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Essa tal modernidade: PC Caju, craque com os pés e as palavras

Fabio Perina

Esta crônica aparece cerca de um ano depois como uma continuidade a outra que escrevi como tema principal as três décadas da carreira de treinador do ‘pofexô’ Luxemburgo. Mas que também se cruzou com o tema complexo, que agora será o principal, da modernidade no futebol brasileiro e sua suposta oposição à tradição.

Assim encerrei aquela crônica: a memória parece proteger o passado para deixá-lo mais romântico do que realmente foi. Se antes usei o célebre “antes como tragédia, depois como farsa”, aqui parece não haver nem tragédia nem farsa. Mas possivelmente o tradicional como uma honra passada e o moderno como uma fantasia de uma promessa futura.

Entre ambos pendula o jogo, essa dimensão anímica, por não poder suprimir nem um nem outro. (Da mesma forma como futebol-arte e futebol-força tampouco se suprimem, mas esse não é assunto pra agora). Mesmo sem haver partidas nos últimos meses tal tema reaparece como um jogo que pouco tem de cartas marcadas, mas com frequência se embaralham. Vide a recente troca de farpas entre dirigentes com posicionamentos opostos por acelerar ou adiar o retorno das partidas: o ‘moderno’ Landim do Flamengo e o ‘tradicional’ Montenegro do Botafogo.

Paulo Cézar Lima, Caju. Foto: Arquivo CBF.

Agora a ideia é ter o auxilio de outro grande personagem para dar voz própria para essa tensão entre o tradicional e o moderno: o tricampeão de 1970, Paulo Cézar Caju, que assim como Gerson, outro craque do Tri e também com a língua afiada, são certamente os dois nomes mais longevos dessa sempre produtiva “indústria do flashback” de ex-jogadores que sempre acolhem os recém-aposentados nos diversos veículos de comunicação e redes sociais cada vez mais abundantes.

Para manter um formato leve de leitura, buscarei alguns pontos de contato entre uma fonte acadêmica (ANJOS, 2003) e uma não acadêmica (a coluna semanal de Caju no “Museu da Pelada” nos últimos meses). A fonte sobre a coluna do craque do Tri foi forçadamente encurtada por dificuldade de acesso aos seus artigos dos últimos anos tanto no veículo alternativo citado como principalmente à coluna que também mantinha no jornal O Globo, até o inicio de fevereiro, quando foi demitido.

“A racionalidade ainda não foi suficiente para apagar o desencantamento que ainda faz parte do imaginário dos atores que permeiam os diversos cantos institucionais do futebol.” (ANJOS, 2003, p. 213).

Anjos (2003) afirma que, se a modernidade é a fé infinita no avanço do progresso, a tradição por sua vez é uma reação à insegurança provocada por um processo que na vida real é bem mais difícil do que sua expectativa. É quando ressurge o tradicional para dar guarida aos sistemas simbólicos e enfrentar os desafios colocados pelo presente. Há um convencimento no modelo moderno através da ciência, enquanto no tradicional temos uma liberdade de aceitação da verdade que se enuncia o mais coerente possível. Parâmetros que certamente se verificam no futebol.

Dessa forma, a tendência do discurso tradicional é de lamentar uma passagem do sagrado ao impuro, conforme o dinheiro se torna mais abundante, mas sem propor algo que vá além de uma simples repetição do passado.

Se o mestre João Saldanha já compreendia os obstáculos à modernidade com sua frase célebre “o futebol brasileiro só evolui do vestiário pro campo”, Anjos (2003) chama a atenção inusitada para o massagista, não somente pelo sincretismo religioso popular (vide que nos últimos dias também se revelou que o Cruzeiro contratou um pai de santo para tentar se livrar do rebaixamento), mas dentre todos os sujeitos do futebol ser aquele que menos pode ser profissionalizado. Pois o seu discreto capital econômico é compensado pelo enorme capital futebolístico que adquiriu com experiência de algumas décadas em um mesmo clube transitando entre jogadores, treinadores e até dirigentes. Cuida e “amacia o couro” das feras!

Outro elemento original das reflexões de Anjos (2003) é o papel dos resultados podendo abalar qualquer planejamento nessa tensão, pois é a frequente ‘muleta’ do tradicional para questionar o moderno na sua pretensão de um progresso linear. Enquanto o discurso tradicional sentencia: “se fomos campeões jogando assim, por que fazer diferente?”, ou “o que vale e o que importa é no campo de jogo”, o discurso moderno contra-ataca com “o placar se decide fora do campo”, justamente por toda a equipe de novos profissionais que escala em auxílio aos jogadores.

E por falar em resultados, durante esta quarentena, a atual falta de partidas ao vivo mobiliza não só reprises de partidas históricas como, através deles, as tentativas de chegar a ‘avaliações’ de quem foi melhor: craques ou equipes de agora ou do passado. Ou seja, uma certa adaptação do embate entre moderno e tradicional, por um instante suspenso do campo de jogo e indo parar na disputa de narrativas nas redes sociais.

Indo finalmente direto ao nosso arquivo principal, com cerca de meia dúzia de artigos recentes na coluna do “Museu da Pelada”, tal assunto emerge como tema de destaque, junto da aproximação dos 50 anos do Tri. Se Anjos (2003) conclui com a percepção que o discurso moderno é tão impessoal no conteúdo que a própria forma parece ter perdido o emissor, PC Caju (craque que faz aniversário no mesmo dia do Maracanã) entra em campo com a boca no trombone, como sempre, para mostrar que do outro lado o discurso tradicional não é uma criança sem pai.

Paulo Cézar Lima, Caju. Foto: Reprodução.

A começar pelo artigo “Falsa modernização” (9 de março) com uma tabelinha divertida entre processos e linguagens em que eles se manifestam no futebol em cada onda de modernidade que teve. Nos anos 70, a ‘militarização’ da seleção por Claudio Coutinho inventou o ‘ponto futuro’ e ‘overlapping’. Em 89, com Ricardo Teixeira, Dunga e Lazaroni, ficaram marcados por ‘lastro físico’ e ‘galgar parâmetros’. Depois do ‘lazaronês’, veio o atual ‘titês’ com ‘performar’, ‘sinapse’ e ‘treinabilidade’. Encontra algo de positivo na quarentena, pois não se escuta mais termos de falsa intimidade com o jogo pelos comentaristas como ‘bochecha da rede’, ‘orelha da bola’ ou ‘ligação direta’ (que para ele é roubo de carro!). ‘Leitura de jogo’? A tudo isso ele retruca apresentando o ‘cajuês’: “jogo não se lê, se joga”, “jogou aonde?” e outras pérolas. Em suma, como aparece em diversos artigos e entrevistas do craque: “já fomos bailarinos, hoje somos robôs”.

No artigo “Felix, eles não sabem o que dizem” (20 de abril), não somente defende o antigo colega e goleiro do Tri de julgamentos atuais como ainda se defende. Dizendo ser engraçado que agora todos viraram nostálgicos de partidas antigas tal qual ele próprio! No artigo “Viva os clubes pequenos” (24 de fevereiro), valorizam-se as partidas dos clubes de menor expressão, na conhecida metáfora bíblica de Davi contra Golias, para reafirmar o desgosto com o treinador, o jogador e o comentarista ‘moderno’ com sua linguagem entediante. Crítica generalizada também presente no artigo “Safra sofrível” (2 de março), pelo qual afirma que nem sequer os vários títulos do Flamengo o empolgam por ser a exceção enquanto a regra tem sido que os maiores destaques são estrangeiros ou veteranos ao invés de jovens talentos. Esse traço recorrente da narrativa tradicional a criticar tudo em seu entorno extrapolou-se do futebol para a vida pessoal no artigo “Suderj informa: saem os inconsequentes e entram os solidários” (23 de março). Uma forma leve de comparar as concentrações de antes e o isolamento doméstico de agora. “Sou do tempo do Quarentinha (craque do Botafogo) e não da quarentena”.

Por fim, o artigo “O abandono dos velhos craques” (30 de março) faz uma ponte emocionante entre passado e presente com a qualidade de um passe do Canhotinha de Ouro. Não somente lembrando os vários colegas do Tri, que diante da proximidade dos 50 anos deveriam estar sendo procurados e homenageados a todo momento. “Patrimônio nacional e imorrível”. Mas principalmente foca na situação do colega lateral esquerdo Marco Antonio (e de tantos mais inclusive ele próprio Caju já esteve muito pior), com seus diversos problemas atuais, que simboliza que a situação de muitos ex-jogadores vai além de dinheiro e sustento, mas principalmente reconhecimento. O que faz lembrar ainda mais o grande filme “Boleiros: era uma vez o futebol” (1998) pela resenha na mesa de bar e principalmente pelo grande personagem Naldinho e suas confissões do desalento e até desespero que é para o jogador não conseguir lidar com a aposentadoria dos gramados e a consequente perda de algo mágico que lhe parecia natural (portanto, profundamente no campo tradicional) que estava sempre presente.

Flavio Migliaccio, Presente!

Marinho do Bangu, Presente!

Por fim, no dia de fechamento desta minha crônica, vale uma menção honrosa ao último artigo na coluna desse levantamento: “Por que os nossos George Floyds diários não causam tanta comoção?” (3 de junho). Para que nunca se esqueça do craque Caju como irreverente, autêntico e também sempre contestador.


Leituras de apoio

ANJOS, José L. dos. O tradicional e o moderno: faces da cultura popular no futebol brasileiro. 2003. 236 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais)-Faculdade de Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2003.

LIMA, Paulo Cézar (Caju). Viva os clubes pequenos. Museu da Pelada, 24 fev. 2020.

______. Safra sofrível. Museu da Pelada, 2 mar. 2020.

______. A falsa modernização. Museu da Pelada, 9 mar. 2020.

______. A SUDERJ informa: saem os inconsequentes e entram os solidários. Museu da Pelada, 23 mar. 2020.

______. O abandono dos velhos craques. Museu da Pelada, 30 mar. 2020.

______. Felix: eles não sabem o que dizem. Museu da Pelada, 20 abr. 2020.

______. Por que nossos ‘George Floyds’ diários não causam tanta comoção? Museu da Pelada, 3 jun. 2020.

PERINA, Fabio. A volta do boêmio: o ‘profexô’ Luxemburgo no Vasco da Gama. Ludopédio, 15 jul. 2019.

Como citar

PERINA, Fabio. Essa tal modernidade: PC Caju, craque com os pés e as palavras. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 41, 2020.