados em campo. O Galo anda muito triste. Essa derrota derrubou o Levir Culpi. Todos os seus créditos acabaram. Tempo intolerante, ligeiro. Está tudo muito triste… Ainda sorrio, mas triste.

Depois, como uma espécie de compensação, a amiga me levou a um local encantador no centro, a que dão o nome de Roda de Samba da Pedra do Sal. Pode-se, ali, beber uma modesta cerveja aos litros, contemplando uma sociedade que está em guerra, mas, ainda assim, canta e dança ao lado dos milicianos. Antes de ir para a Tijuca, eu já havia passeado no centro de nossa antiga Capital da República, onde também pude perceber um pouco dessa alegria, embora tenha me detido um pouco com os telefonemas da empresa aérea, que remarcou minha viagem para amanhã, e me perdido na contemplação comovida de um Rio torto e encardido, que igualmente amo, mesmo sem me lembrar das imagens machadianas. Não há mais Capitu e Escobar, não há mais bondes e lampiões. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, todo mundo é um composto de mudanças, isso já é glosa popular.

Os passos me levaram, distraído, a certos quarteirões pouco movimentados, próximos ao cais. Não fui muito adiante: encontrei militares de terra e mar, que começaram a me olhar, insinuando suas armas. Tratei de me retirar com dignidade e entrar num restaurante com vistas para o mar, que se recria a cada instante por meio das ondas que lhe diferem a forma. Há dias, não faço outra coisa senão flertar com ele, que anda furibundo, arrebatando sua língua inacessível.

Triste Rio. Triste e pesado Rio. Esta quarta-feira me pareceu de cinzas. E, voltando para o hotel, vejo o Cristo da janela com os braços sempre abertos, olhando tão além, mas sem proteger ninguém, metralhou algo assim o desamparado poeta, cheio de mágoas.

Antes de voltar para Minas, pela manhã, fui ao Parque do Flamengo me despedir dos gatos. Fiquei quase por três horas completamente absorto. Eles limparam minhas pesadas energias e acabei por me sentir mais revigorado e com mais coragem de chegar à praia para receber a inquieta voz atlântica, inexprimível, arrastando-se como um som estranho. Transcrevo, reescrevo, o osso dos diários do tio Belmiro, de passagem pelo Rio dos anos 1930.

 

Imagem: Miro Borba.

 

Há, no mar, uma inteligência e um anseio de comunicação que nos fazem estremecer. Que segredos guarda para que lhe tenham paralisado a língua? Por que o mar nos transporta às reflexões sobre o amor e a morte? O amor e a morte encerrarão o destino do homem? Por que, também, nos convida a romper nossas limitações? Que imperiosas determinações me vem das águas? 

O corpo sem nervos, os olhos sem brilho, a alma sem forças receberam um hálito forte. Eis que surgiu um Belmiro poderoso e elementar. Um Belmiro dominador, atlântico, ao pé do qual o pobre Belmiro, sufocado entre montanhas, era um verme a rastejar. Esse Belmiro avultava cada vez mais no espaço e percorria o tempo, devassando todas as idades…

Por que me perturba, assim, o mar? Diante dele, quando devia amesquinhar-me, exalto-me e quero compartilhar de sua energia cósmica. De onde nos será possível descortinar o alto panorama? Qual será o caminho – o da humildade ou o da dureza?

Saí margeando o parque, imaginando que chutava latinhas pelo caminho para amedrontar os gatos, cena batida e imbecil que pensei jamais em escrever, e cantando “O tempo não para”, do Cazuza, menino tão amado e maltratado nesta terra.

     Disparo contra o sol
     Sou forte, sou por acaso
     Minha metralhadora cheia de mágoas
     Eu sou um cara
     Cansado de correr na direção contrária
     Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
     Eu sou mais um cara.

     Mas se você achar
     Que eu tô derrotado
     Saiba que ainda estão rolando os dados
     Porque o tempo, o tempo não para.

     Dias sim, dias não
     Eu vou sobrevivendo sem um arranhão 
     Da caridade de quem me detesta.

     A tua piscina tá cheia de ratos
     Tuas ideias não correspondem aos fatos
     O tempo não para.

Deixando o Flamengo, senti-me lúcido e triste. Ficaram-me desejos confusos de amor e de aniquilamento. Se ao menos o amor se definisse, teríamos um sentido. Mas, que sabemos do amor? Impossível fixá-lo, encontrar-lhe a expressão real, permanente. Ele se compõe da variedade e da ondulação. Conhece todas as gradações, e seu objeto é ora fixo, ora móvel, ora uno, ora múltiplo.

Cá estou de novo na Rua Erê, e como me enternece. A verdade está mesmo é na Rua Erê e não no Arpoador. É bom sair e poder voltar. Ainda estou a ouvir as vagas que batem no rochedo: a voz do grande paralítico. Mas é nesta cozinha, sem ratos, pois, aqui, há gatos, onde o relógio bate horas caraibanas, que encontro refúgio embora precário. Hoje, mesmo baqueado, passei toda a manhã anotando estas imprecisas recordações. E pretendo passar o restante do dia com os amigos felinos, ouvindo o Cazuza e vendo os seus vídeos. Não sei ainda se vou conseguir ir ao Mineirão assistir ao Galo, talvez veja pela tevê, mas ao mesmo tempo preciso de caminhar. Quem sabe em direção ao bar… afinal, o mundo anda quatro doses abaixo.