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Nação Corinthiana: a narrativa e o envolvimento político da Gaviões da Fiel

Gabriel Assis Farias

A fundação do Corinthians acontece em um contexto histórico onde o futebol ainda era esporte predominantemente da elite, neste caso específico, a paulista. De acordo com Waldenyr Caldas (1994), é a partir do retorno de Charles Miller da Inglaterra, em 1894, e de seu entusiasmo com o futebol, que o esporte é introduzido no país e, mais precisamente, junto à elite paulistana. Importante salientar que o início do futebol no Brasil estabelecido pela elite, também tinha características de exclusão racial, portanto, nota-se “[…] aparelhamento político-racial do futebol pelas elites brancas” (RIGO, 1996, p. 57). Ao observarmos a conjuntura do início da prática do futebol no Brasil, percebem-se características socioculturais e históricas em contraste, estes aspectos ficam evidentes se analisarmos a relação de oposição entre as classes sociais – elite e o proletariado – e a perspectiva racial entre brancos e negros. Além disso, nas décadas de 1920 e, principalmente na década de 1930, após a tomada do poder por Getúlio Vargas, a comunidade do futebol irá debater a profissionalização do esporte. Assim, é diante desta realidade histórica em que acontece a origem do Sport Club Corinthians Paulista.

O clube foi fundado por cinco jovens operários que trabalhavam na Estrada de Ferro São Paulo Railway. “São eles: Joaquim Ambrósio e Antônio Pereira (pintores de parede), Rafael Perrone (sapateiro), Anselmo Correa (motorista) e João da Silva (trabalhador braçal).” (UNZELTE, 2003, p. 42). A relação que podemos perceber entre a equipe do Corinthians com a grande massa, que é a sua torcida, acontece em dois aspectos inerentes aos seus dez anos iniciais (1910-1920): suas raízes populares, isto é, fundado por cinco operários e em um bairro paulistano (Bom Retiro), composto majoritariamente pela classe proletária; ótimo desempenho esportivo em seus anos iniciais, conquistando assim o apoio de seu bairro de origem e arredores, à medida que o time fosse obtendo bons resultados, sua notoriedade aumentava, construindo assim um efeito onde a sua popularidade estaria em função de seus bons resultados. Deste modo, pode-se perceber que a grande torcida corinthiana, que hoje se apresenta em forma de uma coletividade democrática, sendo composta por várias identidades sociais, teve sua raiz nas classes populares.

Apresentada a relação social e histórica entre o Corinthians e a classe popular, é o momento de procurar entender e analisar o envolvimento e as ações da torcida corinthiana – mais precisamente a Gaviões da Fiel – na realidade política e social do Brasil. Assim, sobre este tema o autor Thiago José Silva Santana apresenta considerações sobre as torcidas de futebol e relações sociopolíticas intrínsecas ao esporte: “[…] é bom lembrar que futebol e política continuam andando bem próximos […] a despeito das tentativas de despolitizar o futebol, as torcidas seguem manifestando e repercutindo questões de ordem mais amplas da sociedade brasileira.” (SANTANA, 2018).

Deste modo, as narrativas de fundação e o modus operandi da agremiação estarão constantemente em diálogo contrastante com o período autoritário, tendo como o conjunto de memórias sobre as lideranças da organização diante dos movimentos contestatórios ao cenário social e político da realidade brasileira – de um regime civil-militar ditatorial – além do óbvio envolvimento com o clube paulista.

Bandeirão da Gaviões da Fiel. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Um destes casos é, evidentemente, o de fundação da primeira e maior torcida organizada do Corinthians, em julho de 1969, a Gaviões da Fiel. O contexto político da época da criação da Gaviões da Fiel, é o momento de recrudescimento do regime ditatorial, haja vista que alguns meses antes, em 13 de dezembro de 1968, foi assinado o Ato Institucional de nº 5 (AI-5), pelo então presidente-general Costa e Silva. “Definiu o momento mais duro do regime, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados.” (D’ARAUJO). O imaginário sobre o estabelecimento da organizada Gaviões da Fiel é fundamentado em “uma versão heroicizante que salienta a luta simultânea contra duas ditaduras […] os fundadores narram um nascimento heroico que superpõe o contexto ditatorial pós-AI-5 ao âmbito interno ‘ditatorial’ da política clubística.” (HOLLANDA; CANALE, 2019). Os autores ainda ressaltam que:

“[…] desde meados do século XX, o clube é tradicionalmente dominado por presidentes que se prolongam no poder, desde Alfredo Trindade (14 anos) até Wadih Helu (10 anos) e mesmo depois, com Vicente Matheus (18 anos). Configura-se, pois, aquilo que o cientista político Cláudio Couto (2017) chama com propriedade de “oligarquização” das associações desportivas, constitutiva de uma dualidade institucional que atravessa a maioria dos clubes, mas também as torcidas, que são, elas próprias, arremedos de organização clubística. […] Para além do heroísmo nos discursos retrospectivos dos líderes dos Gaviões, há uma conjuntura concreta da vida do clube que desperta e leva à ação: a penúria de títulos. […] Neste contexto de ‘humilhação’ para os rivais, era necessário da parte dos torcedores agir e pressionar por mudanças. […] Esta se opõe ao modelo das bandas musicais, contratadas pelos clubes até então – no Rio de Janeiro, conhecidas como charangas. Sem a tutela dos clubes, narra-se a mudança de postura, da passividade ao protagonismo.” (HOLLANDA; CANALE, 2019).

Acerca destes ideais e narrativas democráticas – ou contra os regimes ditatoriais –, o primeiro desafio que a Gaviões da Fiel, como instituição organizada, enfrentou foram as eleições para presidente do clube, em 1971. Os candidatos para o cargo dividiu-se em duas chapas: a primeira, da situação, comandada pelo então presidente Wadi Helu; a segunda chapa, a de oposição, com o nome de “Revolução Corintiana”, apoiada pela Gaviões da Fiel. A relação entre a chapa e a agremiação aconteceu, como os autores esclarecem, a partir de uma base ideológica e em promessas feitas, como “o fim da reeleição à presidência do clube; o término do acúmulo de cargos políticos concomitantes à presidência corintiana; e uma reformulação do Departamento de Futebol.” (HOLLANDA; CANALE, 2019). Este vínculo entre as lideranças da Gaviões da Fiel e Vicente Matheus, o vice-presidente da chapa “Revolução Corintiana” e que no futuro tornar-se-ia presidente do clube, se estende por toda a década de 1970.

Esta vinculação entre a agremiação e o poder de Vicente Matheus renderia alguns questionamentos sobre o ideal democrático que ambos defenderam no momento que levantaram a bandeira de revolução no clube com a candidatura de oposição nas eleições de 1971, pois ao se inserir no jogo de poder institucional dentro do clube apoiando uma das linhas de poder, a narrativa de que a Gaviões da Fiel se portaria como órgão fiscalizador sofreu certo abalo, mas que não colocou em xeque todo o prestígio conquistado pela agremiação em pouco tempo. Todavia, se a imagem de força autônoma e fiscalizadora fragilizou-se quando houve a união entre a diretoria do clube e os líderes da torcida, e no que pesa o tocante a democracia e, com isso, a rotatividade do poder sobre agremiação, Hollanda e Canale explicam:

“Assim, em cinquenta anos de história da agremiação, mais de duas dezenas de nomes diferentes estiveram à testa da entidade. A representação, que hoje se dá por votação direta, já foi também indicação e atribuição do conselho deliberativo, constituído por membros eleitos e permanentes, que têm a incumbência, por sua vez, de votar no candidato à presidência e à vice-presidência da Gaviões, para um mandato com validade de dois anos.

Trata-se de um sistema de alternância de poder com duração e longevidade sem precedentes no universo dos torcedores brasileiros.

Em particular, quando comparamos o modo tradicional de representatividade das lideranças e de ocupação da presidência em outras torcidas, mais suscetíveis à influência do carisma e à imposição física dos subgrupos mais estruturados à frente da entidade, num jogo de influências entre as bases territoriais torcedores que não eliminam disputas corporais, coações e intimidações na busca por supremacia.” (HOLLANDA; CANALE, 2019).

Portanto, toda a ideologia e a narrativa estabelecidas na fundação da Gaviões da Fiel são construídas a partir da realidade histórica e política do Corinthians  e da nação brasileira, sendo assim, justifica-se toda a atuação política que a torcida se engajou a partir de sua criação. Um dos casos mais famosos, nesta perspectiva, é o de apoio ao movimento que reivindicava a Anistia. O manifesto público em apoio à Anistia aconteceu no estádio do Morumbi, completamente tomado por torcedores de ambos os clubes, durante uma partida contra o Santos, em 11 de fevereiro de 1979. Uma grande faixa foi aberta onde se encontrava a torcida do Corinthians, nela estava escrito o manifesto em apoio ao movimento: “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”, transformando-se em um dos marcos da história política do futebol brasileiro.

Torcida do Corinthians com faixa com os dizeres “Anistia ampla, geral e irrestrita” antes da partida contra o Santos, válida pelo Campeonato Paulista, realizada no estádio do Morumbi, em São Paulo, 11 de fevereiro de 1979. Foto: Arquivo Pessoal de Roberto Jardim/Reprodução.

Não obstante, a relação da Gaviões da Fiel com o movimento da Democracia Corinthiana se desenhou de maneira tão desafiadora e contraditória quanto ao vínculo firmado com as diretorias de Vicente Matheus. Isto é, ao mesmo tempo em que a agremiação estabelecia-se como um centro de poder dentro e paralelo ao clube, no momento em que se vinculou com a casta dirigente dominante do Corinthians, teve como consequência o pequeno abalo em sua estrutura ideológica autodenominada de órgão fiscalizador, mas ainda preservou certa margem de atuação nos moldes de seus princípios iniciais. O posicionamento da torcida organizada perante a questão sobre a Democracia Corinthiana era percebido, no mínimo, de maneira dúbia. Pois, “[…] ora apoiando-a de maneira incondicional ora repudiando com veemência o movimento, segundo o lema: ‘Democracia, sim; bagunça, não’.” (HOLLANDA; CANALE, 2019). Porém, esta visão ambígua e crítica sobre a experiência democrática no Corinthians entre os anos de 1981 a 1985 tem sido deixada de lado na memória da agremiação, segundo os autores. Assim sendo, é interessante notar a relação entre torcida e clube de futebol. Isto é, perceber a conexão entre a torcida corinthiana – neste caso, representada pela Gaviões da Fiel – e o Corinthians, demonstrando que esse elo vai muito além de uma estrutura apenas afetiva. Assim:

“O importante é chamar a atenção para a construção narrativa de um clube, em paralelo à representação de uma de suas torcidas mais antigas e exemplares, que soube se transformar em uma organização popular autônoma, com vida própria, ainda que orbitando em torno do futebol.” (HOLLANDA; CANALE, 2019).

Ato organizado pela Gaviões da Fiel no Vale do Anhangabaú contra os clássicos com torcida única, máfia da merenda, ditadura nos estádios. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

A história de fundação da Gaviões da Fiel tem sua narrativa estruturada a partir da ideia de luta contra duas ditaduras, luta contra a opressão e a busca pela democracia. Logo, sua ideologia firma-se em um território de grande atuação sociopolítica, que leva a agremiação a se envolver e se posicionar – como nas eleições de 2018 e neste momento de manifestações antifascistas e pró-democracia –, em diversos momentos, em favor ou contra aspectos políticos tanto do país, quanto do clube. Remetendo, assim, aos seus valores históricos e ideológicos de sua fundação.

Referências bibliográficas

CALDAS, Waldenyr. Aspectos sociopolíticos do futebol brasileiro. Revista USP, 1994.

D’ARAUJO, Maria Celina. Fatos & Imagens – O AI-5. CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; CANALE, Vitor dos Santos. O jubileu de ouro de uma torcida organizada: ditadura, democracia e a construção da memória dos Gaviões da Fiel (1969-2019). Ludopédio, v. 121, 2019.

RIGO, Luiz Carlos. Resenha: FILHO, Mario: O negro no foot-ball brasileiro. Rio de Janeiro, 1947. Movimento: Revista de Educação Física da UFRGS, Porto Alegre, ano III, n. 4, 1996/1.

SANTANA, Thiago José Silva. A torcida é um animal político e quer um futebol mais democrático. Ludopédio, v. 106, 2018.

UNZELTE, Celso. Almanaque do Corinthians. Revista Placar, Livro Especial 1263 B 10/2003. Editora Abril, São Paulo, 2003.