95.2

Na dúvida, culpe a (maldita da) imprensa

Leandro Marçal

É comum aos estudantes de jornalismo ouvir de seus pais e professores o quanto a profissão é odiada de parte a parte: desde os que se incomodam ao terem reveladas informações escondidas debaixo dos tapetes do poder aos que sentem manipulações – justificadas ou não, existentes na realidade ou nas infinitas teorias da conspiração – para a esquerda ou para a direita, para o clube A ou clube B, a favor deste ou daquele personagem.

De qualquer forma, os que atuam nesse ramo tão importante em todos os tempos – sejam eles de pós-verdades, autoritarismos, perversidades estatais e privadas, ou tudo isso junto – estão sujeitos a passaralhos, conflitos de interesses, salários nem tão glamourosos quanto a atividade na mente dos sonhadores, fins de semana de plantão e outros problemas comuns à profissão, tendo em vista que não há ofício sem contratempos nessa era de terceirizações irrestritas e surrupio de direitos dos que só querem ganhar o pão de cada dia.

Há também as tentativas de intimidação e estas podem surgir de diversas formas, como quando um político ou alguém poderoso investiga a vida do jornalista ou o ameaça. Também é possível fazê-lo aos gritos diante de câmeras, como fez o treinador Eduardo Baptista após a virada épica de seu Palmeiras frente o Peñarol, seguida de mais uma cena triste de violência dentro e fora de campo, aplaudida pela imbecilidade dos que pedem paz no futebol enquanto enchem os olhos e a libido com discursos demagogos de quem se esconde atrás da Bíblia depois de incitar a boçalidade.

Já não é a primeira e não será a última vez que alguma figura pública se utiliza dos gritos para tentar se colocar acima dos que atuam em uma cobertura jornalística diária. (Não vou relembrar a ditadura e sua censura, acalmem-se). Uma rápida pesquisa no Google nos mostra uma série de momentos em que outros treinadores deram respostas atravessadas – um direito seu – quando confrontados por questionamentos longe de um certo circo que ronda o jornalismo esportivo, nem sempre preocupado com o que de importante cerca o futebol, mas dando importância desmedida a piadas e números acrobáticos que aumentem a audiência e diminuam a qualidade do meio.

Tão evidente quanto o fato de ser direito do técnico verde de se irritar com o possível vazamento de uma informação divulgada por Juca Kfouri antes da partida, seja ela verdadeira ou não, está a certeza de que tal desabafo não viria se houvesse um revés no jogo em que o primeiro tempo de sua equipe foi tão patético quanto seu piti de quem desconhece os meandros do exercício da função alheia. O jornalista vive de fontes, caro Eduardo Baptista, e nossa Constituição resguarda esses profissionais de as revelarem. Mas isso você não deve ter estudado, como alguns comentaristas e palpiteiros também fizeram com o esporte ao qual você se dedica e nisso eu preciso concordar que há muito falatório com pouco embasamento em tantos casos por aí.

Mas justificar o vômito travestido de uma pseudo-aula do ofício alheio motivado por uma informação que lhe incomodou é tão patético quanto o festival de imbecilidade exibido ao fim da partida tensa. Inadmissível.

Disse alguém que os cães latem, mas a caravana não para. O bom jornalismo vai apanhar e seguir adiante, sendo contestado quando de direito, da forma correta, como não foi o caso.

A mesma categoria que não deve ser condenada num todo pelo 7 a 1 eterno, por exemplo, repete exaustivamente o mantra de desqualificar todos os profissionais de uma área, quando confrontados. Como se fossem acima do bem e do mal. Como se não dependessem da mídia para que o futebol movimentasse tanto dinheiro, basta lembrar que eles ganham mais do que quem os cobre, não é?

E já que o clubismo tonto parece prevalecer sobre a verdade, repete-se a fórmula de culpar a imprensa pelos problemas dentro de campo, criando um inimigo invisível contra o qual não se batalha nos momentos em que a reportagem é chapa-branca.

Que os gritos e a imposição pela força não intimidem os bons argumentos, a realidade dos fatos e os bons.