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“Cartas de Março”; mulheres contam suas histórias no futebol

Ana Vitória Kliemaschewsk, Sissi

Em “Cartas de Março” publicaremos trocas de correspondências entre jogadoras, torcedoras, árbitras, dirigentes e outras protagonistas do futebol.

Coisa de menina

Ilustração: Lais Batini

Nesta nova entrega da série especial do Puntero, duas mulheres que souberam conquistar seu espaço dentro de campo.

Aos 51 anos, Sissi olha para a carreira feita e sorri. Nos anos 1990 e 2000, ela era a camisa 10, referência de uma Seleção Brasileira feminina que começava a ganhar visibilidade. Foi uma das maiores jogadoras da história e tornou-se personagem do livro She Persisted, que selecionou 13 relatos de mulheres que nunca desistiram de seus sonhos.

Porque antes de Marta, houve Sissi.

Aos 18 anos, Ana Vitória é a habilidosa meia do Corinthians, clube com o qual já faturou uma Libertadores, e a capitã da Seleção Brasileira sub-20. Percorre os primeiros passos de uma carreira muito promissora. Com a vontade de quem quer conquistar o mundo, Ana recebe as palavras de Sissi e sugere um pacto que deixa a todos nós na torcida.

Porque depois de Marta, haverá Ana.

Walnut Creek, Califórnia, 2 de Agosto de 2018

Oi Ana Vitória,

Tudo bem?

Aqui é a Sissi, ex-jogadora da Seleção Brasileira.

Nasci na cidade de Esplanada, no interior da Bahia, e a minha paixão pelo futebol começou cedo, exatamente aos 7 anos de idade por causa do meu pai e meu irmão.

Só que toda vez que eu tentei jogar com eles a resposta era sempre a mesma; “futebol é coisa pra homem, vai brincar com as suas bonecas”.

Como sempre fui persistente, imagina se eu ia deixar barato.

Sabe o que eu usei para dar meus primeiro dribles e chutes? As cabeças das minhas bonecas, já que eles não me deixavam jogar com a única bola que havia em casa.

Eu deixei todo mundo na bronca por causa disso, e a minha persistência foi tanta que finalmente meu pai me deu de presente a minha primeira bola.

Que felicidade!

Naquela época tinha uma lei que proibia a mulher de jogar futebol, então você já deve imaginar que nada foi fácil. Eu tinha sonhos, queria jogar profissionalmente, vestir a camisa da Seleção e ver outras meninas jogando também.

Apesar dessa lei, continuei acreditando que um dia teríamos o direito de praticar o esporte que todos diziam ser coisa de homem. Você acha que eu iria desistir dos meus sonhos? De jeito nenhum.

Aos 11 anos, e já morando na cidade de Campo Formoso, finalmente um dos meus desejos se tornou realidade. Eu encontrei meninas jogando futebol. E eram muitas! Aos 14 fui convidada para jogar no Flamengo de Feira de Santana e mesmo com pouca idade, sem conhecer ninguém, lá fui eu mais uma vez em busca do que queria.

Sacrifícios, longe da minha família, dos amigos, enfim, como te disse antes, não foi nada fácil. Persistente, batalhadora e sonhadora, essa sou eu. Desistir jamais. Continuei acreditando que no final tudo valeria a pena.

Eu falei em vestir a camisa da Seleção, né?

Então, e não é que isso aconteceu?

Em 1988 o Radar foi a base da primeira Seleção Brasileira e eu fui convocada para participar do primeiro Mundial experimental organizado pela FIFA. Foi realizado na China, ficamos em terceiro e eu fiz o meu primeiro gol vestindo a camisa 10. Foi contra a Noruega. Que emoção, que orgulho! Jamais esquecerei aquele grupo e aquela experiência.

Depois disso, mais um desafio. E que desafio.

Morar em São Paulo e finalmente jogar profissionalmente. Joguei por várias equipes e tive a felicidade de conhecer muitas pessoas e lugares. Pessoas que foram fundamentais na minha carreira e serei eternamente grata.

Com a Seleção, joguei dois Mundiais e duas Olimpíadas. Meu melhor momento com a Amarelinha foi em 99 nos Estados Unidos. Difícil não contar para você o que aconteceu naquele Mundial.

Meu Deus, quem poderia imaginar que aquela garota do interior da Bahia um dia se tornaria a segunda melhor jogadora do mundo? Um momento mais do que especial. E não apenas para mim, mas para o grupo todo. Finalmente pudemos ver a grandeza do futebol feminino.

Bom, depois das Olimpíadas de Sydney eu fui chamada para jogar na primeira liga profissional nos Estados Unidos, em 2011. Joguei três anos pelo San Jose Cyberrays. Infelizmente em 2003, depois da temporada, a liga acabou. Voltei para o Brasil sem saber qual seria o meu futuro.

Quando achei que seria forçada a me aposentar antes da hora, recebi outro convite para voltar aos Estados Unidos e jogar pelo California Storm, time que atuo até hoje.

Vim e resolvi ficar. Hoje são dezessete anos morando aqui e sinceramente só tenho motivos para agradecer. Além de atuar pelo Storm, sou a treinadora do Walnut Creek Surf Club e também trabalho como auxiliar técnica do Solano College.

Aqui o futebol feminino é respeitado e tem o próprio espaço. É o que eu espero que aconteça no Brasil.

Por isso continue lutando e acreditando nos seus sonhos. Não desista nunca.

Desejo, do fundo do meu coração, muita sorte a você, e como elas dizem por aqui: “dreams do come true”.

Um beijo,

Sissi

 

São Paulo, 9 de Outubro de 2018

Querida Sissi,

Que alegria receber uma carta sua. É uma honra para mim, que estou no início de carreira, saber que uma das maiores jogadoras de todos os tempos e, sem dúvidas, um espelho para mim, me admira e reservou um pouco de seu tempo para escrever palavras tão bonitas.

É interessante ver como nossas histórias se assemelham, mesmo com o período de tempo que as separam. Acredite, eu também passei por grandes dificuldades para chegar onde estou. Tive que enfrentar diversas barreiras e desconfianças.

Muitos pensaram que aquele sonho da menina de Rondonópolis (MT), que jogava no meio dos meninos e, certa vez, chegou a ser impedida de disputar um campeonato pelo simples fato de ser mulher, seria apenas um devaneio, que terminaria rápido.

Tudo isso poderia me desanimar, mas a verdade é que todas os obstáculos apenas me fortaleceram e encorajaram a chegar onde estou. Devo muito também a minha família, que me apoiou em todos os momentos. Tenho um pai que nunca deixou que eu desanimasse e deixasse de sonhar. Até hoje, em momentos importantes, eu tenho a certeza de que ele estará ali na arquibancada, me apoiando, aconteça o que for.

Preciso também agradecer a você por toda a ajuda. Sim, nós ainda não nos encontramos, é verdade, mas não tenha dúvidas que sua brilhante trajetória, dentro e fora das quatro linhas, fez com que meu caminho fosse menos duro e injusto. Se em pleno Século XXI passei por tudo que vivi, é inevitável imaginar e aplaudir a honradez de vocês, que colocaram o futebol feminino brasileiro no mapa, mesmo com todos os preconceitos e dificuldades.

Hoje estou no Corinthians e integro a Seleção Brasileira Sub-20. Não tenha dúvidas que quero ainda mais e tenho certeza que juntas, mesmo com a distância, conseguiremos colocar o futebol feminino no patamar que a modalidade merece. E, otimista que sou, deixo a minha promessa de que quando isso acontecer, serei sempre a primeira voz a lembrar de você e sua geração brilhante, que abriram caminhos para que tudo isso fosse possível.

Beijos e minha admiração,

Ana Vitória Kliemaschewsk


Puntero Izquierdo menorPublicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2018. O Puntero em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.

 


Financiamento Coletivo Ludopédio

Como citar

KLIEMASCHEWSK, Ana Vitória; SISSI, . “Cartas de Março”; mulheres contam suas histórias no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 58, 2021.