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Mulheres futebolistas: Marta e as pioneiras de 1980

Heloisa Helena Baldy dos Reis, Mariana Zuaneti Martins

Há tempos não assistíamos a um jogo de Copa do Mundo em que houvesse uma chuteira preta, sem patrocinadores. Comum é que as chuteiras sejam coloridas e que tenham estampadas de forma bem visível o logo da empresa de material esportivo que, via de regra, patrocina o/a jogador/a. Por isso, foi tão chamativa a chuteira calçada pela jogadora Marta, em sua estreia na Copa do Mundo, de 2019. Preta e com apenas duas barras horizontais, uma azul e outra roxa, a chuteira estampava um protesto silencioso, mas não menos importante pela sua sutileza. A jogadora veiculava a campanha “go equal”, cujo objetivo era de reivindicar reconhecimento das jogadoras do futebol praticado por mulheres, e a equidade na distribuição dos recursos, já que as futebolistas recebem salários bem inferiores aos homens[1]. Essa Copa também foi marcada por outros protestos, como o da jogadora Megan Rapinoe, dos Estados Unidos, que protestou durante a apresentação do hino de seu país, tanto pelos direitos LGBTs, quanto, assim como Marta, pela desigualdade de condições ofertadas no futebol[2]. Além disso, a norueguesa Ada Hegerberg, premiada pela FIFA como a atual melhor jogadora do mundo, recusou-se a jogar pela seleção nessa Copa em função da disparidade de tratamento e pagamento entre homens e mulheres no futebol de seu país[3].

 

Na Copa do Mundo de 2019, Marta fez de pênalti gol contra a Austrália usando sua chuteira Go Equal, que defende a igualdade de gênero no futebol. Foto: Rener Pinheiro/MoWA Press.

O protesto dessas três atletas ilustra o momento atual em que vivemos, de um incentivo e financiamento do futebol de mulheres pelo mundo. Nessa esteira, no último ano, assistimos a diversos recordes de público relacionados ao futebol de mulheres, fato que colaborou para o interesse por essa Copa. A Nike, recentemente, promoveu por meio de um comercial uma campanha pelo reconhecimento das mulheres no futebol, no qual uma garota se via como jogadora, treinadora e árbitra. Ao final dele, aparecia o lema “não mude seu sonho, mude o mundo”.

Institucionalmente, tais iniciativas estão atreladas à recente obrigatoriedade dos clubes de futebol criarem equipes femininas. Esse incremento advindo dessa nova norma atestou que o que impedia a modalidade de crescer não era o desinteresse do público, mas das próprias diretorias dos clubes. Medidas como essas não são tão novas assim. Às vésperas da Copa do Mundo de 2011, a FIFA iniciou uma campanha para promover o futebol feminino, intitulado “live your goals”. O objetivo principal dela era suscitar a prática de futebol por mulheres e meninas, além de, a partir daí, promover a inserção do futebol na sua vida cotidiana, seja como praticante ou como espectadora. Apesar de todas as resistências – que fizeram com que o futebol praticado por mulheres só entrasse no programa olímpico em 1996 –, o recado da FIFA é que a expansão dessa modalidade estava a alcançar um teto se continuasse sendo um mercado puramente masculino. Ou seja, incrementar a participação das mulheres era uma estratégia sobretudo para aumentar os domínios globais e mercantis da FIFA. Portanto, se as mulheres são o veículo para expansão do futebol, nada mais justo do que reconhecê-las enquanto tal e valorizá-las.

Para compreender como chegamos a esse momento, de crescimento do futebol de mulheres numa perspectiva global, é necessário resgatarmos um pouco da história recente, quando, a partir da  década de 1970, alguns torneios mundiais femininos começaram a ser criados (COSTA, 2017)[4]. No Brasil, todavia, esses movimentos ainda repercutiam timidamente, uma vez que o futebol de mulheres foi proibido de 1941-1979 (SALVANI; MARCHI JUNIOR, 2013), o que evidentemente não significou a inexistência do mesmo, conforme apontou Silvana Goellner (2005) e Leda Costa (2017). Todavia, a década de 1980 foi marcante em nosso país, quando surgiam pressões para a regulamentação do futebol de mulheres no país, o que veio a acontecer em 1983 (COSTA, 2017). Leda Costa (2017) registrou declarações de Telê Santana e de João Havellange reconhecendo que a prática já ocorria largamente nas praias da zona sul carioca e que o Brasil deveria se preparar para ter uma seleção para disputar o torneio mundial da modalidade que a FIFA estava se preparando para organizar.

Esta década ainda foi marcada pela presença do clube E.C. Radar, equipe de mulheres iniciada no ano de 1981. Na historiografia do futebol de mulheres, é comum tomar este clube como o pioneiro do futebol de mulheres no Brasil nos tempos recentes, uma vez que ele se apresentava com uma infraestrutura e apoio mais significativo que os outros clubes que foram surgindo. Todavia, a presença das mesmas não foi isolada e uma série de clubes se desenvolveram simultaneamente no país. Na década de 1980 mesmo, Suraya Darido (2002) mencionou a presença de mais de 40 clubes, o que é ratificado por uma reportagem da Placar, que menciona 45 (SALVANI; MARCHI JUNIOR, 2013). Esse crescimento vertiginoso do futebol mulheres demonstrou que, à revelia da lei, as mulheres jogavam futebol. Não obstante, a proibição impedia o fomento e organização das entidades futebolísticas nessa modalidade esportiva para mulheres, o que comprometeu enormemente o aumento do número de futebolistas no país, assim como um maior aprimoramento técnico-tático.

Nesse sentido, pode-se considerar que as atletas dessa geração, assim como seus clubes – a margem do circuito profissional do futebol, da primeira metade da década de 1980 – provavelmente já existiam desde a década de 1970. Essa geração de pioneiras, em todo o Brasil, teve que viver uma história de resistência às interdições cotidianas que cultural e legalmente afirmavam que as mulheres não poderiam e deveriam se dedicar à prática de futebol. A proibição implicava, por exemplo, a não permissão de jogar bola nas aulas de educação física, espaço que, até os dias de hoje, é um dos principais formadores de atletas para as equipes femininas de futebol e futsal (ALTMANN; REIS, 2013; SOUZA; MARTINS, 2018). Foram motivadas pelo sonho de jogar bola que muitas mulheres foram enfrentando preconceitos cotidianos em função de machismo ou mesmo da suspeição de suas sexualidades, para poderem se dedicar ao futebol. Enny Moraes (2014) narrou diversas histórias de mulheres do interior da Bahia, que enfrentaram a falta de infraestrutura e de espaços para treinar e jogar, o preconceito da família e das pessoas próximas, para sonharem com uma década seguinte de mais dignidade, na qual o país do futebol se tornasse uma realidade para as mulheres também.

Pioneiras dos anos 1980, Radar representou a seleção brasileira. Foto: Reprodução.

Essa geração da década de 1980 foi fundamental para que hoje as atletas possam se engajar em batalhas por seu reconhecimento e a melhoria dos recursos disponíveis para tal. Por exemplo, é inimaginável para as gerações atuais de futebolistas o que significou para as pioneiras, apesar de suas lutas, não terem o direito de defender uma seleção nacional, pois esta não existia. As interdições culturais e legais que as pioneiras enfrentaram fizeram com que não pudessem chamar tanta atenção em seus protestos e por isso, sua resistência não atraiu tanto a atenção da mídia[5], da academia e dos círculos de resistência. A década de 1980, marcada por uma grande ascensão dos movimentos sociais, ainda não politizava tão fortemente todas as esferas da vida, como a do lazer e do esporte, para denunciar o quanto eram precárias as vidas e as condições daquelas mulheres e o quão grande era a luta que elas travavam. Sem dúvida, seus protestos eram tão silenciosos quanto os de Marta, ou quanto os de Rapinoe, que não canta o hino nacional, ou mesmo de Hegerberg, que se retira dos holofotes do evento mundial. Mas a potência desse silêncio, vocalizada na sua resistência e permanência em campo ressoa até hoje quando nos damos conta que o futebol de mulheres hoje é uma realidade crescente no Brasil por conta da história delas, que ousaram infringir a lei e desafiar a cultura e todos os preconceitos, para lançarem seus corpos de mulher, como narra Eduardo Galeano, na proibida aventura de liberdade.

Referências

ALTMANN, Helena; BALDY DOS REIS, Heloisa Helena. Futsal feminino na América do Sul: trajetórias de enfrentamentos e de conquistas. Movimento, v. 19, n. 3, 2013.

COSTA, Leda Maria da. “O Futebol feminino nas décadas de 1940 a 1980”. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, n. 13, Rio de Janeiro, 2017, p. 493-507.

DARIDO, S. C. Futebol feminino no Brasil: do seu início à prática pedagógica. Motriz, Rio Claro, v. 8, n. 2, p. 43-49, 2002.

GOELLNER, S. V. Mulher e esporte no Brasil: entre incentivos e interdições elas fazem história. Pensar a Prática, Goiânia, v. 8, n. 1, p. 85-100, 2005.

MORAES, Enny Vieira. Fazendo gênero e jogando bola: futebol feminino na Bahia anos 80-90. EDUFBA, 2014.

SALVINI, Leila; MARCHI JÚNIOR, Wanderley. Uma história do futebol feminino nas páginas da revista Placar entre os anos de 1980-1990. Movimento, v. 19, n. 1, 2013.

SOUZA, A .C. F.; MARTINS, M. Z. O paradoxo da profissionalização do futsal feminino no Brasil: entre o esporte e outra carreira. Pensar a Prática, v. 21, n. 1, 2018.

Notas

[1] A campanha pode ser visualizada pela página do Instagram @goequal. Disponível em: <https://www.instagram.com/goequal/tagged/>. Acesso: junho, 2019.

[2] Conforme reportagem disponível em: <https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/06/17/nao-e-so-o-hino-a-representatividade-de-megan-rapinoe-vai-alem-do-campo/>. Acesso: junho, 2019.

[3] Conforme reportagem disponível em: <https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/5713801/eterna-promessa-do-real-madrid-detona-melhor-jogadora-do-mundo-por-nao-disputar-a-copa-feminina>. Acesso: junho, 2019.

[4] O primeiro Campeonato de Futebol Feminino em 1970, apoiado pela Federação de Futebol Europeu Feminino, contou com seleções europeias, mas também com a Mexicana; a segunda edição, em 1971, contava com a seleção Argentina. A realização desses campeonatos atesta o que Costa (2017) considerou o movimento globalizante do Futebol Feminino daquela década.

[5] Uma exceção deve ser relatada que foi o ineditismo da recém criada Band em fazer as primeiras transmissões e ao vivo de jogos de futebol de mulheres de São Paulo nos anos de 1983/84.