110.15

Não admitimos falhas

Leandro Marçal

– Falhou?

– Claro que falhou. Olha aí o replay!

– Rapaz, presta atenção, era impossível pegar.

– Não era, não. Esse cara não tem tamanho pra jogar aqui.

– Rapaz, não falhou, não…

– Foi pior, foi frango?

– Não, não. Acho que não dava. Não teve chance, tava vendido.

– Virou advogado?

– Que nada, não gosto dele também. Mas não falhou, não!

– Ah, pelo amor de Deus, cara!

– Olha aí, vai mostrar o replay.

– Cadê?

– Pronto, tava ali com a visão encoberta e…

– Visão encoberta porque não sabe se posicionar.

– Cara, foi muito rápido, ele não tinha chance.

– Quando era o outro lá, ninguém falava isso.

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Quem era melhor? Foto: Arthur Puls (CC BY-NC-SA 2.0).

– O outro quem?

– O outro, o Maior.

– E o que tem a ver o Maior com esse aí?

– Tudo, esse aí ficou no lugar do Maior, deveria ser tão bom quanto o Maior.

– Como assim?

– Ué, essa imprensa aí sempre pegou no pé do Maior, por qualquer lance.

– Onde?

– Em todos os programas esportivos. Eles mal falam da gente, só do outro time.

– Qual outro time?

– O outro time da cidade.

– E o que tem a ver uma coisa com a outra?

– Ah, foi falha, isso é o que importa, para de mudar de assunto.

– Mas foi você quem mudou.

– Eu?

– É.

– Ah. Olha aí se não falhou.

– Cara, não dá pra comparar esse aí com o Maior. O Maior foi o Maior, esse aí é esse aí.

– Não importa. Nunca vou perdoar uma falha desse aí.

– Mas por quê?

– Porque precisa ser muito bom, tipo o melhor de todos, pra vestir a mesma camisa que o Maior vestiu.

– Cara, acho que você tá pegando no pé desse aí.

– Desse aí e de todos que vierem depois do Maior.

– Mas por quê? Não faz sentido…

– Pô, eu vi o Maior jogar, exijo respeito e um mínimo de excelência.

– Nostalgia?

– Pode ser. Mas precisa ser igual ao Maior pra vestir essa camisa.

– Mas não foi falha, para com isso!

– Beleza, advogado.

– É sério, promotor…