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#MulheresNoFutebol: quando o machismo do esporte está explícito nas palavras

Izadora Silva Pimenta

Em dezembro, publiquei um artigo em co-autoria com meu atual orientador no mestrado, Prof. Dr. Rodrigo Esteves de Lima-Lopes, a respeito de uma hashtag que repercutiu no Twitter ao longo do mês de maio, a #MulheresNoFutebol. Incentivada por mulheres torcedoras do Atlético Mineiro, a hashtag tinha como objetivo explicitar o machismo presente dentro do esporte, bem como abrir espaço para mostrar a visibilidade feminina em um campo predominantemente masculino.

Tendo isso em vista, nosso objetivo foi coletar a primeira semana de vida desses tweets, o que nos rendeu —  excluindo retweets — 545 tweets para análise. Por meio da Linguística Sistêmico-Funcional e do Sistema de Avaliatividade, que são os aparatos metodológicos que utilizamos em nossas pesquisas, analisamos esse corpus para buscar marcas de Julgamento nas postagens que continham a hashtag, como forma de identificar os padrões a partir dos quais o futebol é retratado como um meio predominantemente masculino e como as mulheres são excluídas desse processo. Tivemos também o auxílio de um software de corpus, o Sketch Engine, que nos permitiu compilar esses tweets e visualizar esses padrões a partir de algumas palavras-chave.

Nossos resultados corroboraram o fato de que grande parcela dos julgamentos diz respeito ao questionamento do conhecimento de mulheres sobre regras e outros elementos relacionados ao futebol. Os relatos de mulheres em torno dessa hashtag demonstravam o quanto estas são frequentemente questionadas a respeito da escalação de times ou sobre a regra do impedimento dentro do esporte.

A comparação com o homem para o julgamento de mulheres também é algo frequente dentro desse corpus, sendo para ressaltar que “futebol é coisa de homem” ou comparar mulheres que gostam de futebol com homens, atribuindo que estas teriam um comportamento típico masculino. Mesmo quando os conhecimentos de uma mulher relacionados ao futebol são elogiados, a comparação com homens também se faz presente.

#MulheresNoFutebol

Mulheres que se afirmam enquanto torcedoras também relatam os questionamentos recebidos após essa afirmação. A comparação com o masculino aparece mais uma vez, bem como o papel de torcedora também é visto como um papel de “musa” ou de “bibelô” dentro de uma torcida, trazendo um papel meramente decorativo para essas mulheres. Há, ainda, o questionamento em torno de mulheres torcedoras que são julgadas por gostar de futebol apenas pela atração física por um determinado jogador.

Dentro da Linguística Sistêmico-Funcional, entendemos que “a construção do significado é o resultado de uma interação entre fatores ideológicos que motivam os sistemas de escolha e de representação” (LIMA-LOPES; PIMENTA, 2017). Por meio do corpus coletado, foi possível, assim, explicitar este lugar do feminino enquanto inferior e menos qualificado do que o masculino, atribuindo à mulher um papel de torcedora de segunda classe.

A comparação de mulheres com homens na prática do futebol é uma frequente realidade que foi questionada recentemente pela Cristiane, atacante da seleção brasileira de futebol feminino. Na ocasião, ela apontou que as mulheres são lembradas apenas em situações nas quais o futebol masculino também está em discussão. Ou seja: as jogadoras também brigam para que o futebol feminino se sustente sem a imagem do masculino como plano de fundo.