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A morte do Sócrates

Alexandre Fernandez Vaz

Em poucos dias completam-se os seis anos da morte do ex-jogador de futebol Sócrates, ocorrida em 4 de dezembro de 2011, mesmo dia em que o Corinthians sagrou-se campeão brasileiro daquele ano. O título habilitou o clube a disputar a Copa Libertadores em 2012; vencida, levou o Timão ao Mundial Interclubes, também conquistado.

Sócrates não foi apenas astro do esporte mais popular no Brasil, mas singular figura pública desde o final dos anos 1970. Enquanto a ingestão de cicuta matou o filósofo, que a tudo preteriu para seguir a Lei da Cidade, o álcool envenenou o craque, levando-o à fragilidade do corpo e a encontrar precocemente, aos cinquenta e sete anos, a falibilidade da vida. Rebelde contra o governo das coisas no contemporâneo, resistiu o quanto pôde, em vida de artista, boêmio e intelectual, parecendo nunca ter tido medo, nem dos poderosos, nem de si mesmo. Manteve uma atitude inacreditavelmente corajosa, a mesma de sempre, até o último momento. Também por isso vale lembrar o que significa para o Brasil.

Sócrates foi um dos grandes jogadores do Corinthians Paulista. Conhecida como Fiel, sua torcida vê-se como sofredora, apesar dos significativos êxitos dos últimos vinte e cinco anos e de uma existência centenária que não pode ser considerada inglória. Tal sentimento, originário dos 23 anos, entre 1954 e 1977, sem qualquer título, consolidou-se porque permanece a mística de o time chegar à vitória nos últimos instantes da partida. Clube fundado por operários, enraizado nas camadas historicamente excluídas da sociedade, a identificação estrutural e imaginária dos mais pobres com o Corinthians se mantém hoje como orgulho e mola que impulsiona a paixão pelo clube. “Sou corintiano, maloqueiro e sofredor”, diz o coro.

Em terra onde ser chamado de Doutor é importante fator de distinção – quase sempre arbitrária e perversa – Sócrates era assim sinceramente referenciado pelos torcedores. Douto na bola, mas também formado médico pela Universidade de São Paulo, foi um jogador incomum pela habilidade de mover o corpo e controlar a pelota, mesmo sem grande condição física, mas com refinada técnica no passe e na finalização, rapidez de raciocínio e ampla visão de jogo. Capitão do selecionado brasileiro que encantou o mundo na Copa do Mundo da Espanha, em 1982, mas sucumbiu diante da implacável seleção italiana no episódio que ficou conhecido como Desastre do (estádio) Sarriá, era craque também fora do campo.

Sócrates foi protagonista do movimento pelas Diretas Já, que, no final da ditadura civil-militar que aterrorizou o país até a metade dos anos 1980, bradava pela recomposição democrática. Com as tornozeleiras amarelas, a cor das Diretas, a participação nas grandes manifestações populares e a promessa de não se transferir para o exterior em caso de aprovação da emenda constitucional que reinstituiria as eleições para presidente, esteve na linha de frente do processo.

Mas foi no Corinthians, clube em que brilhou entre 1978 e 1984 com três títulos paulistas e boas campanhas em brasileiros, que Sócrates corajosamente colocou em prática, de forma mais direta, suas ideias. De alma socialista e um tanto anárquica, liderou, com alguns companheiros, entre eles Wladimir e o hoje comentarista Walter Casagrande Jr., a Democracia Corinthiana, movimento que botou abaixo parte do autoritarismo tão presente entre nós.

Sócrates quando defendia o Corinthians. Foto: Filme Democracia em Preto e Branco (reprodução).

Sérgio Buarque de Holanda escreveu nos anos 1930 que a democracia no Brasil sempre foi um mal-entendido. Nessa experiência cultural tão importante para a sociedade brasileira que é o futebol, a marca do autoritarismo frequentemente esteve (e está) presente no regime de semiescravidão dos jogadores, na infantilização de suas condutas, na militarização do jogo, no despotismo das decisões administrativas.

Eis que Sócrates e seus companheiros, assessorados pelo publicitário Washington Olivetto e pelo sociólogo Adílson Monteiro Alves, instituíram o voto direto para as principais questões do time, inclusive as sobre a pertinência do regime de concentração antes dos jogos. Mais ainda, aproveitando que a Lei passara a autorizar o uso de propaganda nas camisetas dos clubes de futebol, entravam em campo com uma inscrição nas costas que não aludia propriamente a um produto, mas a uma concepção: Democracia Corinthiana é o que se via estampado, até que se proibiu a divulgação da marca, em cada uma das jogadas do Doutor, assim como nos momentos catárticos após os gols, quando os jogadores em júbilo, como é costumeiro, se juntavam em saltos e abraços. Um jogador de futebol, em meio a uma sociedade autoritária em que muitos se acostumaram a ter medo, podia ser politizado e desobediente. “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”, brandiam os corintianos, o grande craque à frente.

Um dos grandes prazeres da vida é poder lembrar. Pois bem, vi Sócrates em ação, acompanhado de meu pai e de meu irmão, em jogo do Corinthians contra o São Paulo Futebol Clube, time no qual anos depois brilharia seu irmão caçula, Raí (ele sim um atleta, dizia o mais velho, diferentemente dele, jogador quase por acaso, artista da bola antes de tudo). Foi em maio de 1979, no Estádio do Morumbi, e a criança que eu era ficou fascinada com o gênio que desmontava a defesa adversária com seus minimalistas passes de calcanhar. Anos depois, o adolescente secundarista esteve na manifestação pelas Diretas, na Praça XV de Novembro, centro de Florianópolis. Era um orgulho lutar pela democracia e ser de esquerda, como alguns, como Sócrates. Ainda é.

Ilha de Santa Catarina, novembro de 2017 (dezembro de 2011).

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. A morte do Sócrates. Ludopédio, São Paulo, v. 101, n. 25, 2017.