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Não mudarei meu nome

Marcos Teixeira

“Quer saber? É bem feito! Mudo meu nome se os clubes unirem-se de fato para reverter isso. Principalmente os cartolas paulistas, esse bando de frouxos que diz amém a tudo que ele faz desde a época da FPF, quando já eram picados pelo escorpião de Esopo.”

Com este parágrafo eu encerrei um dos meus últimos textos aqui no Ludopédio, como você, leitor, pode conferir aqui. Eu tratava do passa-moleque que a CBF deu nos clubes ao elaborar, revisar, aprovar e promover a mudança do estatuto, que tirava poderes dos clubes e aumentava os das federações, todas elas rezando no catecismo delneriano, evidentemente.

Um escárnio que fere todas as leis do esporte.

Dias depois, alguns dirigentes se mostraram indignados com a questão. Modesto Roma Jr, presidente do Santos, disse em reportagem de Gabriela Moreira, da ESPN, que “não é ganhar ou perder, temos o direito de opinar. O que fizeram deixa os clubes com uma pergunta: é isso o que nós queremos? É este futebol que nós estamos buscando?”

A CBF até se adequou à Medida Provisória nº 671,de 19 de março de 2015, a chamada MP do Futebol e, dentro da reforma estatuária que aprovou enquanto a Seleção Brasileira estava em campo, não por coincidência, deu voto aos clubes da Série B, mas alterou o peso dos votos das federações estaduais para 3 e dos clubes da Série A para 2, mantendo maioria. Numa situação em que os clubes queiram tirar força dessas federações, perderiam por 81 a 60, isso se todos os clubes votantes fecharem questão.

Eis que Bahia, Atlético-PR, Coritiba, Atlético-MG, Flamengo e Fluminense resolvem promover um encontro para discutir o assunto. Escolheram a cidade de São Paulo para atrair os grandes clubes da capital paulista, mas os clubes da São Paulo, incluindo o Santos de Modesto Roma Jr, fecharam questão em torno da decisão da Federação Paulista de Futebol, sob as ordens do todo poderoso Reinaldo Carneiro Bastos, de boicotar o movimento anti-CBF que começava a ser desenhado para questionar as mudanças na carta maior da entidade (que deveria ser moralmente também) maior do futebol nacional.

Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo FIFA Brasil 2014 (COL) realiza audiência pública interativa com presidentes de federações de futebol dos estados do Ceará, Goiás, Pernambuco, Espírito Santo, Rondônia e Amapá. Em pronunciamento, o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado.

Mas não é de hoje que a CBF anda à margem da Lei. O parágrafo 5º do artigo 20 da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998, popularmente conhecida como Lei Pelé, diz que “é vedada qualquer intervenção das entidades de administração do desporto nas ligas que se mantiverem independentes”. O parágrafo 6º do mesmo artigo diz que “as ligas formadas por entidades de prática desportiva envolvidas em competições de atletas profissionais equiparam-se, para fins do cumprimento do disposto nesta Lei, às entidades de administração do desporto, que são as federações estaduais e a CBF. mas esta, em estatuto, se dá o direito de permitir ou não a realização destas ligas, o que de antemão inviabiliza qualquer tentativa de independência, uma vez que a FIFA e a Conmebol só reconhecem representantes de torneios que tenham o aval da tal entidade nacional de administração do desporto.

Exemplos de ligas bem sucedidas não faltam: Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália e Portugal, para ficar somente nas seis maiores da Europa, foram criadas em linha com as federações locais (as tais entidades de administração desportivas), que as reconhecem e indicam seus campeões e equipes bem classificadas como seus representantes em torneios internacionais. A Lei Pelé, em tese, até permite a criação de ligas independentes, mas quem investiria em um campeonato que seja como a Transamazônica, levando nada a lugar nenhum? Sem a participação dos grandes clubes, que não poderiam participar de um torneio pirata, seria natimorta ou morreria pouco tempo depois, como foi o caso da Dimayor, a Division Mayor del Futbol Colombiano, ou, caso queiram, a histórica Liga Pirata da Colômbia, que não reconhecia o valor legal dos passes dos jogadores de clubes de outros países e, por isso mesmo, foi considerada “pirata”, de acordo com o próprio Jules Rimet.

Ela se aproveitou da greve do fim dos anos 1940 no futebol argentino e no uruguaio para recrutar craques, convencendo-os com o melhor argumento possível: salários que seus clubes não poderiam pagar. E assim jogadores como Adolfo Pedernera, Alfredo Di Stefano e Nestor ‘Pipo’ Rossi, todos titulares da fortíssima Argentina tricampeã sul-americana, foram para o Millonarios de Bogotá, mas, com exceção de La Saeta Rubia, que foi para o futebol espanhol, todos foram devolvidos à La Maquina, como era conhecido o timaço do River Plate. Era assa a exigência da FIFA para reconhecer a Dimayor e cancelar as sanções ao futebol colombiano. Como dado histórico, os brasileiros de destaque que foram atrás do eldorado foram Elba de Pádua Lima, o Tim, já em fim de carreira, e o genial Heleno de Freitas, que estava brigado com Flávio Costa e não tinha a menor chance de ir à Copa de 1950.

Mais uma vez, os clubes têm a chance de se livrarem do jugo de uma entidade que sucateou o maior bem cultural do país, o futebol, mas precisam ter coragem para isso, coisa que ao menos os de São Paulo não mostraram que têm. São covardes ou mal intencionados.

Não sei o que é pior.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. Não mudarei meu nome. Ludopédio, São Paulo, v. 94, n. 13, 2017.