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Mohamed Salah, um orgulho egípcio que vai além do futebol

Thiago Rosa

Passe avaliado em mais de R$ 650 milhões, herói da classificação do Egito para uma Copa após 28 anos, eleito pela revista Time uma das pessoas mais influentes do mundo e campeão da Liga dos Campeões. Sobram atributos para o fã de futebol respeitar o atacante do Liverpool, Mohamed Salah. Se no campo o camisa 11 do time da cidade dos Beatles se destaca, fora dos gramados ele também mostra porque é chamado pelos egípcios de Faraó.

Salah nasceu em junho de 92, em Nagrig, cidade a 130 quilômetros da capital. Filho de um vendedor, enfrentou a falta de tradição do Egito no futebol e obstáculos quase impossíveis para se tornar jogador. Ainda com 14 anos, assinou o 1º contrato profissional com o Al Mokawloon, clube de Cairo que disputa a 1ª divisão do país. Para poder e estudar, passou a fazer o percurso entre as duas cidades, um trajeto diário de mais de cinco horas. Na época, conseguiu uma autorização para frequentar apenas duas horas de aula.

Salah. Foto: Reprodução/Twitter.

Ironicamente, a guinada na história de Salah acontece após a maior tragédia do futebol egípcio. No dia 1º de fevereiro de 2012, em uma partida entre Al Ahly e Al Masry em Port Said, a invasão das torcidas no gramado provocou um tumulto generalizado e cenas de violências. Ao todo, 74 pessoas morreram, a maioria delas pisoteada pela multidão ou vítimas de quedas das arquibancadas.

O dramático episódio fez com que a federação suspendesse o campeonato do país. Salah, à época, foi se juntar à seleção egípcia sub-23 para um amistoso contra o Basel, na Suíça. Destaque do jogo, logo assinou um contrato com o time da Basileia. De lá, seguiu para o Chelsea – onde jogou pouco – passou pela Fiorentina, foi destaque na Roma, até ser comprado pelo Liverpool por € 50 milhões. 

A trajetória do jovem muçulmano chama a atenção, mas não é diferente da de inúmeros craques surgidos no Brasil e no mundo. Impressiona mesmo são os poderes de Salah junto ao seu povo. Uma idolatria carregada de simbolismos.   

Valores faraônicos

Mesmo cotado para a Bola de Ouro da Fifa, famoso e bem-sucedido financeiramente, o jogador não demonstra ter esquecido suas origens e a dura realidade vivida por grande parte dos seus conterrâneos.

Em outubro de 2017, Salah marcou aos 50 minutos do 2º tempo o gol que garantiu a vitória do Egito diante do Congo. Um feito histórico que colocou o país das pirâmides na Copa da Rússia. Após a classificação, ele recebeu várias ofertas de recompensas. Mamdouh Abbas, um magnata local e antigo dono do Zamalek (um dos principais times do país) ofereceu uma mansão ao jogador. Ele recusou a benesse e pediu que o presente fosse revertido em dinheiro e doado para um centro comunitário de Nagrig.

A filantropia vai além dos pedidos de doações e, muitas vezes, vem do próprio bolso. Salah comprou ambulâncias e destinou recursos para construir uma escola, um hospital e campos de futebol na região onde nasceu. Também doou mais de R$ 2 milhões para um hospital de crianças com câncer conseguir manter o estoque de remédios.  

Salah, Graffiti em Cairo. Foto: Wikipedia.

Outro fato que reluz na biografia aconteceu justamente na vitória de 2×1 frente ao Congo. Enquanto Salah marcava os dois gols e terminava a partida nos braços da torcida, a casa de sua família em Nagrig era roubada. Dois dias depois o ladrão foi pego e iria para a cadeia. No entanto, o jogador convenceu seus familiares a não prestar queixa. Além do perdão, o atacante doou dinheiro e ajudou o homem a encontrar um emprego e recomeçar a vida. “Salah quer que todos tenham uma chance de melhorar e é por isso que ele está ajudando nossa nação a ser mais unida”, disse à ESPN Mahmoud Fayed, auxiliar do técnico argentino Héctor Cuper na campanha do Egito na Copa.

A seleção deixou a Rússia sem sequer pontuar. Combalido de uma lesão no ombro durante a final da Champions contra o Real Madrid, Salah jogou duas partidas e marcou um gol, na derrota de 3×1 para a Rússia. Mesmo sem conseguir classificar a equipe, ele já havia feito muito por seu país.

Legado de Salah

Nos últimos anos, o Egito foi muitas vezes capa dos jornais internacionais por razões desanimadoras. Em 2011, durante a chamada Primavera Árabe, milhares de pessoas saíram às ruas em protesto, o que culminou na queda do ditador Hosni Mubarak. De lá para cá, três novos presidentes chegaram ao poder, sem solucionar os inúmeros problemas do país. Em um contexto marcado por crises econômica e migratória, terrorismo e violações de Direitos Humanos, Salah parece ser o expoente máximo de orgulho e esperança do povo. Sentimentos que ecoam até mesmo na política.

No ano passado, os egípcios foram às urnas para escolher um novo governante. A vitória foi de Abdel Fattah Al-Sisi, reeleito com 92% dos votos. Segundo a revista The Economist, porém, a taxa de participação foi de apenas 42%. No total, mais de 1 milhão de pessoas votaram nulo e, entre elas, 700 mil escreveram o nome do craque do Liverpool nas cédulas de papel. Com 5% dos votos, Salah ficou à frente de Moussa Mustafa Moussa, candidato derrotado com 3% da escolha dos eleitores.

Tratado como uma espécie de herói nacional pelos egípcios, o craque tem sido também  uma influência positiva no Reino Unido. E isso vai muito além da conquista da 6ª sexta Champions pelo time da cidade dos Beatles.

Desde que ele chegou a Liverpool, os casos de crimes de ódio e preconceito diminuíram 18,9%, segundo um estudo feito pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “Poucas personalidades muçulmanas no dia a dia britânico foram tão abertos quanto à sua identidade como muçulmanos e adorados, como Salah”, concluiu a pesquisa. O protagonismo do atacante fez com que as pessoas passassem a estudar mais sobre o Islamismo e, assim, ser mais abertas e tolerantes a outras religiões. Mesmo sem saber, Salah tem usado o esporte como um importante instrumento para mudar um pouco as coisas. Mais um legado do Egito.

Salah é carregado por torcedores após a classificação do Egito para a Copa da Rússia. Foto: Reprodução/ Twitter.