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Nanismo e esporte paralímpico

Wagner Xavier de Camargo

A passagem da idade de seis para sete anos não marcou apenas minha saída da educação infantil (pré-escola, na época) para o ensino propriamente escolar. Estávamos no início dos anos 1980 e meus pais se mudaram para outra residência, num outro bairro da cidade, e minha vida social teve sua origem. Foi então que conheci meus/minhas primeiros/as amigos/amigas, numa sociabilidade ainda pueril, despretensiosa e cheia de aventuras. Hoje tenho orgulho de ter tido aquela infância que posso classificar como diversa: dentre eles e elas havia pessoas muito pobres, com sobrepeso, negras, homossexuais e com deficiência. Em especial, meu melhor amigo à época tinha nanismo.

Nossas relações eram muito confidenciais, de auxílio mútuo. Meus pais eram razoavelmente instruídos, mas não sabiam lidar com informações de cunho específico. Para eles, seus filhos tinham um amigo “anão”. Durante os anos escolares, acompanhava meu amigo crescer e me lembro muito bem que, durante certo tempo, éramos do mesmo tamanho. Na verdade, naquele momento, nem sabia o que era nanismo. Comecei a estranhar quando, conforme avançávamos nos anos e na idade, eu espichava e ele continuava com a mesma altura.

Naquele tempo de minha infância, chamava meu amigo carinhosamente pelo nome no diminutivo, porém logo interrompi tal hábito. Este talvez tenha sido um dos primeiros momentos de amadurecimento pelo qual passei. Na minha cabeça ainda de criança percebia, intuitivamente, que as pessoas no nosso entorno (principalmente na escola) usavam tal recurso para infantilizá-lo, disfarçando tal apelo com ares jocosos. Sem querer e sem ninguém me informar, saquei que a infantilização era uma forma de preconceito que as pessoas usavam para um deboche velado ou uma piada encoberta, feita em meio às brincadeiras ditas afetivas.

Bruno Carra, do Halterofilismo, foi medalha de prata nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, no Canadá, em 2015. Foto: Divulgação/Marcelo Regua/MPIX/CPB.

Sua mãe trabalhava na casa de meus pais e ambos, ele e ela, possuíam braços e pernas mais encurtados em relação a seus corpos, cabeças grandes e troncos “normais” se comparados a outras pessoas adultas. Eram acometidos por acondroplasia, um dos tipos mais comuns de nanismo, muitas vezes de causa genética. O mais divertido para as crianças em casa era subir num banquinho disponível junto à pia da cozinha para ajudar a mãe de meu amigo a lavar louça ou fazer um bolo.

Num mundo “adultocêntrico”, pessoas de baixa estatura chamam atenção pela pecha caricatural e pelo estigma a elas instituído. Infelizmente, a relação das pessoas com sujeitos com nanismo é via sua deficiência e isso parece que resume este indivíduo à patologia que o acomete. Eles são mais do que isso e não podem ser subsumidos a um aspecto peculiar de suas existências.

Ainda enquanto eu trabalhava junto a organizações de esporte para pessoas com deficiência, com o desenvolvimento do paralimpismo no país, começaram a aparecer os primeiros casos de nanismo no alto nível esportivo. O número de atletas brasileiros/as nesta condição era ainda raro, isso lá nos primeiros anos do século XXI. A grande maioria dos/as atletas paraolímpicos/as com deficiências físicas era oriunda de amputações ou mutilações por acidentes, atrofias ou malformações congênitas.

Jonathan Santos levou o ouro no arremesso de disco no Mundial Paralímpico de Atletismo de Lyon, em 2013. Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB/Divulgação.

Apesar do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) acolher casos de nanismo dentro das chamadas “deficiências físicas” e representá-las junto aos Jogos Paralímpicos, há também outros espaços competitivos para estes atletas, como os Jogos Mundiais de Anões (World Dwarf Games), cuja última edição ocorreu nos Estados Unidos, em 2013, ou mesmo os Mundiais das modalidades específicas, nos quais tais paratletas podem participar.

Depois dos Jogos Paralímpicos Rio-2016, houve um boom de desenvolvimento de vários esportes até então pouco representados (como o Parabadmington) e mesmo houve um maior engajamento de inúmeras pessoas com deficiência na prática do paraesporte. Isso é particularmente válido no caso do nanismo.

Historicamente até os Jogos Paralímpicos de 1972, ocorridos em Heidelberg, Alemanha Ocidental (naqueles anos), apenas participavam atletas que faziam uso de cadeiras de rodas. Foi nos Jogos Paralímpicos Toronto-1976, que outros tipos de deficiência começaram a competir, como os com deficiência visual e os alocados na categoria Les Autres – que possuem deficiências físicas outras, malformações congênitas, alguns tipos de paralisia cerebral, nanismo ou síndromes que levam a déficit motores.

Portanto, é relativamente recente a participação de atletas com nanismo em modalidades paralímpicas, tanto em âmbito internacional, quanto na realidade do país. Por sua vez, a mídia brasileira tem noticiado as participações e mesmo resultados de alguns/mas atletas com nanismo, e isso é sintomático de dois aspectos importantes: de um reconhecimento de um espectro mais plural das deficiências físicas e, além disso, de que sujeitos com nanismo não são invisíveis, como muitas vezes trata o senso comum.

É o caso de Bruno Carra, do Halterofilismo, que ficou em 4º lugar na categoria de seu peso corporal nos Jogos Paralímpicos Rio-2016, e quebrou recordes em eventos nacionais e mesmo em Jogos Parapanamericanos (como o de Guadalajara, 2011); de Jonathan Santos, das provas de campo do Atletismo, cuja primeira participação exitosa foi em Londres-2012; de Adriel Souza Salino, atleta do Clube Vasco da Gama, que há mais de dez anos treina natação paralímpica. Ou ainda, novos talentos recém-iniciados em suas respectivas modalidades, como Márcio Dellafina, do Badmington, que treina em Campinas e se destacou eventos internacionais da modalidade em 2017 e 2018, e também, Mariana D’Andrea e Clayton Duarte, ambos do Halterofilismo, que se inspiram em Bruno Carra e dividem as instruções do mesmo técnico.

De volta às minhas saudosas memórias, meu amigo com nanismo tocou sua vida como alguém comum, distante do esporte. Em dado momento fomos separados, primeiro do convívio, depois do contato um com o outro. Às vezes recebia notícias dele por sua mãe. Se envolveu com drogas, viveu o alcoolismo, se recuperou. Se as informações corressem rápido como hoje, talvez houvesse uma chance para que fosse incluído num desses programas de esporte, responsáveis por oferecer variados tipos de experiências às pessoas com nanismo, inclusive as de poder viajar e representar associações ou mesmo o país. Além dos inegáveis benefícios psíquicos e sociais que isso tudo proporciona, talvez não tivéssemos nos afastado em termos de amizade.