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Na fila

Leandro Marçal

Naqueles dias, sentia uma brutal inveja dos colegas de infância. No colégio, fingia não ligar para futebol quando ouvia os papos sobre finais nos finais de semana. Nelas, meu time nunca estava presente. Na rua, meu clube de coração não era gritado após gols ou grandes defesas antes que o céu escurecesse e a mãe chamasse para dentro de casa. Eu era um solitário.

Alternava um ano contra o rebaixamento, o outro no mar sem ressaca da zona intermediária da tabela. Ficava com a água pelo queixo, vez ou outra a movimentação a aproximava do nariz. Logo, a maré baixava e eu permanecia olhando o sol, esperando o tempo passar.

Enquanto os rivais contavam títulos, eu nomeava os tantos técnicos demitidos, ano após ano. Meus namoros fracassados duravam mais que as passagens dos professores pelos vestiários e centro de treinamento das minhas cores. Nenhum salvador da pátria dava orgulho à nação.

Naqueles dias, aprendi a duvidar de todo tipo de otimismo. Isso nunca serviu para nada.

Classico tradicional do futebol paulista Portuguesa de Desportos x Juventus jogaram no estádio do Canindé pela Copa Paulista. A tradição aliada a perseverança de seus abnegados torcedores  não abandonam  a equipe, e tornam a "rivalidade" uma lenda através dos anos. Foto Léo Pinheiro/C41Estudio

A tradição aliada a perseverança de seus abnegados torcedores não abandonam a equipe, e tornam a “rivalidade” uma lenda através dos anos. Foto: Léo Pinheiro/C41Estudio.

Passei a ignorar os cadernos de esportes. Nunca fui de colecionar pôsteres e jornais históricos. Nunca via os grandes ídolos levantando taças, com destaques nas bancas de jornal às segundas-feiras. Nunca via grandes ídolos. Não tinha esperanças na esperança, não acreditava em futuro.

Ouvia piadas sobre o tempo na fila. Dava risadas amarelas ao ver alguém com uma cicatriz no braço ou na perna, insinuando ter mais pontos que minhas cores na tabela, com uma posição medíocre nos melhores tempos.

Quando a campanha desse ano começou modesta, já desistia de sonhar. Não foram poucas as vezes em que pensei na ressurreição da nossa honra, morta ainda no útero. Não fui para o mesmo caminho dos mais fanáticos, bravos com a imprensa que nos dava pouca atenção, xingando os comentaristas incapazes de enxergar algo novo acontecendo com a gente. Bobagem, o final desse filme nunca é feliz. Se muito, vira uma comédia em que só os rivais dão gargalhadas. E eu me recuso a chorar desde o começo da idade adulta.

Não era possível que continuaríamos ali, depois da metade da competição. Era um resultado sofrido, outro gol chorado, um milagre daqui, uma ajuda casual da arbitragem dali. Parecia que tudo estava acontecendo. Alguma fé renascia. Logo eu, tão cético. Não me iludia há um tempo. Não queria me iludir com a desilusão.

Hoje resolvi tomar sol, perder a voz, dividir a arquibancada com gente desconhecida. Se o título não vier hoje, chega próxima semana. Ou na outra. Ou mês que vem.

No fundo, sei que não desisti. Algum otimismo nessa camisa ainda resta. Há uma fé na história centenária. Mesmo na fila, não cansei de esperar. Calado, fui o maior dos torcedores. No meu canto, engolindo o choro, sofri mais que todos ao redor.

Esse time ainda me mata do coração, mas não hoje.