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Morte e vida futebol: os românticos do estádio Gran Parque Nacional, Montevidéu

Leda Costa

“A única maneira pela qual uma pessoa morta vive é na memória dos vivos” (Norbert Elias. A solidão dos moribundos)

Aquiles sabia disso e em busca da imortalidade lutava nos campos de batalha para que seus grandiosos feitos fossem lembrados ao longo de gerações. O risco da morte era iminente em cada guerra, porém para os heróis épicos mais vale uma curta existência terrestre do que uma vida inteira confinada ao esquecimento. Portanto, há uma relação quase que íntima entre os heróis e a morte que, muitas vezes, é buscada, a partir de um deliberado enfrentamento. Muitos heróis sucumbem diante da morte, para ao mesmo tempo poder superá-la rumo à eternidade

A morte não é elemento imperativo nas narrativas dos heróis modernos, o que fica claro nos romances, no cinema de Hollywood e na ampla produção de HQs. E muito menos comum nos esportes, um dos mais exitosos produtores de figuras heroicas da contemporaneidade.

Os heróis do futebol, embora incorporem um perfil agonístico, travam combates miméticos como diria Norbert Elias no livro Em busca da excitação. Por isso, ao contrário dos campos de batalha reais, os de futebol apenas simulariam enfrentamentos que teriam como derivado a vitória ou a derrota, sem o comprometimento da integridade física de seus “combatentes”.

Portanto, os jogadores podem lutar, ir ao limite de seu físico, mas é de se esperar que eles se mantenham vivos ao final. Talvez o que haja mais próximo da morte seja a derrota, que também permanece num nível simbólico. A morte física, e em campo, não faz parte do que se espera de um herói da bola ou dos heróis esportivos de um modo geral.

Mas o jogador Abdon Porte quebrou essas expectativas, pois, no dia 5 de março de 1917 se suicidou no meio do campo do Gran Parque. Seu grande temor do esquecimento, ou melhor dizendo, da consciência do esquecimento, fez com que preferisse a morte para, assim, sair da vida e entrar na história como diz a famosa frase de Getúlio Vargas.

Abdon Porte conseguiu o que pretendia, pois ele dá nome à tribuna onde assisti ao jogo Nacional X Rentistas. Situada atrás do gol, é o local mais popular do estádio, recebendo a barra que é como se costuma chamar o agrupamento de torcedores que participa de modo mais intenso dos jogos, cantando, portando bandeiras, jogando papel, fazendo bastante barulho e ficando em pé nas arquibancadas.

Meu ingresso

Meu ingresso

O ex-jogador do Nacional, ídolo incontestável ao longo de cinco anos, cravou seu nome na história do clube, afinal não apenas viveu, como também morreu no gramado do Gran Parque Central.

Temos então um estádio e uma torcida em que vida, morte e futebol deram as mãos.

GRAN PARQUE CENTRAL, MEMÓRIA, ESQUECIMENTO E PAIXÃO

Assim como ocorreu com todos os outros estádios que visitei no Uruguai, não planejei nada e muito menos busquei informações prévias do lugar. Em certa medida, minha ida aos estádios em Montevidéu foi uma espécie de aventura. No caso do Gran Parque, até que foi uma aventura menos complicada, porque seu acesso é fácil, bastando ter como guia a gigantesca rua General Artigas que corta quase que a cidade inteira.

O Gran Parque foi erguido pela empresa Tranvias a la Unión y Maroñas proprietária do terreno sobre o qual construiu dois campos, um com saída para rua Camino Cibilis e outro para a 8 de outubro. O maior deles, o com saída para Cibilis, foi dado ao Deutscher Fussball Klub de Montevideo, um dos fundadores da AUF. Nesse campo, realizou-se a partida inaugural do Gran Parque Central, disputada entre Deutscher Fussball Klub e o CURCC (Central Uruguay Railway Cricket Club) que, em 1913, passaria a se chamar Peñarol. Por isso os Carboneros – como são conhecidos os torcedores do Peñarol – costumam provocar o pessoal do Nacional, afirmando que inauguraram o Gran Parque, no dia 25 de maio de 1900.

Fonte: http://www.carbonerodigital.com/2015/05/el-dia-que-penarol-inauguro-el-parque.html

Na página oficial do clube Nacional há todo um espaço dedicado ao Estádio Gran Parque e no que se refere a sua história consta a indicação da data de inauguração: “El 25 de mayo de 1900, abría sus puertas el Gran Parque Central”.  Porém, não há referência alguma ao jogo Deutscher Fussball Klub e Central Uruguay Railway Cricket Club (Peñarol). A memória também é feita de esquecimentos, alguns deles propositais como é o caso do Nacional que prefere ter como marco do Gran Parque, o dia 27 de maio de 1900, que foi a primeira vez em que nele jogou, em partida contra o mesmo Deutscher Fussball Klub, com quem empatou em 1 a 1. Em 1911, o Gran Parque tornou-se propriedade exclusiva do Nacional. Nesse período, o estádio já havia passado por sua primeira obra, sendo ampliado e podendo comportar 15 mil pessoas. Em 1930, o estádio recebe alguns jogos da Copa do Mundo entre os quais Iugoslávia  2 X Brasil 1 e Argentina 1 x França 0

Várias foram as obras pelas quais passou o Parque cujo passo a passo pode ser encontrado no site do clube. A última dessas reformas é aquela que teve início em 2003 que objetivava seguir as recomendações da Conmebol para que o estádio pudesse receber partidas da Libertadores. Essas reformas continuam e o objetivo é fazer com que o Parque, em 2016, receba cerca de 40 mil pessoas com as reformas para ampliação de seus espaços.

E um dos espaços ampliados foi a tribuna Obdon Porte que passou a comportar cerca de 3600 torcedores.

VIVER E MORRER  PELO FUTEBOL

Abdon Porte começou a jogar pelo Nacional em 1911 e lá ficou durante sete anos, onde foi capitão e reconhecido por um estilo de jogo aguerrido que costumava agradar aos torcedores. Foi campeão 19 vezes pelo Nacional, incluindo torneios diversos.

No belo livro Morir de Fútbol  fala-se no Prólogo que Abdon nascera em 1800, mas diversas outras fontes indicam 1893. Essa indeterminação se reflete nas dúvidas quanto à idade em que o jogador teria falecido, 37 ou 25 anos. Mas se existe indefinição na data do seu nascimento, não há dúvidas quanto a de sua morte: 5 de março de 1918 quando pela manhã seu corpo foi encontrado no meio do campo do estádio Gran Parque.

No dia anterior, 04 de março, Porte havia atuado na partida contra o Charley, vencida pelo Nacional por 3 a 1. E ao que parece o jogador já sabia que aquele seria seu último jogo como titular do time, já que os dirigentes do Nacional planejavam uma reformulação no elenco. Abdon não conseguiu aceitar esse fato, porque sinalizava o declínio de sua carreira e de sua vida atlética.Como era de costume, os jogadores do Nacional se reuniam após os jogos para comemorar suas vitórias. E lá estava Abdon que mesmo após o término do festejo permaneceu na sede do clube. De madrugada ele entrou no estádio Gran Parque se dirigiu ao meio do campo e disparou um tiro de revólver contra si mesmo. Na manhã do dia 5 de março seu corpo foi encontrado. Na mão esquerda havia um bilhete em que se podia ler o seguinte recado direcionado ao presidente do Clube, José Maria Delgado:

“Querido Doutor e presidente: confio-lhe minha velha e minha noiva. O senhor sabe, meu querido doutor, porque faço isto. Viva o clube Nacional”

Na sequência do bilhete, havia alguns versos dedicados ao clube que defendia:

“Que esteja sempre adiante
O clube dos nossos anseios
Dou meu sangue por todos os companheiros,
Agora e sempre o clube gigante
Viva o Clube Nacional”

O ato extremo de Abdon foi matéria do conto “Juan Polti Half back” de Horácio Quiroga um dos maiores nomes da literatura Uruguaia. Quiroga imaginariamente reelaborou a história, apenas trocando o nome do jogador, na tentativa de entender os significados de um ato tão extremo. No conto, o narrador comenta que a morte do jogador era resultado dos anos de glória em que vivera, afinal “Nada menos que a glória é gratuito. E, se é assim obtida, é fatalmente paga com o ridículo, ou com um revólver no coração”.

Vivendo dos campos de futebol desde os 15 anos, jogando em clubes de pouca expressividade, Porte conseguiu a chance de vestir a camisa do Nacional, gesto que se repetiu por mais de 250 vezes. Suas atuações o levaram a seleção uruguaia que defendeu no campeonato Sul-americano de 1917. A fama, a idolatria junto aos torcedores e as conquistas esportivas que levaram anos, provavelmente se perderiam em pouco tempo.

Talvez nas profundezas de seu pensamento Abdon tenha concluído que “o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer” (Albert Camus). Para os torcedores o suicídio de Abdon significou uma clara demonstração de que se vive para o Nacional e também por ele se morre. Por isso, ele foi convertido em herói, não aquele do tipo épico, cuja morte nunca ocorre por intermédio de suas próprias mãos. Abdon é um herói romântico capaz de ser levado pelas emoções até mesmo quando elas o conduzem para o fim derradeiro. O ex-jogador é uma espécie de Werther do futebol, que prefere matar-se a passar a vida longe do ser amado.

Os torcedores certamente assim o idealizam.

abdon_Porte_idoloPorém, Abdon também evidencia um importante drama dos esportes – e talvez da vida – que é o risco do esquecimento, ou pior, da consciência de que fomos esquecidos, sobretudo após uma longa convivência com a fama. No livro Água-Mãe de José Lins do Rego, essa temática surge por intermédio do personagem Joca, um rapaz que conhece a fama do futebol, ao jogar pelo Fluminense do Rio. Porém, ao ficar doente afasta-se do futebol e volta à terra natal, onde agoniza os últimos dias de vida, deitado em uma cama. Por isso comenta o narrador: “Era este que dava retratos para as revistas e para os jornais. Joca não era mais nada”.

Esse risco, Abdon percebeu agigantar-se ao saber que não seria mais o titular do Nacional, então optou pela morte que acabou por conduzi-lo à permanência na memória do clube

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Entrada da Tribuna Abdon Porte. Foto: Leda Maria da Costa.

Agora vamos falar dos vivos.


Sentimentos topofílicos com o Gran Parque

Pelo que pude perceber os torcedores uruguaios gostam de deixar suas marcar inscritas nos muros de seus estádios e clube. Vi esse fenômeno no Wanderers, no River Plate de Montevidéu e no Nacional.  Fiquei fascinada com esses desenhos que passam certa atmosfera de liberdade dos torcedores para tornarem ainda mais pública sua paixão pelo clube e para demarcarem seu território.

Não considero essas inscrições como sinal de desleixo e muito menos desrespeito dos torcedores. Ao contrário essas inscrições passam a impressão de que os torcedores mantêm com o estádio uma relação de topofilia, notável desde o lado de fora do Gran Parque.

Então, chegou o momento de entrar no estádio. Mas por muito pouco quase fui impedida de passar pelas catracas do Gran Parque, afinal eu estava de mochila, item proibido.

Por isso, se você for a um estádio no Uruguai, não leve mochilas ou bolsas grandes, porque provavelmente você será barrado na entrada. Por isso um dos itens mais comuns entre os torcedores uruguaios é uma pequena bolsa que se carrega pendurada, muitas das quais licenciadas pelos próprios clubes. Porém, eu estava de mochila e durante a revista policial, fui comunicada de que não poderia entrar desse modo. O que me salvou foi o fato de ser estrangeira, algo que provavelmente sensibilizou a policial que me deixou entrar. Mas com um alerta: “guarde sua câmera, você pode ficar sem ela”

Aliás, não era a primeira vez que me avisavam dos perigos de se frequentar as tribunas onde as barras ficam. Quando fui comprar ingressos para os jogos que pretendia assistir em Montevidéu, o vendedor me aconselhou a escolher outra parte do estádio, que fosse mais tranquila e segura. Como eu acredito que há certo exagero nesse perfil perigoso que se constrói em torno de alguma parcela das torcidas de futebol, optei por ficar próxima a barra do Nacional. Optei pela tribuna Obdon Porte.

Os românticos de Abdon Porte

Ainda preciso desenvolver melhor essa hipótese, mas, cada vez mais tenho pensado certos torcedores como atuais representantes do Romantismo e do seu apego aos ideais de uma emoção desmedida e que foge à racionalidade, assim como ao sofrimento. No caso da torcida do Nacional esse romantismo se encarna perfeitamente na idolatrada figura de Abdon Porte e na crença de que pelo clube de coração vale tudo. Há romantismo também na preferência por torcer de pé, festejando e demonstrando emoções despertadas pelo clube.

Torcer de pé, em um espaço apertado, onde muitos se espremem e mal conseguem ver o jogo é uma espécie de sacrifício ostentado por torcedores que acreditam que todos esses atos são fruto de “un sentimiento, que se lleva adentro, no puedo parar”, assim como diz uma das canções dos torcedores do Nacional.

Se fora do estádio o espaço é grande, do lado de dentro da Tribuna tudo se reduz.

A atmosfera das torcidas no Uruguai – pelo menos as duas que mantive contato – é bastante diferente das torcidas no Brasil. O incentivo, ou alento como se costuma chamar, é constante, mesmo quando o time está perdendo ou jogando mal. Pelo pouco que pude perceber a derrota não é fator que silencia ou leva os torcedores a vaiarem, como ocorre nas arquibancadas brasileiras. 

Não lembro de ter ouvido qualquer tipo de xingamento direcionado aos jogadores do Nacional que tivessem saído da boca de sua torcida. Obviamente que não faltavam ofensas ao Peñarol, principal adversário. Mas contra o Nacional não ouvi nada. Não posso afirmar que esse tipo de comportamento se estenda aos clássicos ou jogos de grande apelo emocional. Porém, Nacional x Rentistas era uma partida de razoável importância, já que uma vitória do Bolso colocaria o time do Gran Parque muito próximo da liderança do Apertura, que até o momento era liderado pelo Peñarol. Ou seja, havia muitos motivos para cornetar o time que, aliás, jogava de modo apático. Mas preferiu-se outros modos de torcer.

E por sorte os torcedores do Nacional – e eu – assistiram a um jogo tecnicamente ruim, mas muito empolgante com direito a gol de pênalti cobrado por Loco Abreu, um dos ídolos do clube e do futebol uruguaio. Os Rentistas empataram e depois viraram o placar a seu favor, mesmo perdendo um pênalti. Tive a impressão de que a perda desse pênalti deveu-se, em grande medida, a uma jovem torcedora que resolveu não assistir a cobrança e ficar rezando.

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Foto: Leda Maria da Costa.

Quando tudo parecia perdido, mas a música e o bumbo continuavam a tocar, misturados a um sufocante cheiro de maconha cujo uso foi liberado no Uruguai. Até que o Nacional empatou em 2 a 2 e aos 44 minutos fez seu terceiro gol, vencendo a partida. O resultado foi comemorado como se fosse uma conquista de campeonato.

Me  despedi do estádio e naquele momento eu não tinha a mínima ideia da história que estava por trás do nome Abdon Porte, apenas sabia que havia realizado um sonho de boleira.

Com as músicas da torcida do Nacional ainda latejando na minha cabeça, fui à procura de um caminho que me levasse de volta a meu lar temporário em Montevidéu. Perguntado aqui e ali, embarquei em um ônibus rumo ao bairro Pocitos. Exausta e carregando uma bandeira do Nacional, morria de ansiedade para saber o resultado do jogo do meu time Vasco que naquele dia jogava contra o Santos. 

Naquele dia ainda havia esperança cruzmaltina de não cair novamente.


Bons tempos.