111.4

Nada acontece

Leandro Marçal

Começa o jogo. Não conheço a maioria em campo e perdi as escalações com gráficos e letras bonitas da TV. Sem problemas. Um toque de bola para cá, um trote para lá. Deito com o controle remoto na mão.

A visão escurece. O narrador anuncia as atrações do canal. Algo sobre a novela campeã de audiência. Um personagem descobre a traição da esposa, vilã conhecida do público. Será um choque, cenas lamentáveis no horário nobre.

Vejo a moça entrando em campo com a camisa de um dos times. Ela marca dois gols e garante a vitória. Acordo assustado, um grito parecia indicar o lance agudo. Vejo o replay, a bola passou longe. Lá se foram dez minutos desde os primeiros cochilos.

Aumento o volume. Já sei: vou fazer outras tarefas para não dormir. Se a partida for esquentando, volto para meu lugar, espanto o sono e continuo apreciando uma boa peleja. Pego papéis, desvio da vassoura, ouço os comentários do analista especializado no esporte.

Palavras estrangeiras, papos sobre transição, contra-ataques e novos reforços. Formação com quatro números – 4-3-2-1 ou 4-2-3-1, não sei bem. Diz que os adversários estão se estudando muito e isso demonstra o excelente trabalho tático dos treinadores. São dois estrategistas.

Entre um trabalho pendente e outro, fixo o olhar na televisão por alguns segundos. Toques para cá, bola rolada para lá. Uma correria de um lado, o técnico bravo do outro. Vai acabar o primeiro tempo.

Football player yawning

Tédio. Foto: Luis Molinero/Freepik.

O narrador anuncia os gols de outras partidas durante o intervalo. Parece que só o jogo da TV está 0 a 0. Uma série de atrações no canal, programas de entretenimento, jornalísticos com denúncias importantes ao fim da rodada. É o que dizem.

Nos melhores momentos, nenhum chute a gol, defesa, bola na trave. Só uma polêmica, lance de impedimento. Acho que não daria em nada. Mas o comentarista de arbitragem diz que estava 10 centímetros à frente e por isso o bandeirinha acertou. Falou de um jeito estranho, como se eles não errassem.

Começa o segundo tempo. Não há mais nada a fazer. Não quero dormir agora para não passar a madrugada insone. Correria para cá, uma falta violenta, a expulsão. Uma gritaria em campo.

Olho para fora, o sol é um convite. O fim de tarde continua bonito. Desligo a TV, fui ver a rua. Corro um pouco, encontro gente, marco de sair na próxima semana. Cumprimento os vizinhos, compro pão, brinco com um cachorro ali na esquina. Entro em casa satisfeito.

O tédio vai embora, o controle remoto descansa no braço do sofá. Não quero saber quanto foi o jogo.