112.14

Na frente de todo mundo?

Leandro Marçal

Meus amigos da 7ª B se aglomeravam ao redor de um monitor de tubo, branco, com um teclado duro e menos ágil que o do notebook com o qual vomitei essas irrelevantes palavras. Faltava pouco para o fim do período de uma hora na lan house da família de um deles e fui o corajoso a me aventurar numa novidade daqueles tempos, o Orkut.

Havia um interrogatório digital para finalizar o perfil, com perguntas que não faziam sentido numa época em que era insano divulgar para o mundo a localização, os afazeres, os pensamentos. Faltava responder a uma pergunta para, no dia seguinte, anunciar ao restante da sala que eu também estava no tal do Orkut, não era mais um excluído do mundo digital.

– Gosta de demonstrações públicas de afeto? – questionou, meio sem entender o sentido da questão, Silvinho, o filho do dono. Ele me ajudava a criar um perfil na saudosa rede social.

– Não, claro que não – respondi, em tom de arrogância.

Mais de dez anos depois, me perdi no refeitório da firma em frente à TV, presa num suporte alto, à vista de todos. Só poderia alcançá-lo esticando os braços e me equilibrando na ponta dos pés. Os colegas conversavam sobre mulheres, dinheiro, bebidas e carros. Eu via a apresentadora chamando uma matéria sobre o fiasco de um jogador na apresentação a seu novo clube, para o qual chegava como salvador da pátria. Você deve saber de quem falo, mas pode imaginar algum de sua preferência.

Na hora de fazer as tradicionais embaixadinhas diante dos fotógrafos, ele se desequilibrou. Tentou de novo, não bateu a chutou por mais que três vezes e ela se distanciou, melancólica, à distância. Fez cara de sem graça, desistiu, o presidente do clube fez uma brincadeira sem sentido para desviar o foco. Lembrei meus bons tempos de brincadeiras com bola no intervalo das aulas, ainda na 7ª B. As rodas de bobinho poderiam ser batizadas com meu nome. Era incapaz de equilibrar o objeto esférico como alguns malabaristas e passava vergonha.

Mesmo que, aos trancos e barrancos, marcasse um gol de canela e outro depois de um desvio acidental no interclasses, ninguém me elogiava, só ficavam as brincadeiras na memória. Não era mau jogador, não. Mas tremia na hora de me apresentar assim, na frente de todo mundo. Como nos mal sucedidos namoros, em que tomava broncas por ter vergonha de dar as mãos ou mudar de assunto para não trocar amassos assim, em público, constrangendo quem estivesse perto. Mas eu era um bom companheiro, dizia. Isso não é o suficiente, elas respondiam. Precisava demonstrar, deixar claro.

Os torcedores pensam: não vai dar certo, olha a vergonha que esse desgraçado passou logo na apresentação, vai virar meme, motivo de chacota dos rivais. Os mais sensatos respondem: calma, gente, não quer dizer nada, nas decisões ele pode arrebentar, podia não estar em um bom dia, coisa assim. Nada convence.

Penso em como os jogadores que passam vexame em suas apresentações responderiam ao questionário para criar o Orkut. Talvez eles não gostassem, também, das demonstrações públicas de afeto. Mesmo que isso não signifique nada, para o bem e para o mal.